Ontem, 70 anos da morte de Virginia Woolf

Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali “Orlando?” Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultâneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – valha-nos o céu- todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. De modo é que é a cois mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, Vem! Estou moralmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo, e necessitando de outro eu) Orlando?, o Orlando de que ela necessita não vir; essses eus de que somos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe pudermos prometer um copo de vinho – e assim por diante; pois cada pessoa pode multipilicar a sua própria experiência às diferentes condições que impões os seus diferentes eus- e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de forma.

Orlando

Eu não sabia o que era ter um autor até conhecer Virginia Woolf. O seu autor é uma escolha literária, mas também uma escolha tão inconsciente como se apaixonar. E ao mesmo tempo é constante como um parentesco. Posso gostar de muitos outros autores, mas na hora de escolher um autor e um livro, meu coração não hesita em dizer: Orlando, Virginia Woolf.

Carmen, Carlos Saura

Se qualquer espetáculo já fica muito mais interessante quando temos um conhecido nele, imagine como é fazer parte do espetáculo. A melhor visão é sempre a das coxias, num sentido muito amplo: ver a coisa nascer e se desenvolver, as mudanças, a divisão dos papéis e até mesmo as rixas internas. Carlos Saura parece concordar comigo, porque ele adora fazer filmes sobre esse processo. Assim é o maravilhoso Ibéria (2005), uma verdadeira ode à cultura flamenca, e assim é o mais antigo Carmen (1983), inspirado na ópera de Bizet.
Como ele é inspirado na ópera, é um filme recomendável para quem a conhece. A amiga que me emprestou o filme não tinha visto a ópera Carmen e o descreveu como “uma história meio chata, uma mulher bem vagabundinha e cenas incríveis de sapateado”. Para quem viu Carmen, o filme é um mosaico interessante, onde você procura se antecipar às cenas ou as encaixa na medida em que são representadas. O grande bailaor Antônio montará o espetáculo Carmen, e procura a mulher ideal para viver o papel. A ele pertence o papel de José. Nessa procura, ele conhece Carmen, uma bailaora inexperiente. Ela corresponde física e psicologicamente ao papel. À medida em que o espetáculo vai amadurecendo, os dois revivem dentro e fora dele a história de José e Carmen.
Para quem admira o flamenco, o filme fica especialmente bom pelos detalhes. As diversas cenas de canto e palmeo; os bailaores fazem exercícios, atravessam o palco com sapateados, há uma aula com castanholas, um momento dedicado apenas aos braceos. Carmen pede para Antonio seduzí-la, dançando uma farruca – uma das danças tipicamente masculinas. Há um confronto com martinete. Até os momentos em que eles terminam de ensaiar e deitam no chão me fazem pensar no quanto o flamenco maltrata a lombar… Numa cena, o elenco está comemorando um aniversário. O guitarrista começa uma canção, o cantaor corresponde, quem está por perto acompanha com palmas e as pessoas começam a bailar, brincando com os papéis da própria ópera – é a festa e espontaneidade que o flamenco possui na Espanha, como são as nossas rodas de samba.
Minha cena preferida é a da Tabacaria. A antagonista de Carmen nessa cena é uma das coreógrafas do espetáculo. Ela é superior à Carmen em todos os sentidos, e não foi escalada para o papel por não corresponder ao biotipo. Por profissionalismo ela ensina a rival, mas é uma tarefa amarga. Nesta cena, quando elas se encaram, sabemos que está no palco um antagonismo que transcendo os papéis. Ensaio e realidade se misturam. No final do confronto ficamos em dúvida se Carmen realmente a feriu. E assim são os espetáculos, os bons espetáculos: representações mentirosas de sentimentos de verdade.

Intelectual, Foucault

Sonho com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades, que localiza e indica nas inércias e nas coações do presente os pontos fracos, as brechas, as linhas de força; que sem cessar se desloca, não sabe exatamente onde estará ou o que pensará amanhã, por estar muito atento ao presente; que contribui, no lugar de onde está, de passagem, a colocar a questão da revolução, se ela vale a pena e qual (quero dizer qual revolução e qual pena)

Foucault/ Microfísica do poder

Viramundo

Ao contrário do Charlles, que pegou uma birra assumida e decidiu ignorar a literatura brasileira, há alguns anos venho empreendendo o caminho contrário. Tenho feito um esforço consciente para ler os autores nacionais, e estendo esse esforço aos autores latino-americanos. Porque é a nossa cultura; saber mais da cultura dos outros não muda a nossa nacionalidade. Li muita literatura francesa mas e daí? Certas coisas são acessíveis apenas à eles, assim como muitas coisas são acessíveis apenas à nós. Outra grande vantagem disso é ler sem apelar para traduções. Escrever me fez entender melhor a importância de ler na língua original. Se passo tanto tempo me decidindo entre belo, bonito, agradável ou encantador, é porque cada uma dessas palavras expressa de mais maneira sutil ou mais próxima a idéia original. São detalhes que distinguem os autores, que criam impressões diferentes nas descrições. Existem até estudos que medem o grau de sinonímia das palavras, o que mostra que a substituição sempre perde algo.

Foi por isso, e tão somente por isso, que eu me propus a ler O grande mentecapto. Fernando Sabino, pra mim, era aquele autor do infeliz Zélia, uma paixão. Gostei tanto do Mentecapto que não pude deixar de me perguntar a mesma coisa que todos se perguntaram na época – Por que o Fernando Sabino se sujeitou a isso? Aquilo é tarefa pra um ghost writer qualquer e não um autor de verdade. Nunca li essa resposta, mas eu sei que deve ser um óbvio contas a pagar.

Era uma tarde de sábado, e ele estava deitado debaixo de uma mangueira no quintal de sua casa. Havia silêncio em tudo, pairando sobre as árvores e as coisas ao redor. O sino da igreja tinha acabado de bater. Então Geraldo Viramundo se apoiou nos cotovelos e estendeu o olhar, meio para longe, meio para cima. Centenas de vezes ele tinha estado ali, naquela mesma posição, era uma paisagem conhecida e tão familiar como o seu próprio modo de viver, que nela se completava. Mas naquele mesmo instante uma buzina de um automóvel soou na estrada, um boi mugiu no pasto, uma menininha de vermelho passava correndo lá longe, na ponte, um vento leve começou a sacudir a ramagem das árvores. O momento assim surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a que tudo se subordinava, como as notas de uma música. Geraldo Viramundo se sentiu mais só do que quando mergulhava no rio, mas era uma solidão feita de desamparo e saudades da infância – quando minutos mais tarde, se ergueu à caminhar pela casa, percebeu que não era menino mais.
Eu colocaria o Mentecapto como um livro picaresco, parente de Dom Quixote e Cândido. É um personagem louco e sábio, que anda pelo mundo e as coisas lhe acontecem de maneira inesperada e quase sempre positiva. É uma leitura leve, um livro que nos faz rir e não dá pra largar até terminar. Há também passagens sensíveis e memoráveis, como a que transcrevi acima. Li há alguns anos, e lembro muito pouco do que acontece com Viramundo. O que ficou foi a sensação de um personagem muito querido e um livro bem feito. Nem todos os autores são Faulkner, Capote ou Guimarães Rosa. Existem Sabino, Scliar, Telles. Pensar isso me faz bem, porque me lembra de que existem estágios até a genialidade. Isso não os torna dispensáveis. Eles não são gênios, mas ainda assim merecem nossa visita.

Decadência

A sociologia entende que culturas vão e vem; que falar em decadência é, na realidade, a eleição de uma cultura e a pretensão de eternizá-la. Algo sempre fica decadente em relação à alguma coisa – então, como dizer o que é referência? Naturalmente, cada um escolherá como referência a cultura a qual pertence e a época que vive (ou viveu). Por isso a tendência de olhar para as gerações mais novas e achar que elas estão decadentes, assim como nossos pais diziam o mesmo quando éramos jovens. A religião parece trazer a idéia da decadência no seu cerne, porque elas geralmente surgem baseadas na figura de um lider carismático ou pouco após a sua morte. Esse lider se torna o marco zero, e à medida em que nos afastamos da época em que ele esteve presente, a decadência aumenta. A idéia de decadência funciona como alguém que anda olhando para trás.

