Escrever pra quê e pra quem

Isso aconteceu durante uma aula do mestrado. Algumas pessoas acharam engraçadíssimo, a piada do curso. Outras, fecharam a cara, ficaram pessoalmente ofendidas. Alguns juraram que com eles seria diferente, que o trabalho deles estava destinado a ser relevante para o mundo.

– Durante a minha pesquisa – contava o professor da área de sociologia rural – eu descobri que o grande Fulano da Silva, da famosa família Silva do Mato Grosso, considerado o precursor a pecuária brasileira, não passava de um ladrão. Um la-drão. Era proibido trazer cabeças de gado de uma determinada raça aqui pro Brasil, e ele trouxe mesmo assim, tudo ilegal, escondido em navios que passavam pela Amazônia…
– Mas, professor, o senhor chamou o Fulano da Silva de ladrão no seu trabalho, com todas as letras? E a família Silva não ficou aborrecida?
O professor estava começando a argumentar, quando um aluno da área de cultura, até então alheio à discussão, interviu:
– E você acha que a Família Silva leu o trabalho dele? Ninguém leu, ninguém sabe se ele chamou de ladrão ou não. Você acha que alguém vai ler os nossos trabalhos? O que a gente faz na academia fica na academia mesmo, só nossos orientadores é que lêem e olhe lá!

Engraçado ou não, isso é muito verdadeiro. Senti essa dificuldade quando me propus a escrever este blog. Pensei em colocar algumas coisas que escrevi em de tantos anos de discussões e trabalhos. Mas nada se aproveitava. A necessidade de atender às normas científicas, fazer citações, colocar bibliografia e, principalmente, de utilizar o jargão, tornam tudo o que escrevi na academia próprio apenas para ela. Por outro lado, eu sei que por mais interessantes que sejam os textos que coloco aqui, por mais sociológicos que pareçam certos insights, nada disso teria relevância ou poderia ser plagiado pra ser transformado num artigo científico. Se alguém quiser utilizar alguma das minhas idéias, terá que pesquisar tanto e colocar tanta bibliografia no meio que se tornará um trabalho inédito…

Circuntâncias pessoais difíceis me afastaram da academia, de uma maneira que eu considero definitiva. Perderei em títulos – daqueles que adornam paredes, fazem com que as pessoas nos olhem como gênios e garantem remunerações maiores. Ao mesmo tempo, com este blog atingirei muito mais pessoas e terei muito mais liberdade na hora de escrever (claro que não o suficiente para compensar a bolsa que perdi, *suspiro*). Quando você se propõe a pesquisar um tema, é ele quem te ocupa em todas as suas leituras, todas as notícias que você procura, todas as suas formas de olhar a realidade. Não que outras coisas não despertem interesse, mas na academia o pêlo no ovo que cada um se propõe a pesquisar torna-se seu amor e sua prisão. No blog, posso falar de família, cinema e teorias conspiratórias sem o menor receio.

Sociólogos costumam nutrir antipatia por os jornalistas, pela tendência dos últimos à simplificação. Um exemplo clássico é chamar um especialista e fazer as perguntas de maneira mais básica, pedir para resumir uma questão em poucas palavras e falar da maneira mais simplista o possível “para que a pessoa que está em casa entenda”. Como se todos os que estivessem assistindo a TV naquele instante fosse ignorantes e quisessem permanecer assim. Ao invés de tentar aumentar o nível do debate, jornalistas são acusados de nivelar constantemente por baixo. Assim dá a impressão de que só existem duas maneiras de discutir um assunto: a profunda, acadêmica, hermética e cheia de jargões, inascessível a quem não é da área; a coloquial, simplificadora e senso comum, veiculada pelos meios de comunicação e que atinge todas as camadas.

Não acredito que seja assim, e blogs mostram constantemente isso. Eles são mais rápidos e acessíveis, utilizam uma linguagem que atinge diversos tipos de público. Promovem debates interessantes e muitas vezes superam a imprensa tradicional. É possível passar o dia inteiro na internet lendo piadas, mas também é possível ter acesso a pessoas e informações que de nenhuma outra maneira seria possível. Mais do que uma simples exclusão, acredito que aqui é possível buscar uma discussão de qualidade, numa linguagem que permita que o conteúdo possa ser digerido por muitos. Aquilo que, num passado distante, buscavamos da ciência.

