Os Miseráveis

Enfrentei heróicamente quase os dois volumes inteiros de Os Miseráveis, de Victor Hugo. Tive que abandonar exatamente quando a história esquenta e todos se vêem envolvidos com a Revolução Francesa. Foi na tentativa de preencher essa lacuna que decidi ver Os Miseráveis, com Liam Neeson e Geoffrey Rush. Abandonei o filme logo nos primeiros minutos. Eu já esperava que cortassem muitos detalhes para tornar as coisas mais dinâmicas – e quem enfrentou infinitas disgressões do livro, que falavam sobre ruas, freiras e até gírias, sabe que realmente havia muita coisa pra cortar – mas não pensei que o filme deixaria de fora a coisa que mais me chamou atenção: a vontade imperiosa que Jean Valjean de ajudar o próximo. Acredito que para o leitor da época, Jean Valjean pode ter representado o ideal de homem ético, um verdadeiro herói que colocava a justiça e a fraternidade acima de tudo, até mesmo da sua sobrevivência. Como leitora de hoje, todo o sacrifício dele me pareceu exagerado, suicida e até mesmo contra-producente.

É o sacrifício dele em salvar a vida de um homem que o leva a ser reconhecido por Javert, que tenta denunciá-lo mas fica em descrédito porque Jean Valjean nessas alturas já é vice-prefeito. Prendem um homem muito parecido no lugar dele, e o equívoco jamais seria desfeito se ele mesmo não fosse ao tribunal e se denunciasse, reiniciando a caçada da polícia. Nesses dois momentos do livro, ainda é possível pensar que ele estava fazendo escolhas difíceis, que envolviam a vida de outros – deixar alguém morrer, condenar outro a um sofrimento que ele conhecia tão bem. Mas nada disso estava em jogo quando, muitos anos depois, Javert reencontra Jean Valjean ao tentar desvendar o mistério do “mendigo que dá esmolas”. Ao invés de usar a reserva de dinheiro para garantir sua própria sobrevivência, Jean Valjean está sempre se expondo a riscos na tentativa de ajudar todos os que encontra pela frente. Além de ser descoberto por Javert, essa vontade de fazer o bem o leva de volta à malvada família que havia explorado Cosette, os Thénardier.

O livro é bastante ambicioso e se propõe a ser um panorama completo do período anterior à Revolução Francesa. Ao contar a história de vários personagens, o principal sentimento que temos é o de decadência. Victor Hugo fala de nobres perderam sua posição na sociedade, de intelectuais sem rumo e, principalmente, de uma massa de pessoas sem função ou dinheiro. Mesmo os personagens mais mesquinhos não fazem mais do que atrasar seu encontro com a miséria. Os Thénardier são o maior exemplo disso. No início do livro eles têm uma pensão e recebem dinheiro para cuidar de Cosette. Anos depois, Jean Valjean encontra Cosette como escrava dos Thénardier, que lucravam com o trabalho da menina e a pensão que recebiam por cuidar dela. Para abrir mão da guarda de Cosette, Thénardier a vende a Jean Valjean. Quando Cosette já é adolescente, apesar de tantos golpes, eles ressurgem no livros como mendigos, aplicando pequenos golpes. O único personagem que parece ter capacidade de fazer dinheiro é justamente Jean Valjean. Ele parece sentir isso, como se tivesse uma dívida social. Para sanar essa dívida, tenta ajudar os outros com dinheiro o tempo todo, o que se mostra inútil e arriscado. É uma pobreza onipotente, que suga e se torna maior à medida em que mais pessoas caem nela.

