A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa

Eu já tive orgulho besta da nossa brasilidade linguista nos deixar distante do resto da América Latina, a que fala espanhol. Hoje lamento o quanto saímos perdendo. Até as traduções em português lusitano nos são difíceis, então temos que torcer para as nossas editoras fazerem traduções especialmente para nós. Enquanto isso, os mexicanos leem com a maior naturalidade livros publicados na Argentina e por aí vai. Nossa ignorância se estende aos autores latino americanos e sabemos que existiu Borges e olhe lá. Só essa ignorância explica que tão poucos saibam que Mario Vargas Llosa, premiado autor peruano que ganhou o Nobel de literatura de 2010, escreveu um livro excelente sobre a guerra de Canudos no início dos anos 80. Inspirado por Euclides da Cunha, Llosa fez uma extensa pesquisa histórica com documentos e visitou os locais onde aconteceu a guerra. O resultado é um romance vivo, informativo e que consegue nos atingir de uma forma que Euclides da Cunha já não consegue mais. Este trecho – belíssimo – mostra o quanto homem e natureza, que estavam separados n´Os Sertões, se unem no romance de Llosa e mostram um pouco do significado da figura de Antônio Conselheiro às milhares de pessoas que o seguiram:

Dava conselhos ao entardecer, quando os homens voltavam da roça, as mulheres tinham terminado seus afazeres domésticos e as crianças já estavam dormindo. Falava nos descampados lisos e pedregosos que há em todos os povoados do sertão, no cruzamento das ruas principais, e que poderiam ser chamadas de praças se tivessem bancos, coretos, jardins ou se ainda conservassem os que tiveram um dia e foram destruídos pela seca, pelas pragas, pela negligência. Falava na hora em que o céu do Norte do Brasil, antes de ficar escuro e estrelado, cintila em flocosas nuvens brancas, cinzentas ou azuladas e se vê lá no alto, sobre a imensidão do mundo, um vasto fogo de artifício. Falava na hora em que se acendem as fogueiras para espantar os insetos e fazer a comida, quando o calor sufocante diminui e sopra uma brisa que deixa as pessoas com mais ânimo para suportar a doença, a fome e os padecimentos da vida.

Falava de coisas singelas e importantes, sem olhar especialmente para nenhuma das pessoas que o cercava, ou melhor, olhando, com seus olhos incandescentes, através da aglomeração de velhos, mulheres, homens e crianças, para algo ou alguém que só ele podia ver. Coisas que se entendiam, porque eram absolutamente sabidas desde tempos imemoriais e absorvidas junto com o leite materno. Coisas atuais, tangíveis, cotidianas, inevitáveis, como o fim do mundo e o Juízo Final, que podiam acontecer, talvez, antes que o povoado reconstruísse a capela desmoronada. (p. 16-17)

O livro é um calhamaço de 600 páginas e de vez em quando o leitor se vê com a mesma impaciência dos exércitos: Canudos não vai cair nunca? Canudos se tornou um problema justamente por ter demorado a cair. Para nos fazer entender o significado de Canudos para a época e para as pessoas que influenciou, o Guerra do fim do mundo parte de diferentes pontos de vista, tanto de personagens centrais como de outros que surgem apenas em poucos capítulos e nos dão informações pontuais. Do “lado de fora” temos, dentre outros, o Jornalista Míope (cujo nome nunca é revelado e nos faz pensar numa homenagem a Euclides da Cunha), o comunista Galileo Gall, o monarquista Barão de Canabrava. São personagens que enxergam a guerra no seu sentido político e, entre prejuízos pessoais e equívocos, se sentem desafiados por um fenômenos que ultrapassa qualquer lógica. Ao lado do Conselheiro podemos citar: Beatinho, Leão de Natuba, Pajeú, Mãe dos Homens, Antonio Villanova, João Satã. Seu séquito era formado por bandidos e vítimas, religiosos e recém-convertidos, ignorantes e alguns poucos com cultura, alguns nem ao menos acreditavam em tudo o que ele dizia – mas todos eram dotados de grande sinceridade e fizeram de Canudos um projeto de vida. O único personagem cujo ponto de vista nunca conhecemos é do próprio Conselheiro, que termina o livro como um mistério: era um fanático ou um enviado de Deus? Visto como inimigo da República por pregar a volta da Monarquia, ele demonstra a triste confusão da ignorância ao se colocar contra o casamento civil e o sistema métrico decimal e acreditar que o censo tinha por finalidade re-escravizar os negros. Ao mesmo tempo, é impossível negar seu poder de persuasão, carisma, convicção e capacidade de falar ao coração do seu povo. Mesmo conhecendo a Guerra de Canudos pelos livros de história e por já fazer parte do nosso imaginário, Guerra do fim do mundo consegue resgatar no leitor o sentimento de Euclides da Cunha e de muitos que estiveram envolvidos naquela guerra: a vontade de que fosse diferente, a constatação do absurdo de dizimar um povoado com mais de vinte mil pessoas reunidas pela fé e a vontade de viver melhor.