Feminismo problemático

Se declarar feminista, escrever sobre temas feministas, é se conformar a ser considerada lésbica, mal amada, ranzinza, chata, ruim de cama, feia. E pior, reforçar tudo isso (na lógica de que todo louco acha que é normal) quando se defende, ao reclamar que essas coisas não são colocadas em questão quando falamos de homens. “Feminista” é uma atribuição pesada, que afasta muitas mulheres do tema. Ao mesmo tempo, ser mulher e não se declarar feminista é como olhar uma pessoa apanhando e atravessar a rua pra não se meter em confusão. Não conheço nenhuma mulher que não reconheça o valor do feminismo, que nunca tenha se sentido desvalorizada nas suas opiniões só por ser mulher. As mulheres que passam reto diante das discussões feministas sentem que estão se poupando e deixando que as outras sofram por elas. Isso faz com que o feminismo seja um problema da qual uma mulher não consegue fugir – ou ela se coloca na linha de frente e recebe a carga de preconceito que a palavra carrega, ou se abstém com a sensação de que não está fazendo a sua parte.

Fazer a sua parte é outro problema. Lembro de uma reportagem sobre um lava-carros que só utilizava mão de obra feminina. Lavar o carro lá custava mais caro, porque as mulheres os lavavam de shorts e camisetas brancas, sem soutien. Aos clientes era dada a opção de ficar dentro do carro durante a lavagem, o que os permitia observarem os seios das moças colados no vidro enquanto elas executavam o serviço. Não preciso falar que a graça era apenas essa, que o único motivo que levava os homens a lotarem aquele lugar era para olhar essas mulheres. Mas, quando o lava-carros proibido, essas moças se sentiram prejudicadas. Elas alegaram que não eram ingênuas, que sabiam que estavam expondo seus corpos. Disseram que não eram prostitutas, que nenhum homem tocava nelas, e que tinham o direito de se expor e serem bem pagas (recebiam mais do que um serviço de lava-carros normal) por isso.

As mulheres que lucram com o desejo masculino se consideram bem pagas, por mais que isso seja considerado por outras uma forma de exploração sexual. Elas não se sentem subjugadas e sim poderosas – exercer a sua sensualidade livremente não deixa de ser uma conquista quando pensamos naquelas que precisam se cobrir da cabeça aos pés. E o que dizer das rainhas de bateria, que não apenas se expõem como são muito musculosas, de uma maneira fabricada com dietas ricas em proteínas e anabolizantes? O corpo masculinizado delas pode ser considerado um avanço, se pensarmos na reivindicação de ser não ser mais o sexo frágil, não ter que se diminuir para que um homem se sinta forte ao seu lado. Na época da minha mãe era impensável ver uma mulher fumando em público, bebendo até cair, priorizando sua carreira em detrimento da família, que não sabem e não querem ser boas donas-de-casa. Mais: mulheres fazendo sexo casual, mulheres que decidem não ter filhos, mulheres consumindo e produzindo pornografia, mulheres expondo sua sexualidade. São todos comportamentos que demonstram liberdade, mesmo que alguns nos choquem ou incomodem.

Por ser o feminismo um assunto tão amplo, não há uma fórmula, ninguém tem clareza sobre o que fazer e quando. É difícil avaliar o que é um avanço ou um retrocesso. A acusação de “masculinidade” (ser lésbica, agressiva, etc) que pesa sobre as feministas, leva alguns à crença de que a feminista deve se esmerar nos cuidados femininos, a saber: ser bonita, usar saia, andar de salto alto, cuidar bem das unhas, falar com delicadeza, ter marido e filhos. Tudo para que ela se defenda de antemão às acusações típicas, para que ela seja ouvida. Para outros, essa exigência é mais uma armadilha. Que se um homem é avaliado pelo que ele fala e não por sua aparência ou vida sexual, não há porque aceitar que essa exigência pese sobre as feministas. A crítica feminista seria justamente sobre essa forma tradicional e apaziguadora de feminilidade; então, que sentido teria cobrar que as feministas a repetissem. Por isso, algumas mulheres compreendem que não reproduzir esse modelo de feminilidade é uma forma importante de luta.