E nós sabemos que realmente é um buraco sem fundo. Muita coisa aconteceu depois da Revolução Francesa, que foi um sonho que terminou com 18 Brumário. Também aconteceu Marx, que nos disse que enquanto houver exploração do excedente do trabalho de um homem por outro homem, a justiça social não é possível. Parecia que depois disso aconteceria uma revolução proletária e ela não aconteceu. Aconteceu o regime soviético, mas ele caiu e a China virou o país de capitalismo mais selvagem que existe. Aconteceu o colonialismo e o fim do colonialismo economico não significou o fim do colonialismo cultural. Aconteceu quebra de bolsa, guerra por petróleo, globalização, internet. Além e acima de tudo isso, aconteceu que a pobreza se tornou grande demais. A miséria não se resume mais a comer pão – embora em alguns lugares ela ainda seja tão básica quanto isso. A má distribuição de renda vai muito além do que vemos nas ruas; existem pessoas tão ricas que nem ao menos temos acesso à presença física delas. Como nenhum de nós tem o tesouro escondido de Jean Valjean, não perdemos nosso tempo achando que a nossa desgraça pode melhorar a vida dos outros.

Hoje somos assim, tão realistas que não perdemos tempo dando um único passo. Somos céticos, não nos iludimos com partidos políticos e antigas ideologias. Não queremos cometer os mesmos excessos do passado, excessos causados por crenças e verdades absolutas. Preferimos nos posicionar sem sair de casa, sem gastar muito, sem envolvimento, sem riscos. Usamos hastags no twitter e doamos coisas pra gente que a TV nos mostra sofrendo. Quando alguém nos pede dinheiro no ônibus, como saber se é verdade, se a moeda vai ajudar num problema pontual ou apenas manter a mendicância? Não tem como saber. O mundo ficou muito complicado e o buraco negro continua sugando. Cada dia mais, é cada um por si. A consciência da grandeza dos problemas nos deixa paralizados. Entre Jean Valjean e nós aconteceram tantas coisas, que no meio delas algo de muito importante se perdeu.

É difícil dizer a verdade quando todos mentem?

Meu amigo Alessandro Martins postou o seguinte video com a legenda ” É difícil dizer a verdade quando todos mentem”:

No final do video fala da importância da psicologia grupal. A leitura que eu fiz do que se passou é diferente. Para mim, esse video mostra a importância da sociedade no nosso comportamento e crenças. O video e a leitura que fazem dele me fazem pensar que uma pitada de sociologia tem nos feito falta na hora de olhar a realidade.

Ao dizer que é difícil dizer a verdade, parece que estamos chamando os sujeitos da experiência de covardes. Que isso mostra que quase todo mundo se acovarda diante dos outros. Daí é fácil concluir que é por isso que o mundo é assim, que as pessoas se deixam vencer por falsos ideais ao invés de serem firmes, etc. Acho que ao invés de acusar os indivíduos de não se comportarem de uma maneira que considerariamos ideal, é mais produtivo se perguntar o que está em jogo na hora em que o sujeito da pesquisa devia responder. A percepção visual dos indivíduos dava uma informação e todas as pessoas à sua volta davam outra. Nesse conflito, o sujeito passou a duvidar de si mesmo, da sua verdade. Por que, afinal, o que é verdade? É apenas um conjunto de crenças socialmente compartilhadas. Mude a época, a sociedade e as regras que a verdade será outra coisa, até mesmo o oposto. Levar em conta o que as pessoas à sua volta dizem na hora de tomar uma decisão não tem nada de covarde ou doentio. Quem não leva em conta o que os outros pensam e fazem na hora de se comportar é que é doente.

Gostamos de pensar no comportamento desviante quando pensamos em multidões equivocadas, no herói que se volta contra o seu próprio grupo quando ele abraça algum ideal destrutivo. Mas isso é a excessão da excessão. No dia a dia – com a família, no trânsito, no ambiente de trabalho, nos nossos momentos de lazer – somos e queremos que os outros sejam sensíveis à necessidade do grupo na hora de se comportar. É isso – mais do que um agregado de pessoas ocupando o mesmo espaço – que nos torna grupo, sociedade.

