Joana D´arc de Luc Besson

Compartilhe este texto:
Comecei a gostar de filmes de época quando vi Ligações Perigosas. O filme me impressionou tanto que revi incontáveis vezes de li o livro umas duas ou três vezes. Minha impressão foi tão boa que esperava encontrar em outros filmes de pessoas com perucas brancas e vestidões o mesmo estranhamento dos diferentes costumes, em meio a uma boa trama. Não preciso dizer que quase tudo que vi depois foi uma decepção. E a cada ano que passa, a decepção tem sido maior: detesto ver os valores e costumes próprios da nossa época transpostos para outra. Muda o cenário, muda o figurino, mas os personagens agem e pensam como se estivessem na era da internet. Tem gente que não liga, acha que é liberdade poética, etc. Eu não gosto, considero apenas um filme ruim.

Nunca esqueci da dor no bolso que senti por ter visto Joana D´arc de Luc Besson no cinema. É um filme que não merece nem Sessão da Tarde. Em uma só cena, logo no início do filme, já pude perceber que seriam longos (e cheios de indignação) os minutos sentada naquela poltrona. O filme começa com a pequena Joana vendo a família ser dizimada e vai viver com parentes. Na cena em questão, o casal a coloca sozinha no quarto e conversa discretamente sobre o evento – só faltou usarem a palavra “traumático” – que ela viveu. Medievais que conviviam com a fome, a morte e a violência de maneira muito mais próxima, com baixa perspectiva de vida, que destrinchavam animais à mesa, achando brutal uma menina ver a morte de perto? (Ok, não era qualquer coisa, mas não tinha a dimensão que teria hoje, numa época em que a maioria das pessoas nunca vestiu um cadáver). Medievais achando que uma criança deve ser preservada, como se naquela época Freud já tivesse dito que nossa personalidade é formada na primeira infância, que tudo o que acontece naquela época pude gerar consequencias no futuro a que chamamos de traumas? Medievais oferecendo o privilégio de um quarto a… alias, como é que eles tinham quarto pra oferecer?

Ainda sobre Joana D´arc, é difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja nessa história de ouvir vozes um sintoma puro e simples de esquizofrenia. E dá pra perceber que Luc Besson pensa exatamente assim. Em todos os momentos do filme, vemos Joana (vivida pela péssima Milla Jovovich) com os olhos esbugalhados, enquanto os outros a olham com suspeita, com cara de “nossa, que mulher louca”. O Dustin Hofman aparece num papel de consciência e pergunta a ela coisas que uma pessoa racional perguntaria. O filme dá a entender que o único motivo dela ter recebido apoio foi conveniencia, manobra política. Se todos a olhavam como louca, quem acreditava nela e a considerava inspiradora? No filme não aparece um. Quem vê o filme não se dá conta que a Igreja Católica estava no seu ápice enquanto influência cultural, que quem não era católico estava desgraçado no mundo, que as pessoas acreditavam piamente em milagres. Homens medievais não eram racionais, não no sentido que entendemos hoje. E sem entender isso, toda história de Joana D´arc não faz sentido. Ou seja, o filme inteiro é uma baboseira sem sentido.

2 comentários em “Joana D´arc de Luc Besson”

  1. Entendo exatamente esse cansaço que dá de ver cenário e figurino “brigando” com o texto, comportamentos, anseios dos personagens. Quanto à versão sobre Joana, gosto da de 1957, entre as virtudes, gosto especialmente da translúcida forma no olhar de Jean Seberg.

  2. Eu também adoro essa versão! É uma versão feita com carinho – pela figura da Joana D´arc, pela fé que a movia, por tudo o que ela representou. Por mais fora de moda que seja, eu gosto da história dela.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *