Plástica

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Esta seria a explicação das famosas “recuperações” do corpo pela pornografia, pela publicidade?

Eu não estou inteiramente de acordo em falar de “recuperação”. É o desenvolvimento estratégico normal de uma luta… Tomemos um exemplo preciso: o do auto-erotismo. Os controles da masturbação praticamente só começaram na Europa durante o séc XVIII. Repentinamente, surge um pânico: os jovens se masturbam. Em nome deste medo foi instaurado sobre o corpo das crianças – através das famílias, mas sem que elas fossem a sua origem – um controle, uma vigilância, uma objetivação da sexualidade, com uma perseguição dos corpos. Mas a sexualidade, tornando-se assim um objeto de preocupação e análise, como alvo de vigilância e de controle, produziria ao mesmo tempo a intensificação dos desejos de cada um por seu próprio corpo…

O corpo se tornou aquilo que está em jogo numa luta entre filhos e pais, entre a criança e as instâncias de controle. A revolta do corpo sexual é o contra-efeito dessa ofensiva. Como é que o poder responde? Através de uma exploração econômica (e talvez ideológica) da erotização, desde produtos para bronzear, até filmes pornográficos… Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento, que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação: “Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado!” A cada movimento de um dos dois adversários corresponde o movimento do outro. Mas também não é a “recuperação” no sentido de que falam os esquerdistas. É preciso aceitar o indefinido da luta… O que não quer dizer que ela não acabará um dia.
Foucault/ Microfísica do poder

Eu tenho algumas idéias desorganizadas sobre as plásticas, impressões que vou colocar aqui. Ela não é a primeira forma de tecnologia que interfere no corpo para enquadra-lo a um padrão cada vez mais irreal. Penso nos espartilhos (que agora estão de volta), os minúsculos pés das chinesas, no pescoço das mulheres-girafa – não me sinto capaz de dizer qual das intervenções é mais agressiva ou desconfortável, as do passado ou as de hoje. Com esses exemplos, tenho a impressão de que essas mudanças sempre foram impostas prioritariamente sobre o corpo das mulheres, o que pode tornar as nossas plásticas um fenômeno diferente. Num futuro não muito distante, elas serão universais – todo corpo passará pelo bisturi. Ao invés de diminuir sobre as mulheres, as nossas exigências estéticas estão invadindo o mundo masculino. Se fosse para arriscar uma previsão, eu diria que o homem do futuro será metrossexual. Eles provarão do seu próprio veneno e também serão aprisionados pela exigência da beleza.

O nosso desenvolvimento científico permite interferir no corpo de uma maneira mais ampla e rápida. Não é mais necessário trabalhar em cima de um corpo desde a infância, sob o risco de não conseguir mais tarde. Existe muito pouco que não possa ser modificado, o que torna a coisas bastante assustadora. E para cada mudança possível, existe um padrão correspondente. E mesmo para aqueles que não querem ou não precisam mudar suas características físicas, a plástica também se torna um destino por causa do envelhecimento. Há uma tentativa evidente de congelar o corpo numa adolescência idealizada. O corpo ideal é um conjunto de características que existem um pouco em cada pessoa, e por isso mesmo representa nenhuma. Ela torna a satisfação com seu próprio corpo uma coisa quase impossível.

É nesse ponto que eu acho profética a observação de Foucault sobre o controle-estimulação. A impressão que eu tenho é que o invés de estarmos mais nus, estamos cada vez mais vestidos. A nudez do corpo feminino não é mais, por si só, uma visão excitante. A mulher que vai exibir ser corpo numa revista, num programa de TV ou num palco, precisa passar por uma série de correções: pele perfeita, ausência quase total de pêlos, seios, coxas e bunda volumosos, cintura fina, quadril largo, barriga encolhida. O photoshop completa o processo. Adaptar o corpo a esse padrão é visto como um privilégio; as plásticas prometem a compra da beleza. Experimentem dizer pra alguém não fazer plástica – essa atitude pode ser interpretada como falta de empatia (pelo sofrimento de ter envelhecido ou de não ser padrão) ou até mesmo inveja. A prova de que não estamos mais liberais é que a visão de um corpo “feio” ou velho (ou seja, normal) é de mau gosto e indecente.

2 comentários em “Plástica”

  1. Engraçado como tentam colocar na nossa cabeça que beleza é igual a corpo. Pelo menos pra mim, beleza é muito mais que isso, é um estado, resultado da combinação de diversos fatores além da aparência simplesmente, como a personalidade, inteligência, senso de humor, etc. E está também nas imperfeições, nos detalhes, naquela ruginha nos olhos, naquele nariz diferente…

  2. Exatamente, beleza não é apenas corpo. Quantas pessoas lindas se tornam feias por causa do resto? Talvez o problema de dizer às pessoas que cada um tem sua beleza específica é que essa idéia não dá o menor lucro…

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