Feminismo problemático

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Se declarar feminista, escrever sobre temas feministas, é se conformar a ser considerada lésbica, mal amada, ranzinza, chata, ruim de cama, feia. E pior, reforçar tudo isso (na lógica de que todo louco acha que é normal) quando se defende, ao reclamar que essas coisas não são colocadas em questão quando falamos de homens. “Feminista” é uma atribuição pesada, que afasta muitas mulheres do tema. Ao mesmo tempo, ser mulher e não se declarar feminista é como olhar uma pessoa apanhando e atravessar a rua pra não se meter em confusão. Não conheço nenhuma mulher que não reconheça o valor do feminismo, que nunca tenha se sentido desvalorizada nas suas opiniões só por ser mulher. As mulheres que passam reto diante das discussões feministas sentem que estão se poupando e deixando que as outras sofram por elas. Isso faz com que o feminismo seja um problema da qual uma mulher não consegue fugir – ou ela se coloca na linha de frente e recebe a carga de preconceito que a palavra carrega, ou se abstém com a sensação de que não está fazendo a sua parte.

Fazer a sua parte é outro problema. Lembro de uma reportagem sobre um lava-carros que só utilizava mão de obra feminina. Lavar o carro lá custava mais caro, porque as mulheres os lavavam de shorts e camisetas brancas, sem soutien. Aos clientes era dada a opção de ficar dentro do carro durante a lavagem, o que os permitia observarem os seios das moças colados no vidro enquanto elas executavam o serviço. Não preciso falar que a graça era apenas essa, que o único motivo que levava os homens a lotarem aquele lugar era para olhar essas mulheres. Mas, quando o lava-carros proibido, essas moças se sentiram prejudicadas. Elas alegaram que não eram ingênuas, que sabiam que estavam expondo seus corpos. Disseram que não eram prostitutas, que nenhum homem tocava nelas, e que tinham o direito de se expor e serem bem pagas (recebiam mais do que um serviço de lava-carros normal) por isso.

As mulheres que lucram com o desejo masculino se consideram bem pagas, por mais que isso seja considerado por outras uma forma de exploração sexual. Elas não se sentem subjugadas e sim poderosas – exercer a sua sensualidade livremente não deixa de ser uma conquista quando pensamos naquelas que precisam se cobrir da cabeça aos pés. E o que dizer das rainhas de bateria, que não apenas se expõem como são muito musculosas, de uma maneira fabricada com dietas ricas em proteínas e anabolizantes? O corpo masculinizado delas pode ser considerado um avanço, se pensarmos na reivindicação de ser não ser mais o sexo frágil, não ter que se diminuir para que um homem se sinta forte ao seu lado. Na época da minha mãe era impensável ver uma mulher fumando em público, bebendo até cair, priorizando sua carreira em detrimento da família, que não sabem e não querem ser boas donas-de-casa. Mais: mulheres fazendo sexo casual, mulheres que decidem não ter filhos, mulheres consumindo e produzindo pornografia, mulheres expondo sua sexualidade. São todos comportamentos que demonstram liberdade, mesmo que alguns nos choquem ou incomodem.

Por ser o feminismo um assunto tão amplo, não há uma fórmula, ninguém tem clareza sobre o que fazer e quando. É difícil avaliar o que é um avanço ou um retrocesso. A acusação de “masculinidade” (ser lésbica, agressiva, etc) que pesa sobre as feministas, leva alguns à crença de que a feminista deve se esmerar nos cuidados femininos, a saber: ser bonita, usar saia, andar de salto alto, cuidar bem das unhas, falar com delicadeza, ter marido e filhos. Tudo para que ela se defenda de antemão às acusações típicas, para que ela seja ouvida. Para outros, essa exigência é mais uma armadilha. Que se um homem é avaliado pelo que ele fala e não por sua aparência ou vida sexual, não há porque aceitar que essa exigência pese sobre as feministas. A crítica feminista seria justamente sobre essa forma tradicional e apaziguadora de feminilidade; então, que sentido teria cobrar que as feministas a repetissem. Por isso, algumas mulheres compreendem que não reproduzir esse modelo de feminilidade é uma forma importante de luta.

Quando a gente começa a aprofundar sobre o assunto, realmente começa a enxergar machismo em toda parte: na publicidade que mostra a mulher de lingerie esperando pelo seu homem, em campanhas políticas que ressaltam que a candidata governará “com o coração”, na exigência do judiciário de que as mulheres usem saia, na proliferação das listas de mulheres mais bonitas. São muitas bandeiras a se levantar, tantas quanto as resistências. Quanto mais normal, habitual e indiscutível é um comportamento, mais difícil e mais chato de apontar. E às vezes é muito mais do que isso: apontar certas coisas transforma o debate numa simples guerra entre sexos, o que não é verdadeiro. Estamos imersos no mesmo mundo, e mulheres também consomem e reproduzem idéias machistas. Somos nós, mulheres, que compramos e usamos as lingeries, que colocamos a aparência como ponto fundamental na nossa auto-estima. Nós lucramos com o desejo masculino, recorremos às lágrimas e alegamos desvantagem física quando nos convém. O machismo nos oferece algumas vantagens, a qual nos apegamos. Gosto da definição de Bourdieu, que diz que a relação entre homens e mulheres é de dominação, onde os dominados (as mulheres) consentem de maneira ingênua, sem perceber que ganham muito menos do que oferecem e ajudam a perpetuar sua situação.

Não conheço resposta a esses problemas. Quanto mais um mulher se informa e se identifica com o feminismo, mais questões pessoais surgem. Dúvidas que para as outras pessoas podem parecer muito simples, muito triviais. A honestidade intelectual às vezes nos faz chegar a resultados indesejados e enfurecer quem quer enxergar apenas conquistas, e numa determinada direção. Talvez uma boa lembrança seja a de que quando uma causa é grande demais, não existe uma forma única de se lutar por ela.

3 comentários em “Feminismo problemático”

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