Quando a gente começa a aprofundar sobre o assunto, realmente começa a enxergar machismo em toda parte: na publicidade que mostra a mulher de lingerie esperando pelo seu homem, em campanhas políticas que ressaltam que a candidata governará “com o coração”, na exigência do judiciário de que as mulheres usem saia, na proliferação das listas de mulheres mais bonitas. São muitas bandeiras a se levantar, tantas quanto as resistências. Quanto mais normal, habitual e indiscutível é um comportamento, mais difícil e mais chato de apontar. E às vezes é muito mais do que isso: apontar certas coisas transforma o debate numa simples guerra entre sexos, o que não é verdadeiro. Estamos imersos no mesmo mundo, e mulheres também consomem e reproduzem idéias machistas. Somos nós, mulheres, que compramos e usamos as lingeries, que colocamos a aparência como ponto fundamental na nossa auto-estima. Nós lucramos com o desejo masculino, recorremos às lágrimas e alegamos desvantagem física quando nos convém. O machismo nos oferece algumas vantagens, a qual nos apegamos. Gosto da definição de Bourdieu, que diz que a relação entre homens e mulheres é de dominação, onde os dominados (as mulheres) consentem de maneira ingênua, sem perceber que ganham muito menos do que oferecem e ajudam a perpetuar sua situação.

Não conheço resposta a esses problemas. Quanto mais um mulher se informa e se identifica com o feminismo, mais questões pessoais surgem. Dúvidas que para as outras pessoas podem parecer muito simples, muito triviais. A honestidade intelectual às vezes nos faz chegar a resultados indesejados e enfurecer quem quer enxergar apenas conquistas, e numa determinada direção. Talvez uma boa lembrança seja a de que quando uma causa é grande demais, não existe uma forma única de se lutar por ela.

Férula, personagem de A Casa dos Espíritos

Ao longo de tantos anos de solidão e tristeza tinha ido decantando as emoções e limpando os sentimentos, até os reduzir a umas poucas terríveis e magníficas paixões, que a ocupavam por completo. Não tinha capacidade para as pequenas perturbações, para os rancores mesquinhos, as invejas dissimuladas, as obras de caridade, os carinhos mornos, a cortesia amável ou as considerações citadinas. Era um desses seres nascidos para a grandeza de um só amor, para o ódio exagerado, para a vingança apocalíptica e para o heroísmo mais sublime, mas não conseguiu realizar seu destino à medida da sua romântica vocação, e esse destino decorreu chato e cinzento, entre as paredes de um quarto de enferma, em míseros asilos, em tortuosas confissões, onde essa mulher grande, opulenta, de sangue ardente, feita para a maternidade, para a abundância, a ação e o ardor, se foi consumindo.

Isabel Allende/ A casa do espíritos

Um mundo carente de terapia

Quando eu fazia psicologia, sentia um certo medo quando via a exigência de terapia pra casos como os de Realengo. Porque imagino que não haja um “especialista em vítimas de situações de massacre e violência extrema”. Não ainda. Imaginava a pessoa comum, como eu me via, chegando lá com a tarefa de tornar aptos e sãos adolescentes que viveram algo tão brutal. Porque quando a gente diz que é necessário mandar para a terapia, na verdade está dizendo – sem ajuda, esse indivíduo não conseguirá ser normal. E por normal, entendemos alguém que ande pelas ruas, trabalhe, case, tenha filhos, amadureça. Eu fiquei muito espantada, quando no 5º ano, quase saindo da faculdade, um dos autores de psicodrama na qual me baseava para fazer atendimento clínico, declarava que se a pessoa tivesse um amigo que a apoie e possa confiar, essa pessoa poderia ser tão terapeutica como um psicólogo. Afinal, psicólogos eram curadores mágicos capazes de tornar qualquer um normal novamente ou apenas um amigo sensato?

