Família desestruturada

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Quando a profa Marlene disse em sala de aula que essa idéia de família desestruturada é uma falácia teórica, que não tem o menor sentido e comprovação, foi como uma revelação. Era tão óbvio! Ao mesmo tempo, é uma idéia tão arraigada, tão repetida. No dia a dia, nunca fez sentido: não existem diferenças significativas entre filhos de pais separados ou não, em nenhum aspecto. Meus pais se separaram quando eu tinha cinco anos e, bem, não preciso dizer que não sou nenhuma marginal. Filhos de pais separados não têm tiques nervosos, não são fracassados, não são piores, viciados ou mais inseguros. Por outro lado, filhos de pais casados não são mais bonitos, mais inteligentes, bem-sucedidos ou guiados por princípios éticos superiores. Então porque continuamos a acreditar nisso, a fazer estatísticas sobre isso, a procurar essa informação quando algo dá errado?

Não precisa pensar muito pra concluir que a família desestruturada é fruto da super estruturada família burguesa. Aquela que hoje nos parece muito natural, mas que nem sempre foi assim: religiosa, com o pai provedor, a mulher fiel que se dedica aos filhos. A essa família burguesa corresponde à casa burguesa dividida em cômodos, com quartos que garantem privacidade e resguardam a vida sexual no casal. Uma família em quem ninguém mete a colher. Bem ao contrário da classe dominante anterior, a nobreza: que não via o trabalho como um valor, fazia vista grossa à amantes, não prendia a mulher à prole e era voltada para o status e a vida social. Havia um grande número agregados e empregados; os quartos dos conjuges eram separados e a privacidade entendida de outra forma. Com a família nuclear burguesa, os marido passa a controlar de perto os passos da esposa, que por sua vez controla de perto os passos dos filhos. É isso que supomos quando falamos de famílias desestruturadas: é uma família com pouco controle sobre seus membros. E, interiormente, está a idéia freudiana de que é a repressão que nos torna civilizados.

Para provar continuamente a importância da família estruturada, para qualquer problema que envolva jovens e crianças, buscamos estatísticas sobre as famílias delas. Nesse instante, a família desestruturada passa a ser sinônimo de pais separados. É família desestruturada ou casamento desfeito? O suporte de outras pessoas não parece remediar o efeito desastroso da separação dos pais, pelo menos nas estatísticas. Aí surgem dados como “36,3% dos menores encontrados usando drogas na escola são de famílias desestruturadas”. Mas nunca ficamos sabendo o número de casais separados na média da população ou de outras populações semelhantes… Desse mesmo universo – menores encontrados usando drogas na escola- , eu também poderia dizer que 41,7% passam de 3 a 5 horas por dia vendo TV, que 18,9% deles jogam futebol ou que 79,7% bebem de 10 a 20 litros de coca-cola por semana. Isso prova que a coca-cola ou televisão influencia mais no comportamento drogadito do que a separação dos pais? Prova que estatísticas são fáceis de produzir, basta considerar e buscar um dado. Mas concluir que eles demonstram uma relação de causa e efeito é outra história.

A data de validade dessa noção expirou há muito tempo, mas ainda consegue gerar culpa. Por necessidades econômicas, mesmo quando casados, homens e mulheres não conseguem se produzir uma família totalmente “ajustada” – ele por não ser provedor, ela por não conseguir estar perto dos filhos o dia inteiro. Já não temos um único modelo de casamento, não sabemos e não conseguimos controlar as crianças como antigamente, duvidamos dos papéis atribuidos a homens e mulheres e sabemos que a privacidade absoluta tem gerado muitos abusos. É uma discussão importante, que não conseguirá avançar enquanto olharmos para a família buscando a mera adaptação a um ideal.

7 comentários em “Família desestruturada”

  1. ” Não precisa pensar muito pra concluir que a família desestruturada é fruto da super estruturada família burguesa.”

    Perfeito! Nada como uma visão histórica para destruir discursos falaciosos.
    Sabe o que me impressiona, na mesma linha que você apontou? É que mesmo nesse mundo de hegemonia da cultura burguesa, a grande maioria das pessoas, longe das classes mais abastadas, vive outras práticas e estruturas familiares.
    De novo concordando contigo, o que não dá para negar, porém, é que esses constructos culturais da família burguesa criam um “dever ser” que age agressivamente contra as famílias onde há pais separados.
    Valeu o trabalho!

  2. Teria tanto a falar. Estou em três quesitos: separado, não provedor (lado B…)e controlador (lado A…), mas apenas dos estudos, pois não controlo festas, amigos e sou liberalíssimo.

    Quando presentes os dois primeiros itens — principalmente o primeiro — , nossa cultura tende a nos colocar a pecha de fracassados. A separação torna ambos fracassados, a não provedoria, só o homem.

