Fracassos

O dia dos namorados é uma data deprimente para quem não está namorando. A publicidade não para de tocar nesse assunto, e à medida em que a data se aproxima, tudo se enche de corações, de casais aos beijos, de mensagens românticas. Aos que estão sozinhos, surgem conselhos e baladas especiais para arranjar um par. Mas essa busca desesperada por um par perto do dia 12 de junho não chega a enganar ninguém, porque arranjar alguém para beijar no dia não é a mesma coisa do que ser importante para alguém, do que estar namorando com alguém. E quando se enfrenta essa data sozinho, mais uma vez, aumentam as dúvidas sobre a possibilidade de encontrar realmente um amor verdadeiro.

“Sexta à noite e eu aqui, vendo TV”. Quando em casa, à noite, ver TV é o que a maioria das pessoas faz. Mas quando é sexta-feira à noite, vespera do fim de semana e dia em que quase todos podem se despreocupar com o horário do sono, isso se reveste de fracasso. Porque é o dia de ir à balada, de estar entre pessoas, beber, dançar e interagir com o sexo oposto. O momento mais esperado da semana, onde o dinheiro é gasto, onde os corpos produzidos trabalhosamente na academia são exibidos.

Entrevista de Abujamra com Sonia Hirsch

“O Ministério da Saúde é um grande ministério da doença, que detecta a doença até aonde não existe, pra promover campanhas”. Com essa provocação, Sonia Hirsch, jornalista especializada em saúde e alimentação relaciona a indústria farmacêutica com a má alimentação da população.

Segundo ela “a alimentação de hoje produz o doente de amanhã, e todo mundo fica feliz”. Por todo mundo, Sonia engloba tanto os médicos e suas clínicas, quanto a indústria farmacêutica e a publicidade: “a propaganda é inteiramente irresponsável, o governo é inteiramente irresponsável, não só com relação à propaganda, mas ao que está escrito no rótulo”.

“À medida que a indústria do Câncer foi crescendo, os exames de fezes foram decaindo”, com essa frase, Sonia critica a postura dos médicos de hoje, que aboliram essas medidas simples, na detecção das doenças, e passaram a se preocupar em diagnosticar o câncer.

Sua indignação em relação ao câncer levou sua pesquisa mais a fundo: “o câncer sempre me pareceu uma história mal contada, uma caixa preta que não tinha razão de ser”. Boa parte de suas pesquisas e publicações em seu site são relacionados a esse tema.

Mesmo com as críticas, a jornalista enfatiza: “a saúde é um direito de todos e um dever de todos”, cada um deve ser responsável por saber aquilo que é melhor para si. Para Sônia o Estado não conseguer cuidar de todos nós.

Veja aqui.

Blog da Sonia Hirsch. Site dos livros de Sonia Hirsch.

O desafio

Hoje é dia do desafio. Todo dia 25 de maio, as cidades são convidadas a conseguir o maior número de pessoas para realizar pelo menos 10 minutos de atividade física, seja ela qual for. Os SESCs costumam se envolver com essa campanha a promovem atividades físicas gratuitas o dia inteiro. De acordo com o site deles, o desafio de 2010 envolveu 20 países, representados em 3505 cidades. Mais do que uma competição entre cidades, o dia do desafio se propõe a estimular a prática de esportes, como forma de melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, que estão cada dia mais sedentários.

Mais sedentários, mais gordos, com mais problemas de saúde. A quantidade de campanhas, dicas, preocupações, especialistas, histórias de sucesso e publicações sobre o assunto demonstra o quanto é cada dia mais difícil se manter magro e saudável – termos que aparecem sinônimos mas não são. Há poucas décadas essa discussão não aparecia porque ser magro era o natural. Basta olhar fotos ou filmes mais antigos para perceber isso. Mesmo as pessoas consideradas gordas na época não o eram tanto assim, quando comparadas com os gordos de hoje. As pessoas não pensavam no assunto e não precisavam investir tanto esforço para se manterem magras.

O próprio estilo de vida das pessoas as mantinha assim. Além da nossa alimentação ser mais rápida, pobre e açucarada, a tecnologia nos cercou de conforto. Além dos grandes esforços que se deixou de fazer ao andar mais de carro e deixar de subir escadas, a tecnologia nos poupou de vários e pequenos esforços o dia inteiro: não é preciso lavar louça, não é preciso lavar a roupa e nem torcer, não é preciso sovar a massa de pão ou fazer qualquer tipo de massa, não é preciso fazer força para girar o volante ou abrir os vidros do carro, digitar não demanda a força que era necessária na máquina de escrever, basta apertar um botão para mudar de faixa ou canal. Quanto mais dinheiro se tem, menos esforço físico é preciso fazer para viver. Em outras palavras: esforço físico é coisa de pobre. A melhor crítica que vi a respeito da tecnologia do conforto foi no filme Wall-E (1:06):

Em contraste à tendência natural de engordar, nosso padrão de beleza está cada vez mais magro. Mas não a mesma magreza exibida pelas gerações anteriores, a magreza “natural”. A magreza que os padrões de beleza procuram nos impor é uma magreza “trabalhada”, de músculos definidos. Para chegar a ela, não basta resistir às guloseimas e comer alimentos mais saudáveis. Também não basta fugir do estilo de vida sedentário. É uma magreza buscada ativamente, que demonstra grande investimento no corpo – através de plásticas, alimentação rica em proteínas, uso de hormônio e muitas horas de academia. Especialmente nas mulheres, isso transparece em músculos hipertrofiados, fruto de muitas horas de academia.