Olho para trás, na história da psicologia, e vejo ela surgir como necessidade a contextos muito específicos – mulheres apresentavam paralisias que não podiam ser explicadas por lesões organicas; seleção de indivíduos mais aptos para exercer funções específicas em períodos de guerra e, posteriormente, tratamento para ex-soldados traumatizados; crianças fora da curva normal de aprendizagem, por apresentarem uma inteligência muito superior ou muito inferior ao dos seus colegas, etc. Por algum motivo, hoje a psicologia é muito mais, é uma verdadeira panacéia. Ela serve aos que estão abaixo da média e aos que estão acima também. Ela trata tanto o que sofreu um grande trauma como aquele que se ressente da vida tediosa. Faz-se necessária na adolescência em si, porque é uma fase muito difícil. É de grande ajuda para obesos, pais, casais em dificuldade, desempregados (difícil é pagar terapia nesse período), compulsivos e qualquer coisa que possa ser chamada de problema. O como todos têm problemas, todos precisam de terapia.

Precisar de ajuda pra resolver todo e qualquer tipo de problema revela uma insegurança, uma falha no sentimento de se sentir potente diante das dificuldades. Antigamente a única saída era calar diante de certas dores, resolvê-las dentro de si sem alarde. Muitas dessas dores nem ao menos possuiam um nome. Nem por isso essas pessoas deixaram de seguir em frente, nós somos a prova disso. O nosso mundo possui mais nomes -assédio moral, bullying, stress pós-traumático, depressão pós-parto -, mais ajuda e mais necessidade de ajuda. É uma realidade tão complicada, os papéis tão confusos, as exigências tão grandes que a pessoa comum não se sente apta a lidar com ela sem ajuda profissional. Para alcançar algo, nem que esse algo seja apenas retornar ao estado primitivo, é preciso ajuda. Todos são amadores, sem seus terapeutas.

Todos? Mesmo aqueles que conseguiram sucesso, aqueles que possuem o que os outros desejam? Isso demonstra que há algo de errado com o que consideramos sucesso, com o que nos motiva, com o que todos buscam. Quem está de fora, acha que a felicidade é estar dentro; quem está dentro sofre – com as expectativas frustradas, com o peso de manter sua posição, com a falta de motivação. Lembro de Marcuse, e seu conceito de mais-repressão: a repressão freudiana, por retardar o princípio de prazer, criava mais tensão e por isso mais prazer. Hoje vivemos uma repressão constante que não leva a lugar nenhum, que jamais é satisfeita, a repressão se tornou um fim em si mesma. Parece que não há lugar onde chegar. Ou que não estamos mais culturalmente preparados para chegar e parar. Deixar de reprimir e deixar fluir o princípio de prazer não é um simples gesto de vontade depois de uma existência inteira de mais-repressão.

Ao mesmo tempo, a terapia em si é algo tão simples. É difícil acreditar no caráter mágico que ela se reveste. O terapeuta é uma pessoa que ouve segredos e promete sigilo absoluto a respeito deles. Ele se dispõe a se colocar numa posição de escuta, e oferecer seu melhor parecer baseado no que ouviu. Se um amigo confiável é capaz de oferecer o mesmo conforto, por que tanta gente precisa pagar para isso? É possível concluir muitas coisas: que as pessoas possuem muitos amigos, mas não são capazes de confiar neles; que as pessoas quase não têm amigos e por isso não encontram com quem compartilhar; que as relações estão virtuais demais, que ter muitos amigos de @s não acrescenta à qualidade de vida das pessoas; que até a amizade e a compreensão são mediadas por relações comerciais e as pessoas perderam a capacidade de trocar de maneira desinteressada. São todas hipóteses plausíveis. O fato é que as pessoas têm sentido necessidade de pagar para serem ouvidas, que o desejo de compreensão não tem encontrado acolhida nas relações do dia a dia. E que valorizamos a palavra de tal maneira que ela se basta pra quase tudo.

