Amor, Guimarães

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Quando alguém dizia que tinha Guimarães Rosa como seu escritor favorito, eu achava puro pedantismo. Ou uma mentira mais sofisticada do que aqueles que dizem gostar de ler e não sabem recomendar um único livro. Minha má impressão vinha da leitura apressada que eu tive que fazer do Primeiras Estórias, porque caia no vestibular. Lembro de ter gostado da história do Famigerado e só. Achei chato, embolado, não entendia metade do que todo mundo dizia. No ano passado resolvi dar uma nova chance, porque percebi que detestei todos os livros que li no vestibular. É uma fase complicada.

Comecei devagar, com alguns contos. Já encantada, parti pro Grande Sertão: Veredas. É uma pena que eu, você e quase todos os brasileiros, sabemos antes de ler o livro que Bruna Lombardi encarnou Diadorim na adaptação do livro em minissérie, pela globo. Jamais vi a minissérie, mas já sabia o suficiente pra não ter nenhuma revelação no final. Não que isso invalide o livro, apenas seria uma outra leitura. Imagino que a surpresa seria imensa, como no final do Absalão, Absalão!, que me obrigou a fechar o livro e reorganizar tudo o que eu pensavada história contada até então . Guimarães Rosa quis dar um nó na cabeça dos leitores: ele amava Diarorim porque no fundo sentia que era uma mulher? Ele amava Diadorim porque era bissexual? Ele amava Diadorim porque amor não tem sexo?

Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto, quando ele cortou o meu cabelo. Sempre. Do demo. Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?

De lá pra cá, outros dois contos dele me chamaram a atenção pela atitude provocativa: Estória de Lélio e Lina (Corpo de Baile, vol 1) e Desenredo. Este último, curtinho, tem aquela frase famosa dele “Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”. Temos a figura (que também aparece na Estória de Lélio e Lina) da mulher que sempre traiu e sempre trairá os homens que ficam com elas. E talvez por isso mesmo, essas mulheres são fascinantes e sempre encontram homens dispostos à fazê-las mudar. Até aí, Nelson Rodrigues também dá conta. O que surpreende no conto é a disposição de seguir em frente, de estar com essa mulher traidora, de achar mais fácil enganar a si mesmo do que abrir mão do amor. A tal mulher traidora é tão maravilhosa e proporciona tanta felicidade que mesmo o preço da traição se torna pagável. Riobaldo e Jô Joaquim tinham em comum um amor desafiante. Mas Jô Joaquim foi mais corajoso.

A Estória de Lélio e Lina, é semelhante a Grande Sertão: Veredas por oferecer ao leitor um surpresa no final. A narrativa é toda centrada na figura de Lélio e sua chegada numa fazenda. A história fala de toda sua permanência lá: como novato, visitando as “tias”, envolvido em conflitos, procurando se assentar na vida. Passamos a história inteira procurando a Lina, e nos decepcionando com as personagens femininas que aparecem. É o nome do conto que cria essa expectativa. Procuramos Lina no amor platônico, na irmã que vai chegar, na filha solteira e ela nunca vem. No fim, descobrimos que a Lina estava debaixo dos nossos olhos o tempo todo. Se Guimarães em Grandes Sertões: Veredas questionou a nossa capacidade de amar as pessoas independente do seu sexo, em Desencontros, apesar de seu sexo, em Estória de Lélio e Lina ele nos mostra o quanto a nossa noção de amor é pequena e sexualizada.

8 thoughts on “Amor, Guimarães

  1. Caminhante,
    eu evitei Guimarães por um tempo, temendo que fosse tão hermético como Joyce (nunca, nunca terminei Ulisses). Estava, claro, enganada. Ler Guimarães, pra mim, é encantamento. Seus textos tem ritmo, musicalidade. Não apenas a óbvia “sertanejicidade” (pode inventar palavra pra não bagunçar o pensamento?) musical do Grande Sertões, mas um jeito de dividir as idéias, de construir as frases, de escolher cada palavra e cada momento para cada palavra…isto me encanta. Mas você me trouxe mais, onde eu apenas sentia, você me fez pensar. Obrigada.

  2. Caramba, eu realmente fui traumatizado pelos meus professores de literatura. Tudo que tenha “literatura brasileira” no índice catalográfico, me causa arrepio. Mas esse seu post, e um ensaio sobre GSV do Llosa, são instigantes.

  3. Farinatti: relerei Primeiras Estórias, quando terminar o Corpo de baile e Sagarana.

    Borboletas: você definiu bem o sentimento ao ler Guimarães: encantamento. Também me sinto assim, transportada pra algo que nem ao menos vivi.

    Charlles: você lamentará cada dia que passou longe de Guimarães e da literatura brasileiras. Foi assim comigo.

  4. Por isso que acho uma sacanagem teres bloqueado os comentários em teu outro blog, pois, apesar de ter anteriormente confessado menor interesse em teus posts sobre danças, neste teria algo a dizer. Mas não ligue para essas palavras. Efeito da sinceridades etílica.

    Abraços.

  5. Pingback: Desonra, J.M. Coetzee | Caminhando por fora

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