Julgamento e punição em Black Mirror

Eu acredito que a série Black Mirror já virou uma referência cultural obrigatória. As três temporadas disponíveis (até a publicação deste post) possuem episódios com histórias e durações diferentes, que fazem pouca ou nenhuma referência entre eles, mas tem em comum o uso da tecnologia. Às vezes a tecnologia está implantada nos corpos dos personagens, mas sempre está nas vidas. É também através da tecnologia que existem as redes sociais, que tem como característica o imediatismo e a possibilidade de um julgamento público. É sobre as questões levantadas na série acerca de julgamento e punição que eu gostaria de falar. Antes de continuar, o spoiler alert obrigatório: falarei sobre os episódios indistintamente, entregando a história, então não leia se quiser descobrir sozinho.

Acho que o episódio punitivo por excelência é do Urso Branco (episódio 2, 2º temporada). Uma mulher acorda sem memória, num mundo dividido entre presas, caçadores e uma multidão de indiferentes que gosta apenas de olhar enquanto os dois primeiros grupos morrem. Depois de um dia terrível, descobrimos que tudo aquilo não passa de um imenso teatro televisionado que tem por objetivo punir a moça, que havia sido responsável pelo sequestro seguido de morte de uma criança. Várias coisas que ela foi encontrando ao longo do dia faziam referência à sua história, apesar de ela não lembrar porque teve a memória apagada: o símbolo usado nas telas, a fuga na floresta, cordas de enforcamento, imagens pelo celular, o termo Urso Branco. Depois de tudo revelado, ela é colocada de volta e entendemos que ela vive aquilo em looping, como punição. O mais chocante é quando vemos, depois dos créditos, a diversão que aquilo se torna àqueles que fazem o papel de público e pagam ingresso. Há até um carro especial que torna possível vê-la e odiá-la enquanto está amordaçada e confusa numa cadeira. Como ela é claramente culpada, então está liberado torturar e se divertir com isso.

Acho que não foi por acaso que as histórias que envolvem punição tem crianças envolvidas, porque ninguém nos parece mais monstruoso do que aquele que fere crianças. No Manda Quem Pode (episódio 3, 3º temporada) – o episódio menos futurista de todos – vemos um adolescente ser chantageado e, junto a outras pessoas também chantageadas, ter seus limites testados. O maior medo dessas pessoas é ter seus segredos revelados; no caso do adolescente, um vídeo onde se masturba. Com o que conhecemos a respeito dele e suas dificuldades de relacionamento, seu medo parece bastante coerente. Apenas no final o espectador fica sabendo que não foi uma masturbação qualquer: ele estava vendo pornografia infantil. Até então, tínhamos pena dele. Esse final parece lançar a pergunta: você continua com pena? Sendo o adolescente um provável futuro pedófilo, ele mereceu ou não o que fizeram com ele? A chantagem, nesse caso, adquire ares de justiça porque tendemos a dizer que Sim, que quem faz mal a uma criança é um monstro que merece sofrer. Nos minutos finais do Natal (episódio 4, 2º temporada), o policial se permite torturar por puro sadismo o duplo do assassino confesso que deixou uma criança morrer. Uma criança que ele pensou durante anos que fosse sua filha e que morreu por negligência e não por maldade deliberada. Ou seja, vemos o argumento da punição adquirir sutilezas: fazer mal a uma criança é sempre monstruoso ou existem gradações? A natureza do mal e como combatê-lo é um tema discutido no Engenharia Reversa (episódio 5, 3º temporada). Ao fazer com que os policiais vissem o seu alvo como “baratas”, desfigurados, meio zumbis, retirando deles a humanidade até mesmo nos cheiros e fluidos, tornava seu trabalho mais fácil – isentava da culpa de matar um igual. Retirar do outro a sua humanidade permitia devolver o mal com mais mal e violência. No episódio o olhar dos policiais era alterado por um aplicativo, mas cabe lembrar que, por definição, toda cultura é uma forma de olhar.