Por fim, acho a terapeutização do mundo inteiro uma maneira simplista de entender os problemas. É uma maneira de olhar para o detalhe e se surpreender com cada problema como se ele fosse novo. O que se repete em vários indivíduos não é apenas individual, poderia ser tratado como coletivo. Temos preferido achar que a obesidade é falta de força de vontade e gula de cada um, ao invés de pensar em questões mais amplas como mudanças no padrão de alimentação, a retirada da mulher da cozinha e entrada no mercado de trabalho (não que eu ache que ela deva ficar na cozinha, por favor!), a popularização do fast food, padrões irreais de beleza, etc. Ao buscar a terapeutização do mundo, queremos tratar o depois, a última ponta de uma série de problemas. Esse movimento muitas vezes coloca sobre o sujeito uma responsabilidade que não é só dele. E diminui a força contestatória dessas questões.

Civilidade, para Sennet

Eu definiria a civilidade da seguinte maneira: é a atividade que protege as pessoas umas das outras e assim permite que elas tirem proveito da companhia umas das outras. Usar máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, separadas das circunstâncias do poder, do mal-estar e do sentimento privado daqueles que as usam. A civilidade tem como objetivo a proteção dos outros contra serem sobrecarregados por alguém. Se alguém fosse religioso e acreditasse que o impulso vital do homem é o mal, ou então se alguém tomasse Freud à sério e acreditasse que o impulso vital do homem é a guerra interior, então, o mascaramento do eu, a libertação dos outros de serem apanhados pela carga interior de alguém seria um bem evidente.

Richard Sennett/ O declínio do homem público: as tiranias da intimidade

Temas acadêmicos

Teoricamente, qualquer tema é possível de ser estudado através de métodos científicos, desde que ele receba um recorte que o permita ser transformado numa pesquisa. Na prática, somos tão determinados pela nossa forma de pensar que é difícil fazer um recorte diferente dos caminhos já utilizados. Nossa sociedade valoriza alguns assuntos, se envergonha de outros, simplesmente não pensa em muitas coisas. E o mundo acadêmico, parte dessa sociedade mas com características particulares de grupo, não poderia ser diferente.

Lembro de alguns exemplos simples: a maneira como era constragedor para mim dizer que estava pesquisando cegos, no meu mestrado. Só faltavam falar “oh, que bonito!”. O estigma que recai sobre eles recaia também sobre mim como pesquisadora. O que eu fazia simplesmente não era levado à sério como pesquisa, ela era vista apenas caridade. Pior ainda se na conversa estivesse alguém que fazia uma pesquisa política. Um dos meus professores de ciência política já havia dito em sala que “os alunos mais inteligentes sempre se voltam para a política”, e parece que todos os alunos de ciência política compartilhavam dessa crença. Porque o trabalho deles era difícil, institucional, legal, afetava muita gente. As pessoas silenciavam diante de tamanha importância, nem ousavam se pronunciar perante algo tão hermético. O que não tinha problema nenhum, porque os alunos de política estava sempre prontos a discursarem sobre o seu trabalho. A vontade deles de falar era inversamente proporcional a de ouvir quem pesquisava coisas tolas, sociologia da cultura por exemplo. Mas preconceito mesmo sofria uma amiga que ia estudar o luxo e a história da Cartier. Um dos nossos professores disse na cara dela que considerava um absurdo utilizar um mestrado em sociologia – um curso engajado e crítico – pra estudar um tema fútil.

Imagino que Foucault, antes de ser o Foucault de quem todos ouvimos falar, tenha sido olhado de lado quando dizia que estava estudando sexualidade. Ou quando Da Matta estudou o carnaval, ou o problema que deve ter sido formar o núcleo de pesquisa da USP especializado em novelas. Minha mãe viu mais de uma pessoa passar no mestrado em letras com um excelente projeto sobre Paulo Coelho e ser sutilmente pressionado a escrever sobre gente mais desconhecida e consistente. Como Bourdieu nos faz entender – numa abordagem inédita de algo antes impensável – o que declaramos gostar (e ouso também dizer: pesquisar) nos coloca numa posição diferente perante os outros.

Patriotismo

Eu não saberia o que responder se me perguntasse se sou patriota. Em certos momentos me parece que eu sou, porque acho irritante a mania de algumas pessoas em achar que basta ser de fora para ser bom. Que vale mil vezes lavar pratos em Paris do que ter uma vida tranquila no Brasil, que sair daqui a todo custo é sempre melhor do que ficar. Em outras ocasiões, me parece que não sou, porque sinto vergonha de algumas manifestações culturais legitimamente brasileiras, como a imagem da brasileira fogosa, sambista e semi-nua. Acho que não apenas somos um povo ignorante como nos orgulhamos disso. Vejo a questão de ser brasileira com aceitação, e com um afeto inevitável. O mesmo sentimento que se tem por uma tia avó caipira ou por um primo bêbado – faz todo mundo passar vergonha, mas é parente, fazer o quê?

