A sangue frio

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Eu sempre me perguntei o que um bom autor – alguém que gostasse mesmo do ofício, que tivesse um estilo, que soubesse usar recursos que tornem a escrita interessante – faria por uma boa história verdadeira. Porque nem todo mundo que escreve o faz com o objetivo de entretenimento ou tem talento para entreter. Os assuntos mais interessantes ficam tão insosos quanto jiló quando obedecem as fórmulas da academia. Jornalistas possuem mais liberdade, mas a necessidade de se ater aos fatos pode ser uma limitação. O que faria, repito, um bom autor com uma boa história verdadeira? O que Capote fez ao contar o assassinato da família Clutter, em A sangue frio.

Capote acompanhou as investigações e teve a oportunidade de falar pessoalmente com os assassinos. Ele pode formular impressões pessoais e foi atrás de coisas que não tinham relação direta com o caso: o que se discutia nos bares da cidade, que impressão e dramas pessoais que o caso teve na família dos investigadores, a vida em Holcolm antes de depois dos assassinatos, a rotina do corredor da morte, etc. Como resultado, temos um livro tão bem construído e cheio de informações como qualquer romance de narrador onipresente. Capote sem dúvida preencheu algumas lacunas, descreveu cenas baseado em informações de terceiros, inventou diálogos que nunca ocorreram. Mas tudo tornou a história tão vívida que não somos capazes de dizer em que momento isso aconteceu. Ele consegue nos transmitir verossimilhança justamente por não procurar “se ater aos fatos”, como seria de praxe em uma investigação jornalística.

O crime em si só é descrito na metade pra frente do livro. Ele faz duas narrações paralelas, em que segue a família Clutter e os assassinos. Gosto da sutileza com que ele descreve os Clutter:

A casa fora construída em 1948, e projetada em grande parte pelo Sr. Clutter, que se mostrara arquiteto sóbrio e sensato, embora não se destacasse como decorador (….) um imenso sofá moderno na sala de estar, coberto por um tecido encaracolado e entremeado de fios cintilantes de metal prateado; na copa uma banqueta torrada de plástico azul e branco. Este tipo de mobília agradava ao Sr. e a Sra. Clutter, bem como à maioria dos seus conhecidos, cujas casas eram assim decoradas.

Os assassinos, ao contrário dos enraizados Clutter, são errantes e desorganizados:

Uma laterna, uma faca de pesca, um par de luvas de couro e uma roupa de caça, completa com cartuchos, cada ainda mais atmosfera a essa curiosa natureza morta.
– Vai usar isso aí? – perguntou Perry, indicando a roupa.
Dick deu com os nós no dedo do pará-brisa:
Toc, toc. O senhos nos desculpe. Estavámos caçando e parece que perdemos o caminho. Será que poderíamos usar o seu telefone?…
Sí, señor. Yo comprendo.
– Vai ser fácil… Prometo a você, meu anjo, vamos espalhar miolo por tudo quanto é parede.

Quando os dois destinos se cruzam, ele omite temporariamente o encontro e se detém nos efeitos dele. Acompanhamos o terror dos primeiros a encontrarem a família, os laços interrompidos, a notícia se espalhando pela cidade, o clima de insegurança. A violencia inexplicável à uma família tão poderosa e querida afeta a cidade. A percepção da realidade é alterada, a insegurança e a desconfiança se instalam. Tanto que depois eles custam a acreditar que não foi um cidadão o mandante do crime, quando tudo é finalmente esclarecido. A violência banal e sem destino certo assusta muito mais do que a idéia de uma vingança pessoal. E é justamente isso que a trajetória de Dick e Perry nos mostra – o acaso.

Enquanto a cidade imagina coisas, os assassinos vão atrás de suas ilusões pessoais. Eles viajam, praticam pequenas fraudes, convivem da maneira como podem com o laço sinistro criado entre eles. Ao mostrar a biografia de ambos, Capote os torna muito próximos do leitor: Dick simpático e piadista, Perry sensível e até mesmo correto. A empatia que sentimos por alguns momentos os torna mais assustadores, por causar a impressão de que qualquer um esconde o sangue frio capaz de tirar vidas. O livro, em si, também nos desperta sentimentos ambíguos, ao tornar algo horrível gostoso de ler. Ele é tão bem escrito que às vezes nos faz esquecer da sua denúncia, o fato de mostrar o pior lado do ser humano: a incapacidade de se sensibilizar com o sofrimento alheio.

9 comentários em “A sangue frio”

  1. Capote inventou um gênero, e criou esta obra definitiva. Tanto o desgastou que fica como sua obra-prima e única (do gênero, digo).
    É livro de cabeceira e, como você bem diz ao final, traz emoções ambíguas – não dá pra não se comover com Perry, é humanamente impossível.