Black Mirror aponta as redes sociais como um amplificador imediato das vozes da maioria. E se as pessoas fossem avaliadas constantemente pelos outros e as que fossem melhores pessoas fossem premiadas pelo seu bom comportamento? Essa é a premissa, que à princípio soa como muito válida, do Queda Livre (episódio 1, 3º temporada). Nesse mundo, as cinco estrelinhas com que avaliamos alguns serviços são extrapoladas e entram como critério em valores de alugueis, passagens de avião, convites para festas. A personagem, na sua ansiedade em agradar, acaba se tornando irritante pelo seu visual rosa, sorriso constante e um tom de voz bonzinho – ansiedade essa presente em quase todos à sua volta, o que dá um tom falso e meio histérico às interações no episódio. Mesmo esse esforço constante não impede que a personagem receba avaliações negativas, algumas por circunstâncias injustas, como esbarrar em alguém na rua ou ser mal atendido. Essa pressão de agradar a maioria é manipulada pelo sequestrador do antológico Hino Nacional, o episódio 1 da 1º temporada. A princípio, ninguém achava que o primeiro ministro deveria ceder à pressão de fazer sexo com um porco, mas todos mudam de ideia após a divulgação do vídeo do sequestrador retirando o dedo da princesa. O que antes era absurdo se torna uma obrigação. Depois ficamos sabendo que o dedo não era da princesa e que ela foi solta antes mesmo do primeiro ministro se submeter às exigências. O sequestrador sabia que, ao contrário da história de Lady Godiva, o país pararia para ver aquilo – chocado, indignado, mas morbidamente curioso e sem poder ficar de fora do “acontecimento do ano”.

Numa visão bastante pessimista do que são as opiniões da maioria, em Black Mirror elas tendem pro imediatista, manipulado, violento e pornográfico. Quando começa o Quinze Milhões de Méritos (episódio 2, 1º temporada), a primeira sensação é que o protagonista, Bing, é alguma espécie de condenado, por ter que viver num espaço tão pequeno e ser forçado a assistir uma programação que claramente não é escolhida por ele. Depois descobrimos que não é assim, que o que nos parece castigo é uma forma de vida até mesmo privilegiada. Ele e os outros são os sujeitos que passivamente alimentam uma engrenagem complexa de consumo que não entendemos ao certo, mas que tem como um dos ideais estar dentro da tela, ser famoso, principalmente por ter triunfado numa espécie de X Factor. Cada um, dentro de seu cubículo, participa virtualmente da platéia desse programa, e é essa platéia que pressiona a jovem Abi a se submeter aos jurados que não a vêem como cantora e sim como uma excelente futura pornstar. Insensíveis à beleza e à pureza, como diria o protagonista mais adiante, a platéia se baseia apenas nos seus desejos e curiosidade para submeter a moça à industria pornográfica. Quando, mais tarde, Bing aparece no mesmo programa para ter voz e denunciar o modo de vida massificante e vazio a que todos estão submetidos, ele mesmo se torna uma estrela – seu discurso é aproveitado e esvaziado pelo próprio consumismo que ele tentou combater. Impossibilitado de salvar a todos, ele opta por salvar apenas a si mesmo.

O vilão de Odiados pela nação (episódio 6, 3º temporada) é justamente alguém indignado com a truculência da maioria e que procura fazer com que o ódio que ela nutre pelos inocentes da vez se volte contra elas. Usando abelhas eletrônicas, ele condena à morte todos aqueles que, irresponsavelmente, condenavam à morte pessoas que recebiam destaque negativo nas redes sociais. Com esse pressuposto de que quem deseja a morte merece morrer, isso promoveria uma verdadeira limpeza, apenas os maus seriam atingidos pelas abelhas. Novamente a encontramos a noção de mérito e eugenia, mas desta vez contra aqueles que normalmente são platéia. Mas, se as abelhas atacaram apenas os indivíduos violentos, por que no final do episódio vemos uma multidão furiosa em torno do carro da policial encarregada do caso? O assassino, ao condenar a morte todos os que usavam a hashtag mortífera, agiu dentro da mesma lógica daqueles que pedem chacinas e extermínio de condenados: como se a maldade fosse isolável, presente em alguns indivíduos e não em outros, e com a morte dos que possuem essa característica, ela seria eliminada da mesma forma que se isola e elimina uma doença. Não funcionou no episódio, nunca costuma funcionar em sociedade. A maldade, como mostraram os episódios anteriores, está difundida, massificada, recheada de desejos e ignorância, representada por uma multidão anônima que não tem noção e nem responsabilidade por suas consequências.