Música para camaleões

Para a Borboleta

Eu não me sinto muito à vontade falando de um livro do Capote. Música para Camaleões é um livro de contos, dá pra pensar que é uma coisinha desprentesiosa. Alguns contos falam da infância, outros de encontros e tem uns causos mais parecidos com realismo fantástico. O ritmo da escrita é delicioso. Capote faz qualquer narrativa parecer simples – e quem escreve sabe que isso é o que há de mais difícil. Só o início do Música para Camaleões é capaz de provocar a empatia de qualquer pessoa que possua um sentimento artístico:

Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para ao resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação. (Introdução)

Ou seja, antes mesmo do livro começar ele já nos dá uma aula sobre o que é uma vocação. Da disciplina em anotar tudo o que via de interessante, a sutileza de uma frase bem construída, a consciência de que não existe algo sem importância desde que se saiba como contar. E fala da crise, da vontade de rever tudo e chegar no simples, mesmo quando já era um escritor famoso e ninguém via o que corrigir no seu estilo. O Música para Camaleões é fruto dessa vontade, de chegar direto ao ponto. Os contos são ótimos e aparece muita gente famosa por lá: Marilyn Monroe tem uma história só dela, o assassino de Sharon Tate tem outra. Ainda que como coadjuvante, a gente nota um Capote bon vivant, que conhece as pessoas importantes da sua época, viaja pelo mundo, bebe, entra em crise e se diverte. Somando isso à aparente simplicidade da escrita, pode dar a impressão de que qualquer um que frequentou os lugares que ele frequentou poderia escrever aquilo. Aí eu lembrei de Jorge Guinle.

Uma vez eu estava conversando com um homem e Jorge Guinle apareceu na conversa. Ele disse que Guinle era a pessoa que ele mais admirava/invejava no mundo. “Como? Aquele idiota?” Aí eu comecei a listar os motivos porque eu não gostava de Jorge Guinle – um sujeito que vive do passado, que só dá entrevistas para falar dos bons tempos e o auge de Hollywood – que ele viu às custas de toda fortuna que ele tinha. O outro argumentou: “Um homem que dormiu com Rita Hayworth, Ava Gardner, Kim Novak, Marilyn Monroe…” Eu, indignada “ou seja, uma pessoa cujo único mérito da vida foi ter dormido com outras, só que famosas”. Aí a discussão acabou com um:

– Você é mulher. Você nunca entenderá o que Jorge Guinle significa.

Mas é só uma lembrança, uma associação boba. Porque um Guinle jamais chegaria aos pés de Capote. Hoje eu até sou capaz de até entender alguém torrar a fortuna da família para viver intensamente; o que não posso aceitar é ele ter vivido tudo isso e trazer dessa época apenas “com Janes Joplin eu até poderia ter dormido mas ela estava chapada demais e nem teria graça”. Capote era claramente interessado em pessoas. Assim como o livro tem nomes muito conhecidos, também conta a história da diarista passando de casa em casa, das tias que o acolheram quando criança e tinham um quarto alugado, o policial da cidadezinha que investiga assassinatos em série (Pequenos Ataúdes, um conto imperdível pra quem gosta de histórias policiais), a dona do bar que se casou de novo. Eu o definiria como um flaneur e não como um bon vivant. É difícil ler Capote e não ter vontade de encontra-lo no terraço, ouvi-lo contar histórias e saber que por debaixo daquela sofisticação há um homem sensível que percebe coisas que os outros podem nem saber que existem.

Durante todo esse tempo o espelho negro ficou pousado no meu colo, e mais uma vez meus olhos sondam suas profundezas. Como é estranho ver aonde nos levam nossas paixões, a persistência futigante com que nos perseguem, impingindo-nos sonhos rejeitados, destinos inoportunos. (Música para camaleões)

Mais Faulkner: Absalão, Absalão!

