Um mundo carente de terapia

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Quando eu fazia psicologia, sentia um certo medo quando via a exigência de terapia pra casos como os de Realengo. Porque imagino que não haja um “especialista em vítimas de situações de massacre e violência extrema”. Não ainda. Imaginava a pessoa comum, como eu me via, chegando lá com a tarefa de tornar aptos e sãos adolescentes que viveram algo tão brutal. Porque quando a gente diz que é necessário mandar para a terapia, na verdade está dizendo – sem ajuda, esse indivíduo não conseguirá ser normal. E por normal, entendemos alguém que ande pelas ruas, trabalhe, case, tenha filhos, amadureça. Eu fiquei muito espantada, quando no 5º ano, quase saindo da faculdade, um dos autores de psicodrama na qual me baseava para fazer atendimento clínico, declarava que se a pessoa tivesse um amigo que a apoie e possa confiar, essa pessoa poderia ser tão terapeutica como um psicólogo. Afinal, psicólogos eram curadores mágicos capazes de tornar qualquer um normal novamente ou apenas um amigo sensato?

Olho para trás, na história da psicologia, e vejo ela surgir como necessidade a contextos muito específicos – mulheres apresentavam paralisias que não podiam ser explicadas por lesões organicas; seleção de indivíduos mais aptos para exercer funções específicas em períodos de guerra e, posteriormente, tratamento para ex-soldados traumatizados; crianças fora da curva normal de aprendizagem, por apresentarem uma inteligência muito superior ou muito inferior ao dos seus colegas, etc. Por algum motivo, hoje a psicologia é muito mais, é uma verdadeira panacéia. Ela serve aos que estão abaixo da média e aos que estão acima também. Ela trata tanto o que sofreu um grande trauma como aquele que se ressente da vida tediosa. Faz-se necessária na adolescência em si, porque é uma fase muito difícil. É de grande ajuda para obesos, pais, casais em dificuldade, desempregados (difícil é pagar terapia nesse período), compulsivos e qualquer coisa que possa ser chamada de problema. O como todos têm problemas, todos precisam de terapia.

Precisar de ajuda pra resolver todo e qualquer tipo de problema revela uma insegurança, uma falha no sentimento de se sentir potente diante das dificuldades. Antigamente a única saída era calar diante de certas dores, resolvê-las dentro de si sem alarde. Muitas dessas dores nem ao menos possuiam um nome. Nem por isso essas pessoas deixaram de seguir em frente, nós somos a prova disso. O nosso mundo possui mais nomes -assédio moral, bullying, stress pós-traumático, depressão pós-parto -, mais ajuda e mais necessidade de ajuda. É uma realidade tão complicada, os papéis tão confusos, as exigências tão grandes que a pessoa comum não se sente apta a lidar com ela sem ajuda profissional. Para alcançar algo, nem que esse algo seja apenas retornar ao estado primitivo, é preciso ajuda. Todos são amadores, sem seus terapeutas.

Todos? Mesmo aqueles que conseguiram sucesso, aqueles que possuem o que os outros desejam? Isso demonstra que há algo de errado com o que consideramos sucesso, com o que nos motiva, com o que todos buscam. Quem está de fora, acha que a felicidade é estar dentro; quem está dentro sofre – com as expectativas frustradas, com o peso de manter sua posição, com a falta de motivação. Lembro de Marcuse, e seu conceito de mais-repressão: a repressão freudiana, por retardar o princípio de prazer, criava mais tensão e por isso mais prazer. Hoje vivemos uma repressão constante que não leva a lugar nenhum, que jamais é satisfeita, a repressão se tornou um fim em si mesma. Parece que não há lugar onde chegar. Ou que não estamos mais culturalmente preparados para chegar e parar. Deixar de reprimir e deixar fluir o princípio de prazer não é um simples gesto de vontade depois de uma existência inteira de mais-repressão.