 

Ubik, de Philip K. Dick

Saber que Philip K, Dick era um escritor bastante adaptado para o cinema, que dele são Blade Runner e o Vingador do Futuro, ao invés de me animar a ler deram aquela preguiça, a mesma que a gente se vê tendo com Jorge Amado: se eu já vi na TV, já sei o que acontece, então vou dedicar o meu tempo lendo algo diferente. Mas como sou fã de ficção científica, foi se tornando obrigatório para mim ler PKD. Peguei Ubik sem ter a menor ideia do que se tratava, apenas pela capa, que dizia: na lista dos cem melhores romances em língua inglesa da Time. E sabia que não tinha virado filme.

Refletindo, Pat disse:

-Parece uma coisa tão… negativa. Eu não faço nada. Não faço os objetos mexerem, não transformo pedras em pão, nem dou a luz sem fecundação ou reverto processos patológicos em pessoas doentes. Nem leio mente. Nem vejo o futuro, nenhum talento comum do tipo. Só anulo a habilidade de outra pessoa. Parece… – Ela gesticulou. -Bestificante.

-Como fator de sobrevivência da raça humana – explicou Joe – , é tão útil quanto os talentos psi. Especialmente para nós, Padrões. O fatos antipsi é uma restauração natural do equilíbrio ecológico. Um inseto aprende a voar, então outro aprende a construir uma teia para prendê-lo. Isso é o mesmo que não saber voar? Os mariscos desenvolveram conchas duras para se protegerem. Portanto, pássaros aprenderam a voar com o marisco para o alto e largá-lo numa rocha. Nesse sentido, você é uma forma de vida predadora para os Psis, e os Psis são formas de vida que têm como presa os Padrões. Isso faz de você uma amiga da classe dos Padrões. Equilíbrio, o ciclo completo, predador e presa. Parece ser um sistema eterno, e, francamente, não vejo como poderia ser melhorado. (p.33-34)

É um livro perturbador. Primeiro porque, como em toda ficção científica, a gente se vê num mundo diferente e se apega nos poucos indícios que o autor nos dá – fechaduras que exigem 5 centavos para abrir, mortos que mantém a consciência por sistemas de meia vida, viagens a longa distância feitas com facilidade – para entender no que aquele mundo difere do nosso. PKD localiza esse livro na década de 90, mas obviamente ela não é os anos 90 que nós vivemos. Estamos ainda nos acostumando com uma guerra entre talentos de espionagem entre empresas, feitas por pessoas com capacidade de ler pensamentos e influenciar decisões, quando surge uma moça com um talento difícil de entender e que modifica o passado. Depois de um acontecimento chave, toda realidade em torno do protagonista – que também não é claro logo nas primeiras páginas – deixa de fazer sentido. A moça e seu talento misterioso têm algo a ver com isso? O acontecimento chave alterou a relação espaço/tempo? Os fatos envolvem apenas os personagens ou é um acontecimento de escala global? Parece difícil que o autor consiga dar um final satisfatório a tantas questões e ele dá. Na verdade, mais de um, as informações parecem surgir como caixas dentro de caixas. Não tem como não terminar o livro rendido à mente de Dick: o sujeito era um gênio.

o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe

Quando pedi indicação aos meus amigos de FB e dei três possíveis livros do Valter Hugo Mãe para ler – A máquina de fazer espanhóis, O filho de mil homens e O remorso de Baltazar Serapião – este foi o único que não teve nenhum voto. Durante a leitura, e principalmente ao terminar, acredito ter entendido o motivo. Ele não tem nada a ver com a qualidade do livro, que é imensa, e sim, digamos, a uma certa angústia politicamente correta do mundo. A ação é centrada em Serapião e o que ele nos apresenta um mundo onde o leitor adivinha uma organização medieval da existência, onde as mulheres são consideradas misteriosas, inferiores, maléficas e poderosas. São muitos os trechos, todos ótimos, que tratam disso. Elas são a preocupação central de Serapião.

