Férula, personagem de A Casa dos Espíritos

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Ao longo de tantos anos de solidão e tristeza tinha ido decantando as emoções e limpando os sentimentos, até os reduzir a umas poucas terríveis e magníficas paixões, que a ocupavam por completo. Não tinha capacidade para as pequenas perturbações, para os rancores mesquinhos, as invejas dissimuladas, as obras de caridade, os carinhos mornos, a cortesia amável ou as considerações citadinas. Era um desses seres nascidos para a grandeza de um só amor, para o ódio exagerado, para a vingança apocalíptica e para o heroísmo mais sublime, mas não conseguiu realizar seu destino à medida da sua romântica vocação, e esse destino decorreu chato e cinzento, entre as paredes de um quarto de enferma, em míseros asilos, em tortuosas confissões, onde essa mulher grande, opulenta, de sangue ardente, feita para a maternidade, para a abundância, a ação e o ardor, se foi consumindo.

Isabel Allende/ A casa do espíritos

4 comentários em “Férula, personagem de A Casa dos Espíritos”

  1. Ai, gente, o tanto que eu gosto da Allende. O tanto que eu gosto das personagens dela. E a Férula tãããão triste, não tem como ler sem aperto no peito. Thanks.

    Rita

  2. Taí, nunca li a Allende, mas tenho grande respeito por ela. Bolaño acabava com ela, dizia que era a escritora mais medíocre da América Latina. Bolaño se achava demais, vai ver por isso seu fígado não desopilava. Muita ira. Li algumas partes de De Amor e Sombras, a achei literatura de primeira.

  3. Rita, eu adoro a Férula. Ela faz parte da minha galeria de grandes mulheres, ao lado da Ana Terra.

    Charlles, eu tive uma fase Allende e me sinto segura em dizer que ela sabe o que faz. Ela sabe temperar uma história, colocar humor, fazer você chorar, enfim, ela domina o seu ofício. O melhor livro dela é, sem dúvida, A Casa dos Espíritos. O ritual que ela tem de todo ano sentar na frente da máquina de escrever numa determinada data, pra mim, a torna uma escritora irregular. Valeria a pena publicar menos. Mas mesmo quando um livro dela é medíocre, nunca deixa de ser bem contado.

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