Em alguns casos é difícil não pensar que estamos vendo uma decadência. Vejo as pessoas terem muita certeza disso no campo artístico, que parece ter entrado numa simplificação sem fim. Um exemplo bem claro é o da música. Pouca gente é louca de comparar a música clássica com a pop; falemos da música pop em relação a si mesma. Ainda ouvimos e cultuamos a música dos anos 70 e a música hoje é quase toda descartável. O problema é que os objetivos e a forma de produzir música mudaram. Ao contrário do conhecimento científico, que procura ser acumulativo, na arte a mudança não quer dizer superação, apenas diferença. Ainda ouvimos as obras do passado e gostamos; temos acesso às que permaneceram e por isso achamos que tudo naquela época era excelente. As obras atuais ainda não sofreram o filtro do tempo, estão próximas demais. Não tem como negar que a nossa música que se ouve hoje é realmente menos elaborada, em critérios melódicos. Ela está associada a outras formas de consumo e está muito ligada à imagem, aos videoclipes. Isso é melhor ou pior? Depende do critério…

Nos “costumes” encontramos a maior queixa de nossa decadência. Por costumes, geralmente podemos entender o comportamento sexual. Todos estaríamos mais libertinos. A liberdade sexual dos anos 60 teria nos levado ladeira abaixo; o modelo anterior não era perfeito mas pelo menos funcionava. Ou seja: a liberdade sexual ampla e às claras é assustadora. Não dá pra mensurar a quantidade de pessoas que burlavam essas regras, mas sabemos que elas existiam. Homens e mulheres não sabem mais qual comportamento é normal ou quantos parceiros uma pessoa saudável pode ter. O homossexualismo deixou de ser considerado uma doença. Essa dificuldade em encontrar respostas simples dá a alguns a sensação de decadência. Não que não houvesse liberdade sexual antes, mas ela estava restrita a um pequeno grupo: homens heterossexuais. A eles ter muitas parceiras não apenas não era negado como era estimulado, dentro e fora do casamento. Já para as mulheres, poucos parceitos, ou um único parceiro que não fosse o marido já prejudicava toda uma vida. Homossexuais estavam condenados a um sofrimento ainda maior do que o de hoje, onde pelo menos aceitamos que o desejo existe. O modelo anterior era mais preto no branco; justamente por isso, mais comportamentos eram considerados transgressores.

Apesar de todas as relativizações que fiz, eu acho que estamos decadentes. Eu não veria problema nenhum em subvertermos critérios, consumirmos mais, explorarmos a nossa sexualidade e tantas outras coisas que sairam do armário na nossa época, sem que ao menos tivessemos idéia de que havia um armário. Acho que qualquer coisa teria valido a pena se estivessemos mais felizes. Mas não estamos. Lembro de Durkheim, o pai da sociologia, que dizia que era perigoso quando o indivíduo se sentia apartado do todo. Ou de Bauman, que fala da nossa incapacidade cada vez maior de nos relacionarmos face a face. Por fim, de Boaventura, que nos alerta que a espera passiva pelo futuro não nos preparará para ele. Parece que entramos num ciclo destrutivo em que nada deve permanecer sólido e nos ressentimos por não termos onde segurar.

Uma história curta e triste

Meu pai tinha um amigo, também engenheiro, que trabalhava com a esposa em uma usina nuclear. Parecia o emprego dos sonhos: eles tiravam férias quatros meses durante o ano, ganhavam muito mais do que a média salarial e se aposentariam cedo. Esse amigo se tornou o padrinho do meu irmão mais velho, o que me matava de inveja: além de eu não ter padrinho (meu irmão é o único filho batizado), o padrinho dele era legal e rico. Os filhos estudaram nos melhores colégios e herdei de uma das filhas o vestido rosa mais lindo que usei durante a minha infância. Lembro dele dirigindo um carro de câmbio automático em plenos anos 80. Meu pai teria ido trabalhar lá se pudesse. Mas o tempo se encarregou de mostrar que não havia nenhuma bondade do que a empresa lhe oferecia. A esposa do padrinho morreu muito jovem, provavelmente de câncer, e o corpo dele não demorou a sentir os efeitos. É como se ele tivesse envelhecido depressa. O carro de câmbio automático era porque ele, já aos quarenta anos, não tinha força no braço o suficiente pra dirigir um carro comum.