à brunilde rebentou-lhe no meio das pernas em sangue, um dia em que carregava palha para os animais. ficou assim encarnada no meio do campo, a chamar a minha mãe em surdina e a dizer nojices com as mãos nas suas partes da natureza. era assim como se rebentasse um fruto maduro, um tomate que se desfizesse, e ali ficasse a sair-lhe de dentro, a cheirar mal e a doer. a minha mãe roubou-a dos nossos olhos, furiosa com o destino, e todos soubemos que se cobririam uma à outra em segredos, semelhantes e porcas de corpo, condenadas à inferioridade, à fraqueza. um corpo que as obrigava, sem falta, a uma maleita reiterada, como um inimigo habitando dentro delas, era o pior que se podia esperar, um empecilho de toda perfeição, e tão belas se deixavam quanto doloridas e acossadas. por isso eram instáveis, temperamentais, aflitas de coisas secretas e imaginárias, a prepararem vidas só delas sem sentido à lógica. tinham artefatos e maneiras de parecer gente sem quererem perder tudo o que deviam perder. eram, como sabíamos bem, perigosas. (p.19)

Como dá para perceber no trecho, esse é um dos livros que Mãe adotava o recurso de não usar maiúsculas, o que a mim não disse nada. A prosa é deliciosa e a cadência de linguagem falada arcaica me remete a Guimarães Rosa, embora seja muito mais fácil de ler. Colado na consciência de Serapião, o leitor consegue ver apenas pelos seus olhos, que tem como questão essencial a possível traição que sofre da sua esposa Ermesina e seu senhor Dom Afonso, a quem deve obediência. Serapião reafirma a autoridade e superioridade masculina perante as mulheres o livro inteiro, o que é apenas mais um reflexo do seu fracasso. Através da violência e a posse ele tenta controlar um universo da qual não entende nada. Apoiada pelas próprias crenças medievais, a história vai ficando cada vez mais fantástica, as ações mais radicais e chega um ponto que o leitor se torna incapaz de prever o próximo passo de qualquer personagem. Por amor, prazer ou bruxaria se é capaz de tudo. O livro é cômico, violento, absurdo… Não tem como contar mais sem entregar a história. Lembro de ninguém ter me recomendado este livro e penso, a maneira Marilac: Se este é o livro impopular, POHAN, então imagina como são os outros.

A vontade de beleza, por Darcy Ribeiro

“Outra vertente do meu encantamento pelos índios vinha de meu assombro diante do exercício da vontade de beleza que eu via expressar-se infinitas vezes, de mil modos e formas. Aos poucos fui percebendo que as sociedades singelas guardam, entre outras características que perdemos, a de não ter despersonalizado nem mercantilizado sua produção, o que lhes permite exercer a criatividade como um ato natural da vida diária. Cada índio é um fazedor que encontra enorme prazer em fazer bem tudo o que faz. É também um usador, com plena consciência das qualidades singulares dos objetos que usa.

Quero dizer com isso, tão-somente, que a índia que trança um reles cesto de carregar mandioca coloca no seu fazimento dez vezes mais zelo e trabalho do que seria necessário para o cumprimento de sua função de utilidade. Esse trabalho a mais e esse zelo prodigioso só se explicam com o atendimento a uma necessidade imperativa, pelo cumprimento de uma determinação tão assentada na vida indígena que é inimaginável que alguém descuide dela. Aquela cesteira, que põe tanto empenho no fazimento do seu cesto, sabe que ela própria se retrata inteiramente nele. Uma vez feito, ele é seu retrato reconhecível por qualquer outra mulher na aldeia que, olhando, lerá nele, imediatamente, pela caligrafia cestária que exibe, a autoria de quem o fez.

Não havendo para os índios fronteiras entre uma categoria de coisas tidas como artísticas e outras, vistas como vulgares, eles ficam livres para criar o belo. Lá uma pessoa, ao pintar seu corpo, ao modelar um vaso, ou ao trançar um cesto, põe no seu trabalho o máximo de vontade de perfeição e um sentido de beleza só comparável com o de nossos artistas quando criam. Um índio que ganha de outro um utensílio ou adorno ganha, com ele, a expressão do ser de quem o fez. O presente estará ali, recordando sempre que aquele bom amigo existe e é capaz de fazer coisas tão lindas.

Essa compreensão importa na conclusão de que a verdadeira função que os índios esperam de tudo o que fazem é a beleza. Incidentalmente, suas belas flechas, sua preciosa cerâmica têm um valor de utilidade. Mas sua função real, vale dizer, sua forma de contribuir para a harmonia da vida coletiva e para a expressão de sua cultura, é criar beleza.”

