Sexo trocado

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Sexo é cultura. O que entendemos como masculinidade ou feminilidade são totalmente determinadas pelo meio. É ela que nos diz que homens são fortes, agressivos e líderes, enquanto as mulheres são delicadas, tranquilas e conciliadoras. Desde o nosso nascimento, na escolha dos nossos nomes e em diferenças sutis de tratamento, vamos assimilando as características do sexo que nos é atribuímos e unicamente com base nelas fazemos nossas escolhas. Desde a maneira de ser portar até a atração física pode ser explicada nesses termos. Ao nascer, a única coisa que diferencia meninos e meninas é a presença do pênis; se fosse possível criar um menino sem pênis, se ele lhe dessem um nome feminino e o tratassem como tal durante toda sua infância, bastaria lhe dar hormônios na adolescência para concluir a transformação.

Eu sei que tudo o que eu disse soou exagerado. Mas durante algum tempo, as coisas foram consideradas verdades científicas. Tempo o suficiente para tornar real a experiência de criar um menino sem pênis como menina. É o que conta o livro Sexo Trocado. Um erro médico criou a oportunidade perfeita para provar o determinismo cultural sobre o biológico: em 1967, dois meninos gêmeos, de oito meses de idade, foram realizar cirurgias de circuncisão. Em um deles a operação foi tranquila; no outro, o aparelho queimou o pênis do bebê. Sem saber o que fazer, os pais se renderam ao argumento de um médico, que os convenceu que um menino sem pênis estava privado do que há de mais importante na sexualidade masculina. Seria mais fácil castrar o pouco pênis que lhe restou e transformá-lo numa menina. Se eles não contassem a ninguém que ele era originalmente um menino e tratassem a criança como filha, ela assumiria a identidade feminina sem problemas.

As coisas não aconteceram exatamente como o esperado. Mas isso não impediu o médico de apresentar esse caso em diversas conferências, publicar em revistas científicas e se tornar referência nos casos de mudança de sexo. Muitas crianças hermafroditas tiveram suas características dúbias retiradas (em favor de um dos sexos, escolhidos pelo médico) por conta desse caso exemplar. A foto do casal de irmãos e notícias periódicas do desenvolvimento normal da menina confirmavam à comunidade científica o poder da cultura e da intervenção da ciência sobre a natureza. Penso no impacto favorável desse caso ao feminismo da época, que ainda buscava argumentos contra o biologicismo da desigualdade entre os sexos. Era o sonoro NÃO à questão levantada por Margaret Mead no livro Sexo e temperamento (1935): “ninguém conhecia em que grau o temperamento está biologicamente determinado pelo sexo, de modo que esperava ver se havia factores culturais ou sociais que afectassem o temperamento. Eram os homens inevitavelmente agressivos? Eram as mulheres inevitavelmente caseiras?”

A menina cresceu agindo como um menino sem pênis. É como se em algum lugar, desde sempre, ela soubesse da verdade. Quando criança, se comparava ao irmão e dizia que queria ser igual a ele. Quando argumentavam que ela não podia, porque era uma menina, ela ficava sem saber o que dizer. As outras crianças percebiam que havia algo errado e se mantinham longe. Ela cresceu arredia, desconfortável com seu próprio corpo, ignorando e ignorada pelos rapazes. Quando começou a receber hormônios, mesmo sem saber o que eram, não queria tomar. A situação foi ficando cada vez mais insuportável, até que aos 14 anos seus pais lhe revelaram a verdade. Por um lado foi um alívio, mas por outro foi o início de mais uma batalha: a recuperação da masculinidade. É um livro que conta um sofrimento pessoal e familiar muito grande. Anos depois da publicação, seu protagonista cometeu suicídio.