Quando a gente conhece um pouco de outras culturas, acaba tendo consciência do quanto ainda teríamos o que melhorar. Só quando comecei a dança que eu entendi o quanto é importante apoiar financeiramente atletas, que aqui tudo é feito na base do idealismo e da boa vontade das pessoas. Já os Estados Unidos procuram desde cedo seus talentos, seja nos esportes ou no QI, e oferecem todo apoio. Todos ganham com isso – a pessoa recebe apoio para seguir sua vocação, o país ganha os melhores atletas, as melhores cabeças. A Frau Glaeser, graças a um post meu, falou do amor dos alemães pelo conhecimento, do debate livre e sem preconceito de idéias, de uma clareza no falar que deixou todo mundo com vontade de ir pra Alemanha. A Amanda revela continuamente no seu blog um pouco do modo de pensar dos franceses. Somente lá eu fiquei sabendo que eles não têm o menor orgulho da sua primeira dama ex-modelo, e prefeririam mil vezes uma intelectual como a nossa falecida Ruth Cardoso. São pequenas diferenças que demonstram quem somos, sobre o que atribuímos valor.

Ao mesmo tempo, senti na pele que amar outra cultura nunca nos tornará parte delas. Por parte de mãe, minha família é descendente de chineses. Minha avó era filha e mais tarde se tornou esposa de um chinês. Para aumentar os laços, meu avô era correspondente de um jornal na China e trabalhava com produtos chineses. Então, faz parte da lembrança de infância da minha mãe e tias o som das óperas chinesas ecoando pela sala, um som que parece com “gatos sendo torturados”. Elas cresceram em meio a ideogramas em livros que são lidos de cima pra baixo e da direita para a esquerda, porcelanas, madeiras e marfins cuidadosamente entalhados, comida chinesa de verdade (e não esses fast food gordurosos). Eu não conheci meu avô e peguei apenas a herança da herança. Cada vez que vejo uma mulher oriental – cabelo liso e preto, membros curtos, jeito tímido -, mesmo de costas, ela me remete à minha mãe. Cresci ouvindo histórias sobre meu avô e toda a riqueza que a família tinha nessa época. Aprendi a amar o sobrenome chinês que eu não herdei (nenhuma das filhas passou o nome adiante) e ficar feliz cada vez que alguém adivinha que tenho sangue oriental, o que raramente acontece.

Mas a minha avó, assim como a sua mãe antes dela, fez algo culturalmente imperdoável: ela proibiu meu avô de falar chinês quando ela estava presente. Por esse motivo, nenhum membro da minha família sabe chinês. Os ideogramas para nós são familiares apenas como figuras – mas isso nunca impediu minha família de se ver como chinesa. Foi isso que me fez um dia procurar um curso de chinês. O professor de chinês era nativo e pouca coisa mais velho do que eu. Na turma, um comerciante que fazia negócios com a recém-capitalista China; uma senhora que viajaria para a China em breve; uma universitária que já tinha feito curso de outras sete línguas; uma sul coreoana e por aí vai. Me apresentei ao meu professor como descendente de chinês. Eu olhava para ele e via traços parecidos com de um primo e achei que ele veria em mim alguma familiaridade também. De alguma forma, eu achava que ele me reconheceria como uma igual. Mas ele não viu nada. Para ele, eu sempre fui mais uma de suas alunas brasileiras. E não poderia ser diferente -não sei chinês, nunca pus os pés na China, só estive cercada de objetos e histórias. Apenas nesse momento eu me dei conta de tudo isso.