Caro Charlles,

Gostaria de começar este texto dizendo que gostei mais de Absalão, Absalão! do que Luz em Agosto. Porque você disse que seria assim e no edição que eu peguei disse também que essa era a obra prima de Faulkner. Talvez o maior indicativo de que gostei mais de Luz em Agosto, seja o fato de que deixei o Capote de lado para terminá-lo. Desta vez, chegou um ponto do livro em que fui dar uma olhadinha (por isso que sempre leio mais de um livro ao mesmo tempo, preciso dar olhadinhas) e definitivamente não desgrudei do Capote – muito embora racionalmente eu não possa te dizer que o livro estivesse mais chato ou menos interessante em algum momento. Por essas sincronicidades, num dos contos Capote é convidado a falar de quais seriam seus autores preferidos. No meio de vários nome, diz “Faulkner, Luz em Agosto”.

Absalão, Absalão! tem muito mais trechos memoráveis do que Luz em Agosto. E tem a capacidade de fazer o leitor avançar na leitura com a sensação de que nada foi dito, de que ainda escondem dele o principal. Era metade do livro e eu achava que a Srta Rosa não tinha chegado lá, e eu queria descobrir que lá era esse. As longas descrições e os paragráfos de mais de uma página não me assustaram, inclusive porque não surgiam a todo momento novos antepassados para confundir, como no Luz em Agosto. E quando a surpresa do livro – estava escrito na capa detrás do livro, junto com o “maior romance de Faulkner” – chegou, eu fui realmente pega de surpresa. Tive que parar de ler por alguns instantes, por tudo o que aquela mudança implicava. É de pirar mesmo. Gosto trajetória circular dos personagens, que de uma maneira ou de outra acabam tendo que se reconciliar ou enfrentar seu passado.

Talvez o grande diferencial entre os dois livros seja Joe. Aquela empatia dolorida que ele causa, pra mim, tornam Luz em Agosto mais atraente. Senti empatia com a Srta Rosa, mas até um certo ponto, porque é difícil entender passividade na nossa época. E, talvez mais importante do que tudo, em nenhum momento consegui odiar Thomas Sutpen. Talvez porque a identificação com os fracos (Joe) seja mais fácil; talvez a gente viva numa época tão dura que seja preciso muita maldade (Sutpen) para nos impressionar. Acredito que essa também devesse ser uma das grandes reviravoltas do livro, o momento em que entendemos as ações de Sutpen e deixamos de vê-lo como um demônio. Desde o início do livro eu o via como um homem solitário, determinado e rude. Ou seja, nada suficiente para despertar uma vontade de vê-lo sofrer e nem de vê-lo triunfar. E a falta de paixão é o pior sentimento que um leitor pode sentir por algum personagem.

Veja bem, estou comparando Faulkner com Faulkner. São dois grandes livros, é como perguntar se chocolate é mais gostoso puro ou na forma de mousse. Mais do que o enredo, o que mais me atrai em Faulkner é a maneira como as histórias se desdobram. No Luz em Agosto as coisas chegavam em direções diferentes, até formarem um correnteza e a acompanhamos enquanto dura, porque depois volta a se separar. Absalão, Absalão! é como um jogo de espelhos, onde vemos diversos reflexos e através deles tentamos adivinhar a verdadeira imagem. A edição que eu peguei (da Nova Fronteira) tem uma cronologia no final, que eu li mas achei meio anti-climax. Seria interessante só depois de muito tempo conseguir reunir as diversas versões e entender depois o que aconteceu. Mas nem todo mundo deve gostar de sair confuso de um livro.

Por hora, darei um tempo no opressivo e decadente ambiente sulista pós-guerra dos EUA. Depois de dois Faulkner seguidos, estou sentindo falta de leveza. Quando eu precisar refletir de novo, qual você me recomendaria?

