Amor, Bourdieu

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(Me dediquei tanto aos textos sobre o Cisne Negro que me esgotei. Com a energia que gastei nele dava pra ter escrito uma semana de texto no Caminhante Diurno e uns dois daqui. Por isso, meio na cola da discussão do Guimarães, vai a definição bourdieuniana de amor. Não estranhem os períodos longos e a falta de pontuação – ele escreve mal mesmo)
A aura de mistério que o cerca, sobretudo na tradição literária, pode ser facilmente compreendida de um ponto de vista estritamente antropológico: baseado na suspensão da luta pelo poder simbólico que a busca de reconhecimento e a tentação correlativa de dominar suscitam, o reconhecimento mútuo no qual cada um se reconhece no outro e o outro reconhece também como tal pode levar em sua perfeita reflexibilidade, para além da alternativa do egoísmo e do altruísmo ou até da distinção do sujeito e do objeto, a um estado de fusão e de comunhão, muitas vezes evocado por metáforas próximas às do místicos, em que dois serem podem “perder-se um no outro” sem se perder. Conseguindo sair da instabilidade e da insegurança características da dialética da honra, que embora baseada em uma postulação de igualdade, está sempre exposta ao impulso do dominador da escalada, o sujeito amoroso só pode obter o reconhecimento de um outro sujeito, mas que abdique, como ele o fez, da intenção de dominar. Ele entrega livremente sua liberdade a um dono que lhe entrega livremente a sua, coincidindo com ele em um ato de livre alienação definitivamente afirmado (através da repetição, sem redundâncias, do “eu te amo”). Ele se evidencia como um criador quase divino, que faz, ex nihilo, a pessoa amada através do poder que esta lhe concede (sobretudo o poder de nominação, manifesto em todos os nomes únicos e conhecidos apenas por ambos que os apaixonados se dão mutuamente e que, como um ritual iniciático, marcam um novo nascimento, um primeiro começo absoluto, uma mudança de estatuto antológico); mas um criador que, em retorno e simultâneamente, vê-se, à diferença de um Pigmalião egocêntrico e dominador, como o criador de sua criatura.

2 comentários em “Amor, Bourdieu”

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