Eu sou brasileira. Herdei algumas coisas da minha ancestralidade chinesa, como outras pessoas herdaram dos inúmeros outros estrangeiros que vieram para cá. Algumas famílias fazem um esforço consciente para manter sua pureza cultural estrangeira; a minha não o fez, e mesmo se o fizesse nunca é como se morassem fora do país. Se pudesse escolher outra nacionalidade, ser brasileira provavelmente não estaria na lista. Gostaria de fazer parte de culturas mais antigas, que valorizam o estudo, que apoiam o comportamento ordeiro e disciplinado – aqui tentemos da julgar como sem valor (o “trouxa”) a tentativa de fazer as coisas direito. Mas pensar assim é um exercício que não leva a nada. Nada do que eu faça irá mudar o fato de que nasci aqui, que sofro influências definitivas e até inconscientes pelo fato de viver aqui. É o meu background. O que posso fazer é tentar olhar criticamente para a bagagem que carrego e fazer o melhor possível da minha brasilidade.

Porrada

Não sou uma grande noveleira. Sou do tipo que gosta de acompanhar mais pela capa das revistas de fofoca do que pelas novelas em si. Mesmo assim, me salta aos olhos o quantidade de personagens de novelas que são espancados. Há um ou outro caso de denúncia de violência contra a mulher, mas quem geralmente apanha são vilãs. E por outras mulheres, as mocinhas. O público adora e eleva muito a índice de audiência no capítulo onde a porrada é exibida. Nas novelas mais antigas, a vilã recebia um sonoro tapa, como a ambiciosa Maria de Fátima de Vale Tudo (1988-1989). Em novelas mais recentes, como Senhora do Destino (2004-2005) ou Celebridade (2o03-2004), a mocinha conta com ajuda de amigos para encurralar a vilã e bater à vontade, até saciar toda sua sede de vingança.
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Onde foram parar as vitórias morais – a mocinha desvenda todos os equívocos, fica ao lado do homem que ama, rica, feliz e ética? A vilã amargaria o fracasso, ou até mesmo a loucura, sem que pra isso precisasse passar pelo hospital. Isso parece ter se tornado insuficiente para o público. Depois de passar uma novela inteira perdendo tudo, queremos ver a mocinha deixar de ser tão boa e sujar as mãos; queremos um revide físico, que a vilã sofra na pele tudo o que ela fez. A bondade superior dos que apenas sofrem parece passiva demais. Mocinhas assim deixaram de ser verossímeis, esse tipo de ética não gera empatia. Quando ela parte para a porrada, mocinha e vilãs invertem seus papéis; como na vida real, bem e mal se confundem. É difícil encontrar alguém que não se identifique com as vítimas; por isso, ser capaz de revidar com violência eleva alguém à categoria de herói.
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Não é todo mundo que tem um inimigo para bater. Ter um vilão, alguém responsável por todos os nossos males, não deixa de ser um privilégio. Eu rezo toda noite pra ter inimigos com os do Maluf, mas ninguém nunca se deu ao trabalho de fazer um grande depósito na Suíça em meu nome. O que acontece no dia a dia é uma série de aborrecimentos que atingem a todos de maneira bastante impessoal: ter que lidar com uma burocracia cara, lenta e burra cada vez que é preciso tirar algum papel oficial; horas de espera em hospitais ou falhas no atendimento em planos de saúde, o que leva as pessoas a pagarem duas vezes por serviços ruins; longos minutos de musiquinhas ou ter que repetir várias vezes a mesma informação para serviços de telemarketing; demissões que independem da atuação do funcionário e que se devem unicamente por corte de custos e por aí vai. Ninguém se interessa, ninguém nunca é o responsável por nenhum dos nossos problemas.
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Quem trabalha na linha de frente com o atendimento ao público conhece bem a necessidade de descontar a raiva nos outros. Os casos de violência gratuita que estão cada vez mais comuns. Todos se sentem esmagados coletivamente. A passividade, a atitude de suportar os inconvenientes sem revidar é a atitude mais exigida do cidadão comum. Se a mocinha da novela simplesmente deixar passar, estará repetindo o que acontece o tempo todo. Novela não é apenas um pedaço de vida real, ela tem uma função de catarse. Se as vilãs agora apanham nas novelas, é porque agora o público sente uma grande vontade de bater.