Confissões, p. 150-160

Desonra, J.M. Coetzee

“Não leia nada, nem o que está na capa do livro”, foi a recomendação do Charlles. Eu deveria me deixar surpreender, tal como eu sempre sonhei em ler Grande Sertão: Veredas, que eu acho que deve ter sido muito mais impactante antes de se tornar série da Globo e todo mundo associar os lindos olhos verdes de Diadorim aos de Bruna Lombardi. Então, tentarei também escrever sem entregar a história. Tem em todos os lugares, a orelha do livro (que li depois), da edição da Companhia das Letras só falta contar as palavras finais e colocar tabela com os personagens e suas motivações. Se quiserem, busquem. Eu vou tentar falar das muitas questões que o livro me levantou e que tornaram a experiência de lê-lo algo único e atordoante. Desonra começa assim:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudades de mim?” ela pergunta, “Sinto saudades o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá pra ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté. (p.7)

Somos apresentados ao professor David Laurie, seu mundo organizado, a racionalidade, a solidão conformada e rotinas de quem já chegou na idade dos casamentos desfeitos. Mas tão rapidamente quanto somos apresentados a isso, as atitudes de David o traem e ele se pega imprudente e sexual demais; o papel que se espera dele, pela sua idade e profissão, não combinam com os seus desejos. A partir daí, é como se o universo fosse ficando cada vez mais complexo e difícil de lidar: um julgamento de cujas acusações nunca temos clareza, murmurinhos que não sabemos quais são e até mesmo as motivações do personagem que até então nos pareciam tendem ao razoável deixam de ser explicitas. Aí o livro muda geograficamente, da cidade para o campo, e pensamos num idílio onde a vida em contato com a natureza cura todas as feridas. Quando parece que o livro trará paz, a porrada fica ainda maior. Antes centrada na figura de Laurie, a história adquire novos personagens – Lucy, a filha de Laurie, seu vizinho africano Petrus, Bev, a amiga que trabalha com cachorros. O que parecia uma busca individual – como encontrar uma harmonia? Em que lugar colocar os próprios desejos? – torna-se socialmente maior por serem Laurie e a filha brancos na Africa do Sul pós-apartheid. No meio de uma leitura vertiginosa são tocadas as relações de parentesco e interculturais, as diferenças entre homens e mulheres, entre sexo e estupro, entre coragem e covardia – até que ponto lutar, até que ponto influenciamos o mundo, somos vistos como quem realmente somos ou apenas símbolos de uma posição social? Atos que a princípio nos parecem criminosos e imperdoáveis se diluem e se confundem; o inimigo pode ser ao mesmo tempo aliado; a crueldade pode se revelar um gesto de amor; a bondade se torna um gesto anônimo e sem importância; o conhecimento se revela inútil. Os temas sexo e opressão se repetem, mas cada vez com cores e aspectos novos. Mesmo a solução final do livro pode ser, ao mesmo tempo, um gesto de profunda aceitação e desprendimento como de crueldade. Não é um livro – ou um mundo – de respostas fáceis.

Carmen Miranda, de Ruy Castro

Em termos de pesquisa, esta é a biografia mais impressionante que eu já li, e olha que sou apaixonada pelo gênero e li muita coisa boa. Ruy Castro se adianta a toda a qualquer curiosidade que o leitor possa ter e cobre todos os aspectos de tudo o que cerca Carmen: ficamos sabendo como era rua da primeiro endereço da família Miranda, o que a mãe de Carmen servia nos almoços, o que se ouvia nas rádios, o que era normal e permitido na época, a graduação formação daquele que seria do estilo Carmen – plataformas, turbante, barriga de fora, acessórios, cores e a alegria esfuziante – os namoros, as rotinas em shows e gravadoras. Da fase americana, ele nos informa dos gostos do público, descreve os locais onde Carmen cantava, opina sobre cada um dos seus filmes, conta fatos da vida de cada uma das muitas estrelas hollywoodianas que passaram pela vida dela, o impacto de Carmen na moda e as exigências que a vida nos EUA lhe impuseram. O resultado é uma qualidade de leitura que nos parece um romance, onde o leitor se vê transportado pra uma época nos seus detalhes mais deliciosos.