Eu me lembrei dessa história quando vi o desastre no Japão. Me sinto bem retratada no texto do Farinatti, então apenas os convido a lerem. Acho que ele expressa bem o sentimento diante do que está acontecendo lá, a ironia desse destino que os liga a desastres atômicos. Lembro também do texto do Charlles, testemunha ocular do que aconteceu em Goiânia no episódio do Césio 137. Ao mesmo tempo, as notícias nos mostram o comportamento exemplar do povo japonês. Em nenhum outro lugar do mundo veríamos essas coisas. São muitas lições a serem aprendidas num só episódio.

Progresso

Em todos os países da Europa, é agora uma verdade que se pode demonstrar para toda mente despida de preconceitos, e que só pode ser negada por aqueles que estão interessados em iludir as pessoas, que nem o aperfeiçoamento das máquinas, nem a aplicação da ciência à produção, nem os artifícios da comunicação, nem a criação de novas colônias, nem a abertura de mercados, nem o livre-câmbio, nem todas essas coisas juntas abolirão a miséria das classes trabalhadoras; mas que, pelo contrário, com base nas falsas bases atuantes atualmente vigentes, todos os novos progressos das forças produtivas do trabalho tenderão a intensificar as discrepâncias sociais e aguçar os antagonismos sociais. A morte causada pela fome atingiu quase o nível de uma instituição, durante esta época de embriaguez com o progresso econômico, na metrópole do império britânico; Esta época está assinalada nos anais do mundo pelo retorno mais rápido, o âmbito mais extenso e os efeitos mais letais da praga social denominada crise comercial e industrial.

Marx, na 1º internacional comunista, em 1864
retirado do livro Rumo à estação Finlândia

Plástica

Esta seria a explicação das famosas “recuperações” do corpo pela pornografia, pela publicidade?

Eu não estou inteiramente de acordo em falar de “recuperação”. É o desenvolvimento estratégico normal de uma luta… Tomemos um exemplo preciso: o do auto-erotismo. Os controles da masturbação praticamente só começaram na Europa durante o séc XVIII. Repentinamente, surge um pânico: os jovens se masturbam. Em nome deste medo foi instaurado sobre o corpo das crianças – através das famílias, mas sem que elas fossem a sua origem – um controle, uma vigilância, uma objetivação da sexualidade, com uma perseguição dos corpos. Mas a sexualidade, tornando-se assim um objeto de preocupação e análise, como alvo de vigilância e de controle, produziria ao mesmo tempo a intensificação dos desejos de cada um por seu próprio corpo…

O corpo se tornou aquilo que está em jogo numa luta entre filhos e pais, entre a criança e as instâncias de controle. A revolta do corpo sexual é o contra-efeito dessa ofensiva. Como é que o poder responde? Através de uma exploração econômica (e talvez ideológica) da erotização, desde produtos para bronzear, até filmes pornográficos… Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento, que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação: “Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado!” A cada movimento de um dos dois adversários corresponde o movimento do outro. Mas também não é a “recuperação” no sentido de que falam os esquerdistas. É preciso aceitar o indefinido da luta… O que não quer dizer que ela não acabará um dia.
Foucault/ Microfísica do poder

Eu tenho algumas idéias desorganizadas sobre as plásticas, impressões que vou colocar aqui. Ela não é a primeira forma de tecnologia que interfere no corpo para enquadra-lo a um padrão cada vez mais irreal. Penso nos espartilhos (que agora estão de volta), os minúsculos pés das chinesas, no pescoço das mulheres-girafa – não me sinto capaz de dizer qual das intervenções é mais agressiva ou desconfortável, as do passado ou as de hoje. Com esses exemplos, tenho a impressão de que essas mudanças sempre foram impostas prioritariamente sobre o corpo das mulheres, o que pode tornar as nossas plásticas um fenômeno diferente. Num futuro não muito distante, elas serão universais – todo corpo passará pelo bisturi. Ao invés de diminuir sobre as mulheres, as nossas exigências estéticas estão invadindo o mundo masculino. Se fosse para arriscar uma previsão, eu diria que o homem do futuro será metrossexual. Eles provarão do seu próprio veneno e também serão aprisionados pela exigência da beleza.

