Escrever pra quê e pra quem

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Isso aconteceu durante uma aula do mestrado. Algumas pessoas acharam engraçadíssimo, a piada do curso. Outras, fecharam a cara, ficaram pessoalmente ofendidas. Alguns juraram que com eles seria diferente, que o trabalho deles estava destinado a ser relevante para o mundo.

– Durante a minha pesquisa – contava o professor da área de sociologia rural – eu descobri que o grande Fulano da Silva, da famosa família Silva do Mato Grosso, considerado o precursor a pecuária brasileira, não passava de um ladrão. Um la-drão. Era proibido trazer cabeças de gado de uma determinada raça aqui pro Brasil, e ele trouxe mesmo assim, tudo ilegal, escondido em navios que passavam pela Amazônia…
– Mas, professor, o senhor chamou o Fulano da Silva de ladrão no seu trabalho, com todas as letras? E a família Silva não ficou aborrecida?
O professor estava começando a argumentar, quando um aluno da área de cultura, até então alheio à discussão, interviu:
– E você acha que a Família Silva leu o trabalho dele? Ninguém leu, ninguém sabe se ele chamou de ladrão ou não. Você acha que alguém vai ler os nossos trabalhos? O que a gente faz na academia fica na academia mesmo, só nossos orientadores é que lêem e olhe lá!

Engraçado ou não, isso é muito verdadeiro. Senti essa dificuldade quando me propus a escrever este blog. Pensei em colocar algumas coisas que escrevi em de tantos anos de discussões e trabalhos. Mas nada se aproveitava. A necessidade de atender às normas científicas, fazer citações, colocar bibliografia e, principalmente, de utilizar o jargão, tornam tudo o que escrevi na academia próprio apenas para ela. Por outro lado, eu sei que por mais interessantes que sejam os textos que coloco aqui, por mais sociológicos que pareçam certos insights, nada disso teria relevância ou poderia ser plagiado pra ser transformado num artigo científico. Se alguém quiser utilizar alguma das minhas idéias, terá que pesquisar tanto e colocar tanta bibliografia no meio que se tornará um trabalho inédito…

Circuntâncias pessoais difíceis me afastaram da academia, de uma maneira que eu considero definitiva. Perderei em títulos – daqueles que adornam paredes, fazem com que as pessoas nos olhem como gênios e garantem remunerações maiores. Ao mesmo tempo, com este blog atingirei muito mais pessoas e terei muito mais liberdade na hora de escrever (claro que não o suficiente para compensar a bolsa que perdi, *suspiro*). Quando você se propõe a pesquisar um tema, é ele quem te ocupa em todas as suas leituras, todas as notícias que você procura, todas as suas formas de olhar a realidade. Não que outras coisas não despertem interesse, mas na academia o pêlo no ovo que cada um se propõe a pesquisar torna-se seu amor e sua prisão. No blog, posso falar de família, cinema e teorias conspiratórias sem o menor receio.

Sociólogos costumam nutrir antipatia por os jornalistas, pela tendência dos últimos à simplificação. Um exemplo clássico é chamar um especialista e fazer as perguntas de maneira mais básica, pedir para resumir uma questão em poucas palavras e falar da maneira mais simplista o possível “para que a pessoa que está em casa entenda”. Como se todos os que estivessem assistindo a TV naquele instante fosse ignorantes e quisessem permanecer assim. Ao invés de tentar aumentar o nível do debate, jornalistas são acusados de nivelar constantemente por baixo. Assim dá a impressão de que só existem duas maneiras de discutir um assunto: a profunda, acadêmica, hermética e cheia de jargões, inascessível a quem não é da área; a coloquial, simplificadora e senso comum, veiculada pelos meios de comunicação e que atinge todas as camadas.

Não acredito que seja assim, e blogs mostram constantemente isso. Eles são mais rápidos e acessíveis, utilizam uma linguagem que atinge diversos tipos de público. Promovem debates interessantes e muitas vezes superam a imprensa tradicional. É possível passar o dia inteiro na internet lendo piadas, mas também é possível ter acesso a pessoas e informações que de nenhuma outra maneira seria possível. Mais do que uma simples exclusão, acredito que aqui é possível buscar uma discussão de qualidade, numa linguagem que permita que o conteúdo possa ser digerido por muitos. Aquilo que, num passado distante, buscavamos da ciência.

5 comentários em “Escrever pra quê e pra quem”

  1. Sinceramente, a pior coisa do meio acadêmico que eu sinto que não ocorre a maioria das vezes nos blogs, é a questão da comunicação em duas vias. Eu sinto que no meio acadêmico a maioria das vezes que você tenta entrar em contato com algum autor por interesse em discutir algo ponto a respeito do trabalho, ele simplesmente ignora.