Por ser “alegre, bonita e comunicativa”, Caruso promoveu-a da oficina para o balcão, onde ela se tornou sua melhor funcionária, capaz de vender qualquer peça. Diante de uma cliente em dúvida sobre se um determinado chapéu lhe ficava bem, Carmen fazia uma demonstração: sacudia a cascata de cabelos, prendia-os e experimentava o chapéu em si mesma. Como tudo assentava em Carmen, a cliente se via como em um espelho, convencia-se de que ficaria linda e acabava levando o objeto. Certo dia, aconteceu de Carmen estar andando na rua, usando um chapéu de sua própria invenção, e ser abordada por uma mulher que lhe perguntou onde o tinha comprado. Ao saber que ela o havia criado, fez-lhe ali mesmo, na calçada, uma oferta por ele – que Carmen, achando graça, aceitou. (p.24)

Em entrevista pro Roda Viva, Ruy Castro diz que um dos requisitos fundamentais para fazer uma biografia é que o personagem de alguma forma o apaixone. E quanto mais detalhes ele nos revela sobre Carmen, mais apaixonado o leitor fica. Linda, generosa, divertida, inteligente, rápida, apaixonada, parecia ser impossível ficar indiferente ao charme dessa mulher. Dá a impressão de que ela seria a melhor no que quer que fizesse, nem que fosse virar fabricante de chapéus. Sua presença transformava qualquer lugar numa embaixada do Brasil, reunindo o talento em torno de si e transbordando calor. Como profissional, mereceu e trabalhou duro por cada palmo do que conquistou – excelente cantora, podia conhecer a música no próprio estúdio, pouco antes de entrar, e a gravação ficava perfeita. Nos filmes, era conhecida por ser a “garota de um único take” pelo mesmo motivo. Nunca faltava um compromisso, por pior que fosse a logística – seus adereços exigiam organização e espaço para serem transportados – ou seu estado de saúde.

Ali, as paredes do Broadhurst esqueceram-se de que já tinham ecoado os textos de Ibsen, Shaw e O´Neill, e trataram de se adaptar aos novos tempos. Carmen “cantava” com as mãos, os olhos, os quadris, os pés – “O que é que a baiana tem?”, “Touradas em Madrid” e “South American Way”, pela nova ordem – e todo um repertório de meneios, dengos e chamegos que dispensavam tradução. Ninguém entendia uma sílaba do que ela dizia, exceto o verso “Souse american way”, que arrancou as infalíveis gargalhadas. E nem era preciso. Carmen estava falando numa língua que a platéia de Nova York, habituada às grandes estreias, estava farta de entender: a do talento, talvez do gênio. A Broadway já operara aquela química muitas vezes – entre duas cortinas, transformar uma estreante numa deusa. Quase dez minutos depois, o número de Carmen e o primeiro ato de Streets of Paris terminaram e apoteose e consagração. Entre drinques, cigarros e cafés do intervalo, e já vazando para as ruas em volta do teatro, só um assunto interessava: Carmen Miranda. (p.210)

Ela sonhava em casar e ter filhos, mas como resistir aos apelos do mundo que a puxavam cada vez mais alto? Jamais foi esquecida pelos seus grandes amores Mario Cunha, Carlos Alberto da Rocha Faria e Aloysio de Oliveira, mas nenhum deles a assumiu. O dinheiro não parava de entrar, os filmes, shows e convites tornavam sua rotina impossível. Um dos motivos da morte prematura de Carmen foi o fato de jamais ter conhecido a decadência, que a teria dado tempo de parar. Quando sua carreira nos EUA estava começando a decair, a Europa a reacendeu, ávida por encontrar os ídolos dos filmes que viam durante a guerra. As férias e as visitas ao Brasil eram sempre adiadas, assim como a necessidade de cuidar da sua saúde.

Eram quase quinze anos de um processo longo e inexorável. Começara no dia em que uma cápsula para dormir exigira outra para acordar. Tempos depois, a cápsula para dormir exigira outras cápsulas para dormir; e a cápsula para acordar, outras cápsulas para acordar. Um drinque cancelara uma cápsula e exigira outra cápsula. Essa cápsula cancelara o drinque e exigira outros drinques. Em meio à ciranda, as cápsulas e os drinques haviam cancelado uma quantidade de neurônios e, apesar dos recentes esforços de seu médico no Rio, Carmen já não sabia onde ficava a entrada a ou saída do infernal labirinto em que sua vida se convertera. (p.541)

Como outros artistas da sua geração – Marilyn Monroe e Judy Garland, por exemplo – Carmen foi vítima da união de dois fatores: a massacrante indústria do cinema e o abuso de remédios, cujos efeitos se desconheciam na época. De mulher saudável, forte e bem humorada, aos quarenta ela foi convertida a uma pessoa doente, com alterações de humor, crises de paranoia e aspecto envelhecido. O livro é belíssimo até mesmo no desfecho: somos conduzidos até aquela última noite, cheia de planos e o insuspeito fim – exatamente como a morte costuma ser. E o leitor acorda para um dos maiores nomes que a música brasileira já teve, tão presente nas milhões de figuras caricatas e turbantes que até nos esquecemos o porquê.