O nosso desenvolvimento científico permite interferir no corpo de uma maneira mais ampla e rápida. Não é mais necessário trabalhar em cima de um corpo desde a infância, sob o risco de não conseguir mais tarde. Existe muito pouco que não possa ser modificado, o que torna a coisas bastante assustadora. E para cada mudança possível, existe um padrão correspondente. E mesmo para aqueles que não querem ou não precisam mudar suas características físicas, a plástica também se torna um destino por causa do envelhecimento. Há uma tentativa evidente de congelar o corpo numa adolescência idealizada. O corpo ideal é um conjunto de características que existem um pouco em cada pessoa, e por isso mesmo representa nenhuma. Ela torna a satisfação com seu próprio corpo uma coisa quase impossível.

É nesse ponto que eu acho profética a observação de Foucault sobre o controle-estimulação. A impressão que eu tenho é que o invés de estarmos mais nus, estamos cada vez mais vestidos. A nudez do corpo feminino não é mais, por si só, uma visão excitante. A mulher que vai exibir ser corpo numa revista, num programa de TV ou num palco, precisa passar por uma série de correções: pele perfeita, ausência quase total de pêlos, seios, coxas e bunda volumosos, cintura fina, quadril largo, barriga encolhida. O photoshop completa o processo. Adaptar o corpo a esse padrão é visto como um privilégio; as plásticas prometem a compra da beleza. Experimentem dizer pra alguém não fazer plástica – essa atitude pode ser interpretada como falta de empatia (pelo sofrimento de ter envelhecido ou de não ser padrão) ou até mesmo inveja. A prova de que não estamos mais liberais é que a visão de um corpo “feio” ou velho (ou seja, normal) é de mau gosto e indecente.

Doses de ciência na cura da religião?

Programas evangélicos, desses que passam na TV, têm um pouco de tudo. Há um momento específico de doutrinação, mas vai muito além disso. Fiéis mandam cartas perguntando ao pastor o que fazer, coisas comuns como casar ou esperar mais um pouco. Em ritmos possíveis, muitas vezes inspiradas no último sucesso pop, as músicas se esmeram em tentar colocar Jesus em todos os refrões. Nos programas da igreja universal cada dia tem um ritual diferente – camiseta amarrada, as sete águas correntes, a flor de não-sei-o-quê. Mas o momento mais interessante, sem dúvida, é quando eles dão voz aos que frequentam a igreja, para eles compartilharem os seus milagres pessoais: ações na justiça que se resolveram rapidamente, livrar-se com drogas, casais que não se entendem, problemas crônicos de saúde, etc.

Frequentei muitos cultos por curiosidade, mas nem ao menos sou batizada. Apesar disso, eu sou aquela que vai nos posts do ateu Milton Ribeiro “defender” a religião. Não que eu a considere desejável, e sim porque não concordo com visões simplistas sobre o assunto. Uma delas é crer se tornarmos a ciência acessível, as pessoas se libertarão da religião.

(roubei da Tina Lo)

Eu diria que esse é um pensamento datado. Mais especificamente, do século XIX. No já citado Ramo de Ouro (The golden bough: a study of magic and religion), publicado em 1890, Frazer propunha que a humanidade avança por três estágios: do mágico para o religioso e do religioso pro científico. A magia era visto como algo mais desorganizado, que através de leis especifícas – como da contiguidade e da similaridade – tenta influenciar o mundo extermo. A religião teria a vantagem de ser um sistema cosmológico mais complexo, que ao invés de entender a natureza através leis imaginadas, apela para a existência de espíritos e divindades. E o científico é o estágio da excelência, das coisas como são, de entender a natureza tal como ela é e buscar influenciá-la da maneira realmente eficiente. Em resumo, a ciência é o ocidental e civilizado. Magia e religião são coisas de atrasados e primitivos, de pessoas de raciocínio menos desenvolvido – estejam eles vivendo longe ou perto de nós.

Existe uma referência anterior a Frazer, mas não menos importante: Comte. Augusto Comte (1798-1857), avô da sociologia, também postula três estados no desenvolvimento do sistema social: o estado teológico, estado metafísico e estado positivista. No estado teológico, o o homem observa a natureza e, impossibilitado de entendê-la de outra maneira, produz explicações sobrenaturais, dando origem às teologias; no estado metafísico, a procura de soluções absolutas para os problemas dos homens o leva e especulações abstratas e daí surge a filosofia; por fim, o estado final é o positivista, onde o homem subordina seu julgamento à razão e chega à ciência positiva. A ciência positiva uniria todas as ciências, conheceria as leis que regem as sociedades e permitiria a produção do bem. Novamente a ciência surge como um estágio superior de pensamento. É interessante pensar que Comte distingue teologia de religião, e propunha a criação da Igreja Positivista; nela, são louvados os grandes filósofos, cientistas e artistas da humanidade. Isso mostra que qualquer coisa pode ser colocada num altar, inclusive a ciência.