    Sobre a interpretação de estatísticas, as drogas e a marginália: há refazer o conceito de desestrututação, pois família desestruturada é a que o pai transa com a filha, se embebeda em casa, tiraniza a família, a mulher drogada, um dos dois sumidos, sem horários, rotina aceitável e mesmo PAIS INDIFERENTES.

    Aliás, essa coisa da indiferença de alguns pais de famílias “estruturadas” é um câncer que começa com a criança pequena e vai longe. Tive contato com uma menina inteiramente maluca, com pais ricos, 3 cartões de crédito e uma carteira recheada. Os pais são casados. Ele riquíssimo. Para mim, uma família desestruturada. E daí?

    (E pq eu não sou um “blog amigo”?)

    :¬)))

  3. Li teu excelente texto ontem, mas o sono me impediu de deixar um comentário decente. O fato foi que fiquei pensando.
    Concordo com você, lógico. E também com o Milton e a brilhante descrição dele de uma família desestruturada. Conheci várias crianças e jovens que sofriam dessa indiferença, dessa presença ausente de pais que acreditavam que manter uma união ruim era o melhor para os filhos. Aliás, esse é um dos legados mais traiçoeiros do modelo da família burguesa. A de que a conjugalidade convencional é supremamente importante para a formação infantil. Tolerância e paz caem para segundo plano.
    Esse modelo – pai-mãe-filhos – se impõe duro desde cedo, quando a professora da pré-escola pergunta cadê seu papai no desenho, ou porque você desenhou sua mãe do outro lado da folha, ou ainda se o cara com o seu pai é seu titio. Tudo isso dá a criança a ideia de que a sua família é errada. Família tem pai e mãe e o céu é sempre azul ensinam na escola e criam-se excluídos e se matam Van Goghs com um único golpe.
    Fiquei pensando na época em que dei aulas na pedagogia e concentrei meu trabalho em romper com os preconceitos do grupo acerca dos modelos de família. Não bastou apenas as alunas olharem para si próprias, fizemos um trabalho histórico antropológico com os modelos familiares humanos. O resultado foi incrível, mas lembro do choque de algumas meninas em ver sociedades com casamentos múltiplos, poliandricos, tribais.
    Acho que o debate que você propõe não é somente histórico, como apontou o Guto, mas cultural. É preciso romper com a miopia social burguesa que se vangloria de valores que só fazem criar exclusão.

    Af, falei demais.
    Bjs

  4. Farinatti, que bom que você gostou da parte histórica, porque a escrevi morrendo de medo. Vindo de você, fico bastante aliviada, é por aí mesmo.

    Milton, já disse que fiz o post pensando em você. Porque taí alguém que não merece ser tachado de fracassado que criou uma família desestruturada. Eu vejo coisas tão ruins em casais que ainda estão juntos – indiferença, se unirem contra os filhos, ou jogarem os filhos uns contra os outros, pressões, que às vezes dá a nítida impressão de que a separação é muito melhor. Desconfio bastante do controle de pais sobre filhos. A separação abre essa brecha e dependendo dos pais isso acaba sendo mais saudável.

    Charlles, temos pais separados e mães com algumas semelhanças. Nunca tive problemas na escola, muito pelo contrário: sempre fui do tipo que não precisava estudar pra ter boas notas. Mas tive meus problemas (mais sérios, menos sérios? Níveis de sofrimento não são mensuráveis) e aprendi a superá-los da forma possível. Durante muitos anos achei que quem não tinha vivido o que eu vivi teria menos do que se queixar/ superar. Mas não tem. Muda a forma, muda a maneira como entendemos, mas estou convencida de que o mundo nunca acolhe da maneira amorosa e compreensiva que gostaríamos.

    Nikelen, fantástica essa questão da escola. Nos cadernos de caligrafia (quando aprendemos a escrever o nome da família inteira), nos desenhos, nas histórias, tudo aponta pra um modelo e faz sofrer quem não faz parte dele. Quem é criado por avós, quem é orfão, quem não conhece o pai… são muitas formas de ser diferente e isso acaba se tornando um desvio. Considero antropologia essencial por quebrar certos preconceitos, porque mostra que as coisas mais naturais e inconcebíveis podem sim ser diferentes. Uma pena que tão poucas professoras tenham noção de que não é necessário reforçar esses modelos.

  5. Você não acha “estranho” que só exista concordância por parte de quem está no mesmo barco? Não te parece “estranho” que só os alcoólatras pensem que o álcool não faz mal para a saúde? Ou que só os fumantes dizem que o cigarro não vicia?

    Na certa ninguém gosta de ser marginalizado, ou colocado como “diferente” do padrão social. No entanto, embora existam exceções, na maioria dos casos, problemas de convivência social são, sim, associados a problemas familiares.

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