Amada, de Toni Morrison

Cheguei a esse livro por recomendação do Paraísos de Papel. Toni Morrison é uma escritora pouco conhecida aqui, mas ganhadora do Nobel de Literatura em 1993 e o livro Amada ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção de melhor ficção e foi considerada “a melhor obra da ficção americana dos últimos 25 anos” pelo The New York Times. Só isso já seria motivos suficiente para lê-la, e quero acrescentar outro: é mais uma dessas escritoras incríveis que mostram a força e a originalidade de uma narrativa feminina.

Antes uma introdução meio desagradável: normalmente eu não gosto de nenhum tipo de spoiler e não leio as orelhas e nem as contracapas do livros. Críticas, nem pensar. Mas eu me vi consultando a orelha logo depois do primeiro capítulo, porque não estava entendendo nada. Nunca tive dislexia, mas os nomes da mãe e filha serem curtos e com E (Sethe e Denver) me confundiram o tempo todo. É um grande livro e essa dificuldade passageira faz parte da construção dele e merece ser superada. A história gira em torno de Sethe, uma ex-escrava, que vive com sua filha numa casal mal assombrada. Os personagens que surgem na sua história – Denver, Baby Suggs, Paul D, Halle – têm em comum um passado ligado à escravidão. A pós-escravidão, a solidão e o desamparo, as tragédias pessoais – para eles a normalidade é uma necessidade nem sempre alcançada, ou que repousa numa base muito frágil. Apesar da tentativa generalizada de enterrar o passado, ele ressurge, cobra as consequências e mostra, para o leitor, o sentido mais humano do que é aparentemente inexplicável. É um livro cresce durante a leitura. Apesar da história ser sobre Sethe, sua família e o aparecimento da misteriosa personagem Amada, a grande protagonista é a Escravidão:

Paul D não responde porque ela não esperava, nem queria que ela respondesse, mas ele sabia do que ela estava falando. Ouvir aqueles pombos em Alfred, Georgia, e não ter nem o direito nem a permissão de fruir aquilo porque naquele lugar a neblina, os pombos, a luz do sol, a terra cor de cobre, a lua – tudo pertencia aos homens que tinham armas. Homens pequenos alguns, homens grandes também, todos ele era capaz de quebrar em dois como um graveto se quisesse. Homens que ele sabia que tinham a virilidade era nas armas e nem tinham vergonha de admitir que sem armas até a raposa ria deles. E esses “homens” que faziam até as raposas darem risada podiam, se você deixasse, impedir você de ouvir os pombos ou gostar do luar. Então você se protegia e amava pequeno. Escolhia as menores estrelas do céu para serem suas; deitava com a cabeça virada para ver a amada por cima da beira do fosso antes de dormir. Roubava tímidos olhares dela entre as árvores durante o acorrentamento. Hastes de grama, salamandras, aranhas, pica-paus, besouros, um reino de formigas. Qualquer coisa maior não servia. Uma mulher, um filho, um irmão – amor grande como esses arrebentava com você em Alfred, Georgia. Ele sabia exatamente do que ela estava falando: chegar a um lugar onde você podia amar qualquer coisa que quisesse – sem precisar de permissão para desejar – , bom, ora, isso era liberdade. (p. 220-221)

Esse é o ponto onde a voz feminina faz toda diferença. Muito já se escreveu sobre racismo e escravidão, sua opressão e violência, mas nunca li relatos que trazem essa escravidão tão próxima à carne. A escravidão determinando uma maneira de ser, que pinta o mundo com perspectivas pequenas e cruéis, um encolhimento pessoal que visa a diminuição de um sofrimento que sempre chega. As marcas de chicotadas nas costas, que as tornam insensíveis e desenhadas; a necessidade de não se apegar a ninguém, nem aos filhos, porque eles podem lhe ser tirados; ser visto como um objeto, mesmo quando se pertence a donos benevolentes – e ser brutalizado pelos cruéis. São descrições pungentes de dores tão grandes, dores que não pedem licença e não se preocupam com a medida da justiça. A própria Sethe pergunta: Por que não havia nada que seu cérebro se recuasse? Nenhuma miséria, nenhuma imagem odiosa detestável demais de se aceitar? Uma vez só não poderia dizer não, obrigada? Detestei e não quero mais, não? (p.103). É um livro forte, lindo e triste.