    Para mim a impressão é que a maioria das vezes a pessoa quer mais um papel para botar no currículo e aumentar estatísticas do que efetivamente promover um debate em cima daquilo que foi publicado.

  2. O bom é a prova no próprio post daquilo que diz. Eu não lamento em nda não ter seguido uma vida acadêmica. Às vezes, para ser sincero, me vem alguns pesadelos inapropriados que me acordam no meio da noite, em que me vejo retornado àquelas tiranias sem escapatória de ter que pesquisar um fragmento inútil e desmotivador apenas porque algum professor quer. A universidade é um regime de subjugações pelas quais os estudantes tem que passar caladamente, visto que suga todo o tempo e deixa o aluno à mercê apenas dela. Não se pode trabalhar para ganhar seu sustento, o que equivale a um militarismo do conhecimento com as mesmas estruturas hierárquicas que te obrigam a bater continência para estúpidos. E, o pior, que TIPO DE CONHECIMENTO é esse? Do mais fraco, inexpressivo e inofensivo. Aqui mesmo na minha cidade tem um doutor que não consegue passar em nenhum concurso público. Do alto de seus títulos, foi empregado quase por pena em uma das secretaris municipais.

    Mas tem certas famílias de coronéis que se empenham em calar as mínimas expressões críticas contra elas. Os Caiados aqui tem uma representativa folha corrida nesse assunto.

  3. Tanta coisa neste seu post e nos comentários.
    Concordo com quase tudo que foi dito aqui. Os acadêmicos escrevem para eles mesmos, a estrutura dos textos científicos impede a comunicação com um grupo maior de pessoas, muitas pesquisas são tão específicas que correm o risco de serem alienantes.
    Eu iria além e poderia escrever um livro sobre as mazelas da academia. Posso lembrar o estúpido jogo de egos que muitas vezes ocorre, também o fato de que se evita criticar quem é amigo e se cai de pau nos desafetos, mesmo quando o amigo e o desafeto cometeram o mesmo erro. Mais ainda, para ser aceito, tende-se a mimetizar jargões e ideias acriticamente. Uma colega minha já disse que se Marx ou Freud tivessem sido acadêmicos, não teriam feito nada de genial, porque a academia trataria de atrapalha-los sem descanso.
    Também passo pelo dilema que descreves. Creio que o que escrevi até agora como História, NA FORMA ACADÊMICA, não pode ir para blog sem uma mudança de linguagem.
    Porém, o melhor da ciência é que ela não é perfeita, nem o conhecimento que produz é eterno. Ele é refutável. Fico pensando que o esforço por explicitar critérios de validação do que se está pesquisando e de deixar claro os caminhos seguidos é que gera aquele monte de referências e descrições metodológicas, tornando o texto enfadonho (ainda que nem todos o sejam!). Mas isso talvez seja um mal necessário, fazendo parte do que permite o avanço do conhecimento em algumas áreas onde a especialização já avançou bastante.
    Isso não se contrapõe aos ensaios criativos, densos, bem escritos e bons de ler, como vejo em alguns blogs. Na verdade, penso que são coisas diferentes e não são conflitantes. Olha só, no fim acabei me vendo como alguém coerente (pretensão que nunca tive).
    Sou acadêmico e tenho um blog.

  4. Leo, acho que a hierarquia é realmente uma das coisas mais importantes no meio acadêmico. Com o tempo aprendi a respeitar mais esse idéia (talvez porque a idade tem me tornado hierarquicamente superior!), mas acho que antes de tudo ela protege as pessoas. Protege de ser colocada em questão, dá legitimidade ao que ela fala sem precisar argumentar e outras ocasiões onde seria melhor não ser protegido.

    Farinatti, estava mesmo esperando pelo seu comentário. O comentário de alguém que não saiu da academia pela porta da frente, ciente e orgulhoso da sua decisão como o Charlles o fez. Ou como eu, que fui jogada pela janela. Lembro de uma reportagem onde um padre dizia que a igreja não reconheceria Jesus se voltasse (o que foi um escândalo), tamanha a forma como ela se institucionalizou. Acho que a academia sofre do mesmo mal, de se engessar e dificultar justamente a renovação que ela necessita. Mas dificultar não é a mesma coisa que impedir… tem muito trabalho bom por aí, tem que saber olhar.

  5. Caminhante
    de fato, a Universidade é uma instituição medieval. A ciência avança, mas a academia ainda tem muito do habitus feudalizante. Nesse ponto, é horrível.
    O interessante é que essa mesma conclusão que estou construindo é possível porque muito saber historiográfico foi produzido fora da academia, mas também dentro dela, através de uma decantação e criatividades metodológicas que ainda conseguem nascer ali.

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