Joana D´arc de Luc Besson

Comecei a gostar de filmes de época quando vi Ligações Perigosas. O filme me impressionou tanto que revi incontáveis vezes de li o livro umas duas ou três vezes. Minha impressão foi tão boa que esperava encontrar em outros filmes de pessoas com perucas brancas e vestidões o mesmo estranhamento dos diferentes costumes, em meio a uma boa trama. Não preciso dizer que quase tudo que vi depois foi uma decepção. E a cada ano que passa, a decepção tem sido maior: detesto ver os valores e costumes próprios da nossa época transpostos para outra. Muda o cenário, muda o figurino, mas os personagens agem e pensam como se estivessem na era da internet. Tem gente que não liga, acha que é liberdade poética, etc. Eu não gosto, considero apenas um filme ruim.

Nunca esqueci da dor no bolso que senti por ter visto Joana D´arc de Luc Besson no cinema. É um filme que não merece nem Sessão da Tarde. Em uma só cena, logo no início do filme, já pude perceber que seriam longos (e cheios de indignação) os minutos sentada naquela poltrona. O filme começa com a pequena Joana vendo a família ser dizimada e vai viver com parentes. Na cena em questão, o casal a coloca sozinha no quarto e conversa discretamente sobre o evento – só faltou usarem a palavra “traumático” – que ela viveu. Medievais que conviviam com a fome, a morte e a violência de maneira muito mais próxima, com baixa perspectiva de vida, que destrinchavam animais à mesa, achando brutal uma menina ver a morte de perto? (Ok, não era qualquer coisa, mas não tinha a dimensão que teria hoje, numa época em que a maioria das pessoas nunca vestiu um cadáver). Medievais achando que uma criança deve ser preservada, como se naquela época Freud já tivesse dito que nossa personalidade é formada na primeira infância, que tudo o que acontece naquela época pude gerar consequencias no futuro a que chamamos de traumas? Medievais oferecendo o privilégio de um quarto a… alias, como é que eles tinham quarto pra oferecer?

Ainda sobre Joana D´arc, é difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja nessa história de ouvir vozes um sintoma puro e simples de esquizofrenia. E dá pra perceber que Luc Besson pensa exatamente assim. Em todos os momentos do filme, vemos Joana (vivida pela péssima Milla Jovovich) com os olhos esbugalhados, enquanto os outros a olham com suspeita, com cara de “nossa, que mulher louca”. O Dustin Hofman aparece num papel de consciência e pergunta a ela coisas que uma pessoa racional perguntaria. O filme dá a entender que o único motivo dela ter recebido apoio foi conveniencia, manobra política. Se todos a olhavam como louca, quem acreditava nela e a considerava inspiradora? No filme não aparece um. Quem vê o filme não se dá conta que a Igreja Católica estava no seu ápice enquanto influência cultural, que quem não era católico estava desgraçado no mundo, que as pessoas acreditavam piamente em milagres. Homens medievais não eram racionais, não no sentido que entendemos hoje. E sem entender isso, toda história de Joana D´arc não faz sentido. Ou seja, o filme inteiro é uma baboseira sem sentido.

Devemos nos perguntar se a pornografia roubou nossa sexualidade?

Encontrei esse link por acaso, de olhar o facebook de uma amizade recém-feita. Era meia noite, estava indo dormir mas a leitura se impunha. Recomendei no meu twitter, atrapalhou meu sono, outras pessoas reagiram da mesma forma e também escreveram posts. Coloco aqui um trecho pra ver se atiço a curiosidade de outros, porque é uma leitura chocante e necessária:


Quando fui para a exposição anual pornô em Las Vegas, entrevistei muitos produtores de pornografia. O que foi surpreendente é o que lhes interessa é o dinheiro. Eles não falam de sexo, falam de dinheiro. Eles falam de correspondência em massa, eles falam de publicidade de massa. O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?

Leia mais, leia tudo.