Com o tempo, esse extremo culturalismo foi perdendo força. Na época, a notícia de que a mudança forçada de sexo não fora bem sucedida encontrou uma acolhida fria nos meios acadêmicos. Assim como os estudos que apontavam um componente biológico a ser levado em conta na construção da sexualidade. Hoje esses estudos não encontrariam obstáculo algum – num movimento pendular, hoje estamos vivendo uma busca de explicações biológicas para os todos comportamentos. Existe a pretensão de que a genética substituirá a psicologia. Mesmo em correntes tão diferentes, o falocentrismo ainda não parece ter sido superado… Quem iria prever que a visão da mulher como o negativo (no sentido de encaixe) do homem ou do pênis como peça essencial no complexo de édipo poderiam levar um menino a ser transformado em menina? Coisas que parecem simples metáforas, quando transformadas em discurso científico, têm um perigoso poder de materialização.

9 comentários em “Sexo trocado”

  1. Excelente post.
    Eu não conhecia esse caso ou o livro, mas acho que os comportamentos de gênero e a sexualidade ainda são zonas obscuras às nossas ferramentas de interpretação. Um dos motivos é o fato de que estas ferramentas são também culturalmente mediadas.
    Você já leu Inventando o Sexo, do historiador Thomas Laqueur? Ele faz uma história da própria biologia enquanto ciência de conhecimento do corpo e percebe o quanto o discurso biológico, nada tem imparcialidade pretendida e o quanto este foi constantemente marcado pelas visões culturais. Aristóteles vendo as mulheres como machos com defeito ou as descrições (por tanto tempo em voga no século XX) que assemelham a concepção intra-uterina à narrativa de um estupro. Neste último, basta voltar aos nossos antigos livros de biologia da escola: ainda é possível ver ali toda a atitude pertencendo ao espermatozóide, e toda a passividade cabendo ao óvulo. Nada dessas modernidades de afinidade bioquímica. A narrativa mais antiga falava de uma enorme quantidade de espermatozóides tentando “quebrar” a “resistência” do óvulo. Olhar isso com uma lupa sócio-histórica pode nos dar outra perspectiva.
    Ou seja, penso, a questão não é apenas de gênero, mas de sua construção e dos preconceitos nele arraigados.
    O protagonista do seu livro não poderia ser igual ao irmão por ser menina? O fato de ele não aceitar essa “desvantagem” faz dele um menino em essência? São leituras tão complicadas e eu não vejo uma ferramenta de interpretação que possa, sozinha, dar conta disso. Quero dizer, sabemos como foi esse “tratamento de menina” que esse menino recebeu? Os olhares, os pesares, o que ele, criança-parabólica, captava das atitudes dos pais? Os pais se convenceram realmente que tinham uma menina? Não estou defendendo o culturalismo, vejo o que os avanços da testosterona fazem no menino que tenho em casa. No entanto, continuo a achar que nem a cultura, nem a biologia podem se manifestar solitariamente sobre nossas inclinações sexuais.
    Escrevo tudo isso e lembro de um documentário sobre transsexuais femininos, que assisti há alguns anos. Lembro de um homem que foi mãe antes de ser homem. De outro, lembro que a transformação esteve ligada ao fato de ele amar uma mulher que não se sentia homossexual e queria um companheiro e não uma companheira. Um terceiro: outrora uma mulher alta e bonita, se tornou um homem alto e bonito, mas apenas se relacionava com… rapazes! Ao assistir isso, minhas noções de sexo e gênero se desgrudaram das ideias de desejo e mesmo de sexualidade. Eu achava impensável uma mulher querer ser homem para ser um homem gay. No entanto, era um fato.
    Creio que apenas engatinhamos. Engatinhamos à passos lentos, assim como nossas lupas e ferramentas interpretativas. Talvez, a medida que nossos preconceitos forem morrendo, nos tornemos mais aptos a compreensão das nossas complexidades.

