Reencarnação

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Eu estava num trem que saía da Galícia. Enquanto ainda estamos em território galego, é uma viagem arrastada, porque o terreno é montanhoso e o trem vai devagar. Na cabine, estávamos eu, um policial, uma empregada e o seu filho de treze anos. Não sei se pela origem das pessoas, mas foi a única viagem de trem que eu que fiz onde todos conversaram na cabine. O policial me fez várias perguntas sobre o Lula, até então eterno candidato à presidência. Ele conhecia o Lula, admirava sua trajetória e não entendia porquê o povo brasileiro votar nos outros. Eu lhe disse (estávamos em 1999) que acreditava que o Lula nunca se elegeria, porque ele não inspirava confiança nas pessoas. A conversa foi para diversos rumos, e num determinado momento começaram a falar de religião. A empregada falou:
– Não entendo como tem gente que acredita em reencarnação. Como é que a pessoa vai reencarnar depois de morta se o corpo já apodreceu? Não resta mais nada.

No início, pensei que ela estava de brincadeira, daquelas que a gente faz para desmerecer. Mas o policial concordou, a discussão continuou e eu me dei conta que eles realmente achavam que reencarnação era aquilo. Bem que eu já tinha ouvido falar que o kardecismo só existe como religião no Brasil. Quando o assunto reencarnação surgiu, eu me dei conta do que é ser brasileira, do que significava uma cultura. Eu, por acaso, venho de uma família espírita. Mas qualquer brasileiro que estivesse no trem, fosse ele católico fervoroso ou até mesmo um ateu de gerações como o Milton, saberia dizer que por reencarnação não se entende que a pessoa volta para o mesmo corpo, e sim que renasce, em outra época e local.

Ser brasileira é saber os principais times de futebol do Brasil mesmo sem suportar futebol. Cultura é aquilo que sabemos, como se estivesse no ar. Penetra na nossa pele e faz parte da nossa maneira de pensar o mundo, como se não existisse outra. E à nossa volta não existe mesmo. É aquilo que abraçamos sem saber que abraçamos, no grande porém limitado conjunto de crenças que nos são oferecidas desde sempre. Para ser brasileiro e ateu é preciso um esforço imenso, porque todos sabemos de que signo somos, vemos igrejas por todos os lugares, tememos o poder do mal olhado. Não é apenas uma maneira de ver o mundo, mas também o voltar-se contra a maneira de ver o mundo. Quando somos contra, somos contra alguma coisa; esse alguma coisa é o nosso referencial. Contra ou a favor, nossas idéias, nossos gostos e nossos gestos nos dizem de onde somos.

11 comentários em “Reencarnação”

  1. Excelente!!!!
    Depois de anos estudando cultura popular eu tenho a mesma sensação. Por isso, quase sempre discurso em aula contra quem gosta de usar sua ascendência (muitas vezes longínqua) como sinônimo de caráter, de espírito (sou italiano, alemão, etc). O Brasil é antropofágico. Se você nasceu aqui, seus pais nasceram aqui, você muito provavelmente já foi digerido e incorporado. Se sair de seu cantão, vai olhar um copo de caipirinha e se sentir em casa.
    Sobre religião, eu sempre me perguntei justamente sobre a tolerância religiosa do Brasil. Então, fico pensando que católicos, protestantes, crentes, kardecista, umbandistas (não todos, mas) em sua maioria convencionam servirem ao mesmo Deus, só que de modos diferentes. Afinal, só isso explica o fato de tantas pessoas irem à igreja e também ao centro (espírita ou de umbanda) quando julgam necessário.
    Beijos

  2. Nikelen,

    Também vejo essa história de ascendência como uma bela desculpa. Se é uma família que faz de tudo para vivenciar suas tradições, que vive numa comunidade fechada, até faz sentido. Mas o que vemos (e a tendência natural) é a incorporação mesmo. Brinco com o meu marido que o que ele tem de italiano é falar “pochachera” e só. Ficam alguns hábitos, as diferenças de fenótipo, mas são/somos todos brasileiros mesmo.

    O nosso sincretismo é uma coisa, né? Só aqui alguém se julga católico de corpo e alma e vai ver o filme do Chico Xavier, porque ele é um santo. Ou procura uma benzedeira. Numa visão radical sobre o assunto, talvez nem seja possível pensar em brasileiro ateu.

    Beijo!

  3. Engraçado a coincidência destes seus dois últimos textos. Victor Hugo, depois de morto, se tornou mais famoso no Brasil por aproveitar seu eterno tempo livre no céu para encorporar alguns médiuns nacionais e continuar escrevendo. Há uma série de livros psicografados por ele.

  4. Interessante o teu comentário, Charles. Eu fico sempre me perguntando o efeito que a morte tem sobre o talento para escrita. Isso porque, até hoje, tudo o que já me caiu de romance espírita nas mãos (especialmente os psicografados) é ruim abaixo da crítica (os textos pessoais nem tanto).
    Então, será que os escritores fazem algum tipo de oficina no além para escreverem de um jeito mais uniforme? Ou será que o médium que atua como veículo tem um papel fundamental? Nesse último caso, acho que os escritores desencarnados deviam pedir currículo antes de enviarem seus escritos.

  5. Os espíritas não acordam para isso, Nikelen. Impressionante! Eu mesmo nunca consegui ler um livro espírita. É mesmo o mesmo estilo de santidade, de poesia arcaica daquelas que os saudosos escrevinhadores de carta de rodoviária faziam para as donzelas e os mancebos iletrados de antigamente. Falta uma estrutura de marketing deste naipe para os espíritas, coisa que, p. ex., os maquiavélicos e nada bobos evangélicos e padres cantores tem de sobra. Talvez essa ingenuidade kardecista possa contar um ponto a favor deles.

    Por falar nisso, ganhei de um amigo um livro de 1955 que é uma preciosidade. Título: A vida no planeta marte e os discos voadores. Psicografado por um tal de Ramatís. Tem selo de aprovação da Federação Espírita.

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