Uma antropologia de distância

Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo todo do banho dando mergulho e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamuns diz-que habitando a água doce por lá. No mucambo si alguns cunhatã se aproximava dele para fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém, respeitava os velhos e frequentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas as danças religiosas da tribo
Macunaíma/ Mário de Andrade

Não sei quanto a vocês, mas esse trecho faz com que eu me pergunte: jirau de paxiúba é uma planta ou um objeto? Existem outros tipos de jirau? É comum as pessoas se pendurarem neles ou isso é mais um prova do quanto Macunaíma era esquisito? Os guaiamuns são peixes ou algum tipo de bichinho? Existem em tamanhos e colores ou são nojentos? Porque essas palavras pra mim são apenas termos estranhos, impronunciáveis. Se fosse substituídos por cadeira e pernilongo, não afetaria a história. Mário de Andrade, ao escrever esse Macunaíma, tinha a intenção de fazer uma literatura nacional, e pra isso buscou raízes indígenas. Mas ele entendia de índio tanto quanto eu e você conhecemos, ou seja, através do que ouvimos falar, do que todos sabem, de esteriótipos.

Eu imagino Mário de Andrade debruçado sobre livros com lendas, linguagem e histórias folclóricas. Porque essa era a maneira que qualquer um da época dele estudaria os índios. O movimento modernista da Semana de 22 pretendia representar a literatura daqueles que não sofreram influência estrangeira, que expressassem uma brasilidade mais pura. Eu diria que Mário de Andrade escreveu uma “literatura indígena de gabinete,” com palavras de diferentes povos, descontextualizou objetos e misturou tradições. Nada diferente de uma época em que os ditos primitivos ou selvagens eram vistos como uma versão simplificada e inferior da nossa. Nós seriamos complexos e eles simples, como se fossemos adultos e eles crianças. Sendo assim, dar voz a eles é quase uma atitude paternalista de entender um estágio anterior, olhar para trás. Os índios, como coletivo, não deviam ter tantas particularidades assim…

Digo isso porque a Antropologia foi fundada dessa maneira. Ela nasce no contato da Europa com com os outros povos na época das grandes navegações. É marcada pelo sentimento de estranhamento; ainda maior do que ele, é a certeza de que somos mais evoluídos porque os descobrimos (e eliminamos) primeiro. Há uma anedota que diz que um dos maiores antropólogos desse período, ao ser questionado se gostaria de conhecer pessoalmente um homem selvagem, teria respondido “Deus me livre”. Como várias correntes teóricas, a antropologia bebeu durante muito tempo dos fundamentos do evolucionismo. Foi apenas com Malinowski – que publicou sua pesquisa de campo em 1922 – que essa mentalidade começou a mudar. Quando, no início d´Os Argonautas do Pacífico Ocidental, Malinowski se coloca e nos coloca em contato direto com os primitivos – “Imagine o leitor que, de repente, desembarca sozinho numa praia tropical, perto de uma aldeia nativa, enquanto a lancha ou a pequena baleeira que o trouxe se afasta até desaparecer de vista” – ele inaugura um novo paradigma: o antropólogo não pode ser desvinculado do trabalho de campo. E é o trabalho de campo que faz com que o antropólogo olhe as coisas a partir do olhar do outro, o que pouco a pouco mina a certeza da superioridade.

O que existia antes de Malinowski eram os chamados antropólogos de gabinete. Estar perto dos primitivos era caro, longe e desconfortável. Eles não falavam inglês, francês ou qualquer língua civilizada; não ofereciam camas quentes e nem talheres. Alguns deles nem ao menos reconheciam sua inferioridade. Sem se preocuparem com questões filosóficas ou econômicas, a vida desses povos parecia apenas ausência, reduzida a sentimentos bárbaros e essenciais. Por realmente acreditar nessa simplicidade toda, para os antropólogos de gabinete bastavam os relatos de terceiros – viajantes, registros históricos, informantes – para conhecer a cultura selvagem e escrever sobre ela. O Ramo de Ouro, de Frazer (1890), foi durante muitos anos um clássico da área. Ele reúne três volumes de curiosidades e idiossincrasias de diversos países, épocas e culturas, todas misturadas e descontextualizadas. Tal como Mário de Andrade fez com os dados indígenas ao escrever Macunaíma.