Ao mesmo tempo, a terapia em si é algo tão simples. É difícil acreditar no caráter mágico que ela se reveste. O terapeuta é uma pessoa que ouve segredos e promete sigilo absoluto a respeito deles. Ele se dispõe a se colocar numa posição de escuta, e oferecer seu melhor parecer baseado no que ouviu. Se um amigo confiável é capaz de oferecer o mesmo conforto, por que tanta gente precisa pagar para isso? É possível concluir muitas coisas: que as pessoas possuem muitos amigos, mas não são capazes de confiar neles; que as pessoas quase não têm amigos e por isso não encontram com quem compartilhar; que as relações estão virtuais demais, que ter muitos amigos de @s não acrescenta à qualidade de vida das pessoas; que até a amizade e a compreensão são mediadas por relações comerciais e as pessoas perderam a capacidade de trocar de maneira desinteressada. São todas hipóteses plausíveis. O fato é que as pessoas têm sentido necessidade de pagar para serem ouvidas, que o desejo de compreensão não tem encontrado acolhida nas relações do dia a dia. E que valorizamos a palavra de tal maneira que ela se basta pra quase tudo.

Por fim, acho a terapeutização do mundo inteiro uma maneira simplista de entender os problemas. É uma maneira de olhar para o detalhe e se surpreender com cada problema como se ele fosse novo. O que se repete em vários indivíduos não é apenas individual, poderia ser tratado como coletivo. Temos preferido achar que a obesidade é falta de força de vontade e gula de cada um, ao invés de pensar em questões mais amplas como mudanças no padrão de alimentação, a retirada da mulher da cozinha e entrada no mercado de trabalho (não que eu ache que ela deva ficar na cozinha, por favor!), a popularização do fast food, padrões irreais de beleza, etc. Ao buscar a terapeutização do mundo, queremos tratar o depois, a última ponta de uma série de problemas. Esse movimento muitas vezes coloca sobre o sujeito uma responsabilidade que não é só dele. E diminui a força contestatória dessas questões.

7 comentários em “Um mundo carente de terapia”

  1. Até os dois últimos parágrafo, não tenho absolutamente nada a acrescente. Perfeito.

    Sobre o papel amigo X terapeuta, acho que há ainda algo a ser considerado (e isso vai soar como uma defesa rasgada dos terapeutas). A maior parte dos amigos (os mais próximos ainda mais) se sentem na obrigação de aconselhar. Isso nem sempre é produtivo para a cabeça de algumas pessoas. O terapeuta vai no sentido de fazer com a pessoa descubra quais as alternativas que tem e quais as que gostaria de testar. Para um amigo funcionar assim, você não poderia ter vaidades ocultas com ele. Para quantos amigos se pode dizer, num mundo de aparências, que damos esse poder ilimitado?

    Sobre o último parágrafo… ah, fiquei fã desse belo manifesto sociológico. Essa busca pela raiz dos problemas na compreensão do coletivo e não do individual. É impressionante como nossa breve história com o individualismo conseguiu mascarar nossas interligações, o fato de sermos conjunto. Que as dores de um afetam todos os outros. Será que no futuro, massacres como o de Realengo servirão para nos lembrar disso?

    Excelente.

  2. Muito bom. Teu último parágrafo me lembrou o que o Bauman repete à exaustão: o que o sistema atualmente nos exige é que apresentemos soluções individuais para problemas gerados coletivamente. E somos socialmente avaliados por nosso sucesso nessa empreitada. Isso traz angústias inevitáveis.

  3. Nikelen, essa questão do amigo também apareceu na dúvida do anônimo. Victor Dias (o autor que disse isso) colocou essa história de um amigo valer tanto quanto um terapeuta numa frase simples, no meio do livro. Pra mim soou como uma baita provocação. Até hoje não sei o quanto isso é possível, que amigo é esse, que conhecimentos ele tem.

    Sobre o último parágrafo… Ele resume o que me levou a fazer sociologia. Que bom que vocês (incluo nessa o Farinatti) gostaram.

  4. Muito bom e muito bem colocada a questão do amigo. Um velho professor de fenomenologia dizia que análise é para quem não tinha amigos. Boa para repensar a qualidade de nossas relações com pessoas que chamamos de “amigos”.

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