Temas acadêmicos

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Teoricamente, qualquer tema é possível de ser estudado através de métodos científicos, desde que ele receba um recorte que o permita ser transformado numa pesquisa. Na prática, somos tão determinados pela nossa forma de pensar que é difícil fazer um recorte diferente dos caminhos já utilizados. Nossa sociedade valoriza alguns assuntos, se envergonha de outros, simplesmente não pensa em muitas coisas. E o mundo acadêmico, parte dessa sociedade mas com características particulares de grupo, não poderia ser diferente.

Lembro de alguns exemplos simples: a maneira como era constragedor para mim dizer que estava pesquisando cegos, no meu mestrado. Só faltavam falar “oh, que bonito!”. O estigma que recai sobre eles recaia também sobre mim como pesquisadora. O que eu fazia simplesmente não era levado à sério como pesquisa, ela era vista apenas caridade. Pior ainda se na conversa estivesse alguém que fazia uma pesquisa política. Um dos meus professores de ciência política já havia dito em sala que “os alunos mais inteligentes sempre se voltam para a política”, e parece que todos os alunos de ciência política compartilhavam dessa crença. Porque o trabalho deles era difícil, institucional, legal, afetava muita gente. As pessoas silenciavam diante de tamanha importância, nem ousavam se pronunciar perante algo tão hermético. O que não tinha problema nenhum, porque os alunos de política estava sempre prontos a discursarem sobre o seu trabalho. A vontade deles de falar era inversamente proporcional a de ouvir quem pesquisava coisas tolas, sociologia da cultura por exemplo. Mas preconceito mesmo sofria uma amiga que ia estudar o luxo e a história da Cartier. Um dos nossos professores disse na cara dela que considerava um absurdo utilizar um mestrado em sociologia – um curso engajado e crítico – pra estudar um tema fútil.

Imagino que Foucault, antes de ser o Foucault de quem todos ouvimos falar, tenha sido olhado de lado quando dizia que estava estudando sexualidade. Ou quando Da Matta estudou o carnaval, ou o problema que deve ter sido formar o núcleo de pesquisa da USP especializado em novelas. Minha mãe viu mais de uma pessoa passar no mestrado em letras com um excelente projeto sobre Paulo Coelho e ser sutilmente pressionado a escrever sobre gente mais desconhecida e consistente. Como Bourdieu nos faz entender – numa abordagem inédita de algo antes impensável – o que declaramos gostar (e ouso também dizer: pesquisar) nos coloca numa posição diferente perante os outros.

10 comentários em “Temas acadêmicos”

  1. duro mesmo é conviver com a ignorância alheia – dos pares.
    ainda hoje eu ouço piadinhas de indiana jones, perguntas se eu escavo dinossauros, e como minha vida é boa porque insisto nessa vida de pesquisa.
    quer coisa mais inútil que pesquisar vaso grego do século V a.C.?, pensa o mundo.
    e eu respondo: e meu salário é maior que o seu, OI???

    enfim, monotema da minha vida. que triste!

  2. Eu tive uma amigo sociologo que escreve a monografia de conclusão dele sobre super heróis!

    Eu acho interessante que quando se vai trabalhar com tecnologia, geralmente a escolha dos temas de pesquisa são mais limitados e são impostos pelo orientador e pela infra-estrutura que um determinado laboratório possui.

  3. É isso mesmo. Não há dúvidas que o tema de pesquisa forma “grupos identitários” dentro do campo acadêmico. Isso funciona tanto para atribuições de identidade feitas pelos outros, como para as auto-atribuições. E, pior, acaba pautando a pesquisa em vários níveis. Muitas vezes, o pesquisador não quer sair daquela linguagem comum, evita de fazer o que, embora possa achar certo, considera que não será bem valorizado nos termos da sua identidade. Isso amarra o raciocínio e embota o procedimento científico. Mas é um dos fatores mais comuns nesse campo. A inserção de Bourdieu é perfeita. Ele analisou de dentro o campo acadêmico e conseguiu pensá-lo critica e criativamente.

  4. Tentando repetir o comentário da manhã.
    O assunto daria uma tese, não é? As estreitezas da academia. De minha parte, tenho verdadeira ojeriza aos intelectuais de banquinho. Sabe, aqueles que sobem num banco alto e ditam o que é conveniente você pesquisar, ler, dizer, pensar.
    Há alguns anos, acompanhei o Guto em um evento de história econômica na Argentina. Se eu dizia que era historiadora, sorrisos, se dizia que trabalhava com história da saúde (e não da medicina) fechavam a cara e não falavam mais comigo. Houve um jantar em que fui completamente ignorada. Historiadora da cultura (e não cultural como devia ser) era quase uma leprosa por lá.
    talvez, o ranso seja com os estudos culturais, de forma geral, e com os de cultura pop, de forma específica.
    Imagino o escândalo que foi quando, há alguns anos, uma socióloga (acho que era isso) de PoA defendeu uma tese sobre as leitoras de romances de banca. Parece que as “doutoras” que deram entrevista a pesquisadora, pediram para terem seus nomes não mencionados. Nem dá para culpar.

  5. Tina: Mal posso esperar!

    Leonardo: o tema do teu amigo deve ter dado um trabalho muito interessante! Claro que isso fez com que o olhassem de lado tbm. Meu irmão é biolólogo – áreas que envolvem tecnologia realmente possuem ainda outro tipo de dificuldade, fica mais difícil ser original.

    Borboletas: nem sei qual foi a tua pesquisa e mal te conheço, mas acho que você tem mesmo o maior jeito de pária acadêmico. No bom sentido, claro.

    Farinatti: o Bourdieu ficou adequado porque nem era pra ser uma postagem. Eu ia fazer uma pequena introdução ao video e foi ficando grande, grande…

    Nikelen, que coisa. Achei chocante o nível de preconceito. Imaginaria uma coisa dessas num encontro que envolvesse áreas diferentes, jamais entre pares.

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