  2. Obrigada, Nikelen.

    Eu li Inventando o Sexo sim, um dos mais interessantes de todo mestrado. Foi lá que tomei conhecimento das explicações biológicas que viam a mulher como o negativo do homem, até entendendo o formato do útero e das trompas seguindo essa imagem invertida. O falocentrismo é bastante creditado a Freud, mas as coisas são muito antigas e profundas.

    Também achei bastante “ingênuo” dizerem para os pais tratarem como menina e achar que isso resolveria. Eles jamais conseguiriam olhar para ela com naturalidade. Não era como uma menina que quando brinca com o carrinho do irmão e isso não quer dizer nada além de uma brincadeira. A cada olhar, cada susto, os pais deveriam transmitir o tempo todo essa dúvida do quão adaptada ela conseguiria ser ou não.

    É difícil não jogar fora o bebê com a água do banho. Assim como o caso não demonstra que a cultura é determinante, o fracasso dele também não demonstra que o biológico é tudo. É uma fronteira que talvez não seja tão relevante assim delimitar, e sim aceitar que a coisa é muito mais difícil e confusa do que ser simplesmente macho x fêmea.

  3. Ai, ai, ai, tema complicado esse. Vou gostar de ler o livro, acho. Com esta frase espero que fique claro que a partir de agora tudo são opiniões relativas ao tema, não ao conteúdo do livro, que não li.
    Pra mim tem um fator que não foi considerado – e que não me aproxima da explicação biológica, pelo contrário, afasta-me – que é o inconsciente. O bode que deu aí no lance, pra mim, tem muita relação com isso. Segundo, putz, na sociedade ocidental (e tem mudado muito lentamente) é muito mais “divertido” ser menino que ser menina e ser insatisfeita com o corpo, com as possibilidades, desejar ser como o utro, especialmente gêmeo, vendo tudo que ele podia e “ela” era privada me parece bem razoável e comum e não teria muito efeito se não fosse a situação anterior dando sentido diferente a toda esta experiência e a como os demais (pais, principalmente) reagiam em relação a tudo isso.
    Enfim, um post excelente, que faz pensar e ficou aqui brincando no meu juízo.

  4. Concordo contigo, Borboleta. Bem claramente: eu só tive irmãos, e brincava muito com meninos. Detestava bonecas bebês, ficar limpinha e vestir rosa. O que me divertia era andar de bicicleta, pegar onda, correr. Ser menino é realmente muito mais divertido. Mas como eu não tinha um histórico anterior, uma mutilação, uma mudança forçada de sexo, ninguém achou que eu estava dando errado por isso (quer dizer, ficaram com um pouco de medo, mas é outra escala). Penso no quanto talvez essa menina tivesse que ficar esteriotipadamente mais rosinha e fofinha senão as pessoas não seriam convencidas. É muita coisa mesmo. Fico com muita pena desses pais, da responsabilidade que eles tiveram que carregar.

  5. Eu gosto de literatura e música erudita, mas sou muito macho, viu? Não seria menininha nem homossexual ou metrossexual ou retrossexual, nem que a curtura mandasse. Não vem me confundir com esse papinho furado andrógino que vou a Curitiba pra sair logo na porrada. Não escorregaria nem que queimassem meu pau pra churrasco.

    E avisa aí pra Nikelen que meus espermatozóides nadam pra cacete e perfuram qquer óvulo, mesmo o mais descansado. É uma força da porra, vou te contar. Não dá pra resistir.

    Não gosto desses papos, tá? Confundem a gente mais do que parada gay, dá vontade de pegar uns paus e sair dando porrada pra afastar qquer dúvida, entende? Ainda se fosse a vontade de Deus, talvez até… Ai, caralho, fiquei confuso.

    (MR em versão neonazista)

  6. Milton, a última vez que fiquei brabo assim tive que correr para o quarto e tirar às pressas a calcinha da minha esposa para me aliviar. É que ela ficou apertando meu saco o dia inteiro no trabalho, e a marca do elástico só saiu depois de uma semana passando creme da natura.

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