Teorias conspiratórias

Como a imprensa não consegue se preocupar com mais de uma catástrofe por vez, não se deu a importância devida às chuvas que alagaram o litoral paranaense. Tudo porque aconteceu no mesmo fim de semana do terremoto do Japão. Além de ter feito desabrigados em nas cidades históricas de Antonina, Paranaguá e Morretes, três pontes que ligavam o litoral ao resto do estado caíram. Foram dias até que as pessoas pudessem ir da praia à capital e vice-versa. Quem estava no meio do caminho teve que dormir no carro. As imagens das pontes de asfalto e concreto destruídas era realmente impressionantes. Por isso, não me surpreendi quando ouvi a seguinte conversa:
– Vocês viram as pontes que cairam no litoral? Eu vi as imagens, água não faz aquele estrago todo. Eu acho que aquilo é consequencia do terremoto no Japão e eles não querem noticiar.
Posso ter presenciado o nascimento de uma nova teoria conspiratória. De nada adiantou falar que vi programas na época do terremoto no Chile, que mostravam as principais placas tectônicas bastante longes daqui. Fui olhada como crédula. Como dizia o seriado Arquivo X, a verdade está lá fora: os desenhos da Disney contém mensagens subliminares satanistas; a gripe suína é uma farsa criada para enriquecer o laboratório responsável pelo seu remédio; o ataque às torres gêmeas foi organizado pelo próprio governo americano; o mundo é controlado pela família Rothschild; e por falar em família Rothschild, ela faz parte de uma raça alienigena que governa a Terra há séculos. Nesses poucos exemplos, é possível perceber que as teorias conspiratórias possuem algumas características em comum:

1. Elas sempre duvidam da versão oficial.

Esta talvez seja a característica mais marcante. Um homem, ser ou pequeno grupo têm acesso à verdade e não deixam que as outras pessoas a conheçam. Haveria uma desculpa nobre, tal como a segurança da população; na realidade, o ocultamento dessa informação serve unicamente aos que se apropriaram dela.

2. Elas acreditam num poder central.

Ess poder pode ser atribuido ao governo, igreja, famílias muito ricas ou ao diabo. Tais minorias não teriam seu poder afetado por mudanças de regimes políticos, distribuição de renda, ou mudança de tradições. Essas oscilações seriam apenas aparentes – quem perde ou sai do poder nunca é quem realmente comanda. O verdadeiro mandatário nunca sofreu perdas ou de afastou da função de comando.

3. Elas acreditam num propósito, que é prejudicial à maioria.

Isso é bastante interessante. Para as teorias conspiratórias, o interesse de poucos sempre se opõe ao interesse da maioria. A minoria no poder acaba encarnando o mal (e às vezes seria o mal em pessoa) por agir de maneira a prejudicar deliberadamente o resto da humanidade. A vida das pessoas comuns tem doenças criadas, guerras sem propósito real, mensagens falsas e/ou empobrecimento previamente planejados. A morte, a doença e a ignorância da população se reverte em lucro e poder para aqueles que os criam.
4. Elas acreditam que coisas aparentemente insuspeitas ou coincidências não o são.
A minoria organizada teria controle de instituições nas quais as pessoas confiam, e se aproveitam dessa confiança. O perigo pode estar no que há de mais íntimo, inocente, no que é absorvido sem crítica. No oficial vemos apenas um lado do poder – ele está nos meios de comunicação, nos alimentos que consumimos, na publicidade, nos desenhos animados. Coisas aparentemente sem ligação, que ocorrem em lugares e épocas diferentes podem fazer parte do mesmo plano, por nos levar à direção que eles querem.

 

5. Elas acreditam numa ação prolongada e organizada.

Toda ação numa teoria conspiratória é um propósito organizado. O limite no número de pessoas envolvidas nessa ação permite que ela se mantenha fiel, até por gerações. Ao mesmo tempo, o grande poder (aquisitivo ou mágico), permite que a engrenagem necessária para colocar o propósito em prática se estenda por toda a Terra. Mudança cultural ou de gerações não faz com que o propósito mude, que a rota seja desviada ou que erros sejam cometidos. Ao entender que qualquer perda aparente é apenas um ardil, atribui-se a esse poder central uma inteligência infalível.