Hoje entendemos que diferente não quer dizer inferior, e que outros povos não são etapas que chegarão a nós. E que a tal simplicidade não existe, é apenas uma complexidade diferente. Como eu tantas outras coisas, é preciso chegar perto para conhecer e falar com propriedade. Do mesmo modo que um bom escritor não precisa usar um vocabulário rebuscado para se mostrar erudito, não é preciso usar palavras estranhas para retratar as raízes brasileiras. Isso fica muito claro na obra de Guimarães Rosa. Para mim, é como se Guimarães, e não Mário de Andrade, tivesse realizado o projeto modernista. Na própria construção das frases, a declinação das palavras, a maneira como elas são colocadas nos transporta para uma realidade diferente. Vemos, nos personagens, uma maneira própria de viver e olhar a realidade, algo que alguém num gabinete não conseguiria criar: a proximidade com os animais, o conhecimento, respeito e temor pelos ciclos da natureza, a presença do sobrenatural, a saudade. Tudo diferente e ao mesmo tempo muito próximo, muito humano – um conhecimento que tem raízes.

Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro sertão vai virando tigre debaixo da sela. Eu sabia, eu via. Eu disse: não-zão! Me desinduzi. Talento meu era só o viável de uma boa pontaria ótima, em arma qualquer. Ninguém nem mal me ouvia, achavam que eu era zureta ou impostor, ou vago em aluado. A conversa dos assuntos para mim importantes amolava o juízo dos outros, cacetava. Eu nunca tinha certeza de coisa nenhuma.
Grande Sertão: Veredas/Guimarães Rosa

Luz em Agosto

A primeira parte do livro Luz em Agosto, de Faulkner, é como acompanhar a formação de nuvens de tempestade. Começamos o livro com a caminhada de uma mulher grávida e a história se interrompe num ponto. Depois somos apresentados a outro personagem, e depois outro, e mais outro, a ponto de você se perguntar se aquele desfile de pessoas levará à algum lugar. Até que você percebe que a trajetória de todos se une e se mistura num só acontecimento, para a história se centralizar num personagem específico – Joe. E depisi que isso acontece, o leitor não consegue abandonar o livro até descobrir o fim todos os que apresentados no início da trama.

Imagino que um dos maiores problemas ao escrever uma história seja o da empatia. Logo no início do livro, o leitor deve se apaixonar por um dos personagens principais, senão abandonará a leitura. Sem empatia, de nada adiantará lhe dar um final feliz ou exterminar toda a família do herói. Cada autor resolve esse problema de uma maneira particular. Para mim é muito claro que Dostoiévski leva pelo menos a metade do livro apenas apresentando os personagens. Ok, Crime e Castigo começa logo com o assassinato. Mas depois a história esfria. Os personagens no início dos livros de Dostoiésvki ficam muito tempo andando, esquentando as mãos nos samovares, conversando com padres, reunindo a família ou simplesmente se conhecendo. É preciso, por parte do leitor de Dostoiévski, uma certa boa vontade; vale a pena, mas a história demora pra pegar no tranco. Faulkner, ao esconder do leitor qual personagem seguiremos, cria um suspense interessante e nos envolve com cada um. Outro recurso que cumpre a mesma função é a maneira como ele mistura passado, presente e futuro durante a narrativa.