    E seus melhores seguidores, a meu ver, são Jon Krakauer e Caco Barcellos. Vale a conferida nas obras destes autores – mas ainda que eles façam excepcionalmente bem esse jornalismo literário, lhes faltam um pouco da sensibilidade e beleza com que apenas Capote trata as palavras.

    Pro meu comentário não soar tão correto, digo apenas 'CASA COMIGO CAPOTE!'. Amo demais, meu autor mais favorito EVER!

  2. Ah, eu sabia que teria comentário teu! Tem os detalhes biográficos do Capote, que sofreu de verdade pra escrever esse livro – que eu não sei tão bem assim e por isso omiti. Fiquei com vontade de rever o filme sobre Capote e nem preciso falar que devorarei tudo de e sobre ele.

    Vou dar uma conferida nos autores que você citou, mas concordo contigo – CASA COMIGO, CAPOTE! Sensível e excelente como ele não há.

  3. Demorei muito a querer ler esse livro. Não pelo tema da brutalidade, que aliás me atrai, mas por tanto que esse livro é cultuado e idolatrado. As outras leituras que fiz do Capote, “Os Cães Ladram”, talvez me tivesse desestimulado mais, pelo estilo arguto, hiper-inteligente, programado a ser clássico instantâneo. Há um texto sobre Marilin e outro sobre Brando, em “Os Cães Ladram”, que me fez pensar: nada pode ser melhor e mais genial que isso, pronto, já conheço Capote.

    Aí então cheguei ao livro graças a uma instigação sua no facebook, e foi como uma retribuição: se vc leu Luz em Agosto, vou ler A Sangue Frio. Compreio-o por 10 pilas, e o li, hipnotizado, em dois dias. Incrível ensinamento estético que esse livro oferece. Nada nele revela o Capote obcecado pela genialidade, apto a se deixar canonizar. Ele mostra o quanto, muito acima do personagem que interpretava (há dois ótimos filmes sobre ele), era um Escritor. O livro é minuciosamente pesquisado, sobriamente escrito, franco, poderoso, e, o que me surpreendeu, muito simples! Nada de jogos de linguagem, de virtuosidade.

    O capitulo final, em que ele narra a vida de cada um dos serial killers e assassinos natos que dividem o corredor da morte com os dois personagens, me fez recorrer ao google. Quando ele diz que dois assassinos eram excessivamente belos, tá lá a foto deles: loiros, olhos azuis, porte atlético. O jovem leitor de Nietzche que mata toda a família: gordo, nerd, a cara de quem nasceu fora do mundo, alheio a qualquer sentimento.

    Aliás, lendo “Vício Inerente”, no qual Pynchon faz muitas referências à história e mitos pop norte americanos da década de 1960, também recorri enormemente à net. Fiquei horas absolutamento embevecido na leitura dessa coisa espantosa, uma constatação de que “o mal da humanidade é a ignorância”, como escreveu certa vez um grande pensador de sanitários:

    http://atwabrasil.com/

  4. Charlles, nem tenho o que dizer sobre o teu comentário. O livro é como você descreveu: devorável, genial, minucioso, franco, poderoso. Fico feliz de ter te instigado a algo tão bom!

    Eu não tinha pensado em ver a cara dos belos assassinos do final. A história que mais me chocou foi a do biólogo, Andy. Há anos, presenteei o Luiz com um livro só sobre serial killers, da Ilana Casoy. Não tenho coragem nem de folhear; entendo bem o receio da Nikelen.

  5. Mas vc deu pra falar de assuntos que eu gosto, hein? 1. vou sim ver o filme, me destruo (que eu sei) mas me recomponho sempre; 2. Amo o Capote desde que li A Sangue Frio pela primeira vez, aos 15, prestes a fazer vestibular pra jornalismo e por influência do meu pai (o autor, não o curso). Excelente texto.

  6. E eu lá tenho culpa de você ser uma mulher de bom gosto? 😉

    Olha, estou meio traumatizada com o Cisne Negro. Uma amiga foi ver por influência minha e disse que não saiu bem. Não é recomedável pra todos os perfis…

  7. Quebrando o bloqueio: seu post sobre dinossauros me lembrou as divertidas análises sobre trivialidades feitas por Woody Allen. Em especial em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, em que um Allen menino diz estar obcecado pela expansão do universo, pois em algum momento, tudo que se expande explode. E mãe lhe dá um cascudo na cabeça e retruca: “e o que diabos você tem a ver com isso, moleque?”

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