Nem preciso dizer que todas as previsões sobre o fim das religiões falharam. Ciência e religião coexistem, e não foi por falta de avanço científico. Na minha opinião, quem ofereceu uma explicação simples e profunda a esse respeito foi Weber, o mesmo autor de A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904). No Ciência e política: duas vocações (1917-1919) ele nos diz, citando Tolstói: “a ciência não tem sentido porque não responde à nossa pergunta, a única pergunta importante para nós: o que devemos fazer e como devemos viver?” Retorno aos programas evangélicos, às cartas, às músicas, aos rituais, às dúvidas idiossincráticas dos fiéis, às decisões a serem tomadas todos os dias. Há uma dor que precisa ser carregada individualmente e a ciência não lida com ela. Por mais mentiroso ou fantasioso que soe aos ouvidos descrentes, a religião têm algo a propor sobre a vida de cada um. A ciência procura descrever o mundo e não encontrar um significado nele.

É preciso entender o que é ser um fiel. Há um desejo anterior aos templos, por isso não basta destruí-los. Esse desejo vai além da simples crença de que existe algo além do que vemos, porque muitos que não frequentam nenhuma denominação também pensam assim. Crer não torna alguém religioso, no sentido de ser um fiel. O fiel vai à sua igreja; fazer parte de uma igreja é viver uma cultura. É o encontro marcado, a vivência em comum, pessoas que olham o mundo a partir de um mesmo ponto e a partir dele algo é gerado. Igrejas oferecem uma ampla rede de apoio, tanto para os seus fiéis como para o resto da sociedade. Basta pensar no conceito de caridade – quase todos os trabalhos voluntários e altruístas ainda se alimentam dele. Eu vejo falarem em tirar a religião das pessoas, como quem retira um objeto. Não se propõe nada, não a substitui por nada. Enquanto aqueles que gostariam de ver o fim das religiões a entenderem apenas como um conjunto de crenças equivocadas, sempre estarão muito longe de solucionar esse problema.

Ser adulto, Capote

“Mas agora”, disse ela, como quem volta ao que interessa, “me diga o que você espera da vida. Além da fama e da fortuna – que são o óbvio. ” Eu respondi: “Não sei o que espero. Sei o que eu gostaria. Eu gostaria de ser adulto.”

As pálpebras pintadas de Colette ergueram-se e caíram como asas vagarosas de uma enorme águia azul. “Mas isso” disse ela “é justamente o que nenhum de nós vai ser um dia: adulto. Você quer dizer um espírito trajando nada mais do que um saco de cinzas e de sabedoria? Livre de toda malícia – de toda a maldade a ganância e a culpa? Impossível. Voltaire, até mesmo Voltaire tinha uma criança dentro dele, uma criança ciumenta e irritada, um garotinho imundo que passava o tempo inteiro cheirando os dedos. Voltaire arrastou esse menino ao túmulo, e nós vamos fazer a mesma coisa. O papa na sacada… pensando num rostinho bonito da Guarda Suíça. E o juiz inglês de peruca elegante, no que pensa ao mandar um homem para a forca? Na justiça e na eternidade e em sentimentos adultos? Ou será que estaria pensando em como se eleger no Jockey Club? Claro, os homens têm grandes momentos adultos, momentos nobres que ocorrem de vez em quando, e dentro de todos eles é claro que a morte é o mais importante. A morte sem dúvida põe o garotinho imundo a correr e deixa o que restou de nós como um simples objeto sem vida, mas puro, como a Rosa Branca. Tome” – ela me alcançou o cristal florido -, “ponha no seu bolso. Guarde-o como um lembrete de que ser durável e perfeito, ser adulto de verdade é ser um objeto, um altar, uma figura no vitral: algo a ser celebrado. Mas sério, é muito melhor espirrar e se sentir humano”
Truman Capote/ Súplicas atendidas