Não é um livro difícil de ler por sua linguagem e forma, embora a necessidade de traçar a genealogia de tanta gente às vezes se torne cansativo e confuso. Mas é um livro exigente, incômodo. Joe sofre muito e nós sofremos junto. É um personagem que se esforça tanto e a única coisa que consegue é manter-se vivo. Como falso-branco ou branco-negro, ele expõe um preconceito racial tão grande que chega a ser difícil de entender. É como se o sangue negro fosse a personificação do Mal. Essa hereditariedade misteriosa, essa maldade que vem de berço, funciona como um estigma e determina toda a trajetória de Joe. Ele sente necessidade de se declarar, como quem busca algum tipo de perdão; essa fraqueza o torna algoz de si mesmo, que não é capaz de pedir para os outros ignorarem o que ele mesmo recorda todo o tempo. Joe sofre de uma perseguição sem razão e sem escapatória muito pior do que a kafkiana, por ser completa e íntima.

No livro é muito clara a barreira fundamental entre um ser humano e outro, tão grande que nem ao menos é expressa. Todos os personagens de Faulkner são solitários, de uma solidão profunda, permanente e dolorida. A relação entre pais e filhos apenas coloca sobre os últimos o peso da hereditariedade e a impossibilidade de superação individual. Os que tentam apelar para a religião se tornam loucos, agressivos e – por consequencia – ainda mais solitários. A única excessão do livro é justamente a mulher grávida do início, Lena. Ela é a única que parece preservar uma certa pureza, uma crença no ser humano e uma fé tão grande que leva à duvidas sobre sua capacidade de julgamento – e no fim do livro, nos detalhes, ela mostra que sabe muito bem o que está fazendo. É com ela que o livro inicia e com ela que o livro termina, fechando o ciclo. Com isso o autor parece nos indicar que aquelas histórias foram apenas radiografias de muitas outras histórias, de sofrimentos e heróis (ou anti-heróis) anônimos que existem em todos os lugares.

Elogio à técnica

Texto publicado em 18 de setembro de 2006, no Caminhante Diurno

Ninguém espera que uma pessoa que adora matemática redescubra tudo que existe de matemática. E também não se espera que alguém que adora curar os outros faça isso sem passar por uma faculdade de medicina. Assim como alguém que dança muito bem não se ofende quando recomendam uma escola de dança para aprimorar seus conhecimentos. Óbvio, né?

Mas quando se trata de arte, a coisa deixa de ser óbvia. As pessoas querem ser artistas geniais, espontâneos, sem nunca terem lido um livro ou feito um curso. Acham que têm um talento natural; se conhecerem as técnicas, as escolas, a história e o conhecimento que foi acumulado sobre o assunto, a “pureza” do seu talento vai se perder. Elas não querem tirar a prova, ver o quanto seu trabalho evoluiría ou não se estivessem a par do que existe – “Ah, não! Se for pra ter que procurar um curso eu deixo de fazer!”

Assim é a minha vizinha, que acha que canta Imortal igualzinho a Sandy (ugh!). Assim são várias pessoas espalhadas por comunidades de artistas no orkut, nas lojas de artesanato, nos natais em família, na academia. Eu sou uma vítima especialmente vulnerável a isso, porque sou escultora e as pessoas me procuram pra mostrar seus trabalhos. Esses dias uma amiga me mostrou suas telas, que ela fez sem entender de tintas, cor ou composição. Pra piorar, ela ainda desenha mal pra cacete. Eu juro que tentei muito, mas não consegui soltar um elogio. Nem ao menos tinha algum tom de azul bonito pra eu dizer – nossa, que tom de azul bonito.

Técnica nunca atrapalha, só ajuda. Com técnica, não é preciso redescobrir a roda. Se há um grande talento natural, ele só será aumentado com a técnica. As coisas são mais rápidas, mais fáceis, mais diretas, logo, muito mais espontâneas quando se domina a técnica. A inabilidade faz com que coisas simples sejam dificeis, com que a expressividade do trabalho fique tolhida. Aí a gente vê por aí escultores que só fazem dorso porque são incapazes de esculpir mão e cabeça. Se a pessoa realmente ama aquilo, o que custa conhecer um pouco? Na realidade, eu acho que essas pessoas têm medo de descobrir que não são assim tão geniais – o que fatalmente ocorre quando você descobre o que os outros artistas fazem por aí.