Isso cria dois mundos separados, num onde o status está em tecnologia e comodidade, e outro onde a pessoa faz força tendo o corpo como único objetivo. A pessoa rica e bem empregada não fará, no ambiente de trabalho, mais esforço do que erguer mais do que uma pilha de papéis; na academia, ela levantará o maior peso que conseguir, repetidamente, só pra recolocará no lugar. Basta pensar que hoje em dia não há nada mais vergonhoso e constrangedor do que suar em público. Se acompanhado de cheiro, é causa de ostracismo. O ideal é nunca suar. Ver alguém suar, fora da academia ou do ambiente doméstico, é como partilhar de uma intimidade indesejada. Àqueles que têm tendência a suar muito, o mercado lhe oferece alternativas que vão desde desodorantes antitranspirantes fortes até operações.

Como apontou Elias, em contraste com o homem medieval que cuspia, suava, fedia, devolvia comida mastigada no prato e soltava todas as suas secreções em público, nos encaminhamos para uma civilização cada vez mais contida. É realmente um desafio cercar o mundo de comidas que engordam e se sentir obrigado a dizer não a elas, sob o risco de ficar fora dos padrões de beleza; buscar uma existência cada vez mais cômoda e sem esforço, mas valorizar o corpo musculoso e magro; existir, ser provido de corpo e sentimentos, e jamais deixar que eles transpirem em público.

O ofício do autor, João Ubaldo Ribeiro

Muitas coisas neste mundo não podem ser descritas, como sabem os que vivem da pena, azafamados entre vocabulários e livros alheios, na perseguição da palavra acertada, da frase mais eloquente, que lhes possam render páginas extras de prosa às custas de alguma maravilha ou portento que julguem do interesse dos leitores, assim aumentando sua produção e o pouco que lhes pagam. Recorrem a comparações, fazem metáforas, fabricam adjetivos, mas tudo acaba por soar pálido e murcho, aquela maravilha ou portento esmaecendo, perdendo a vida e a grandeza, que falta do bom verbo por mais bom não pode suprir, qual seja a de não se estar presente ao indescritível. Nas minudências da intriga e do enredo, amores dificultados, maldades contra inocentes, dilemas dilacerantes, azares do Destino, coincidências enganosas, surpresas bem urdidas, arroubos de paixão e tudo mais que constitui justa matéria dos romances e novelas, nisto sai-se ele menos mal, conforme sua destreza no ofício, sendo esses enredos e intrigas os mesmos desde que o mundo é mundo. Como, porém, descrever um cheiro?

João Ubaldo Ribeiro/ Viva o povo brasileiro

Uma opinião e uma história sobre arte

Os cânones artísticos estão continuamente mudando, mas na nossa época quase todas as formas de arte entraram na regra de não ter regra. É possível misturar várias referências, sem a necessidade de ser fiel a um estilo, local ou época. Não existe mais a preocupação de representar a realidade objetiva, que está cada vez mais fácil de ser capturada por celulares, filmes, videos caseiros. O artista tem liberdade total, de usar todas as formas, meios e materiais para dizer o que quer dizer. Isso, que à primeira vista parece tornar as coisas mais fáceis, levou a arte a outros desafios. Sem ter em nada pra se apoiar, cabe ao artista a decisão de cada etapa – terá nome, terá cor, terá rosto? O resultado imediato dessa aparente democracia é muita coisa que só precisa de cara de pau para se declarar arte. Coisas que não têm significado e que reivindicam um significado posterior; ou coisas que possuem apenas significado, cuja apresentação não diz absolutamente nada ao outro. Por isso muitos simplesmente desistiram de desfrutar da arte, de ir a exposições, e dizem que não entendem e não gostam. Ter feito parte dessa tentativa – a que muitos chamados de ser artista – me fez compreender que muita coisa é simplesmente ruim mesmo. Que chamar o público de burro não deixa de ser uma forma de se proteger. Pouca coisa do que está sendo produzida hoje conseguirá romper a barreira da bobagem e dirá alguma coisa ao futuro.

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O atelier funcionava de terça a sexta, em horário comercial. Por causa disso, a frequencia das pessoas era limitada àqueles que podiam pagar sem trabalhar o dia inteiro. Havia aposentados, donas de casa, pessoas que vínculos artísticos ou simplesmente recém-surtados sem saber o que fazer da vida (meu caso). Dentre essas pessoas com vários perfis, a que tinha mais dinheiro era uma senhora a quem chamarei de B.Michelin. O marido dela era muito rico, vivia viajando e a filha dele já era adulta. Sem maiores obrigações na vida, B. Michelin decidiu colocar a sua sensibilidade artística em objetos coloridos, femininos e de cores vibrantes, tais como ela mesma.
Ela não era muito boa na escultura propriamente dita, na realidade. Esculpir é um trabalho pesado. Ela não tinha noção de desenho ou de anatomia, e pra piorar tinha graves problemas de coluna. Havia, no atelier, um funcionário treinado pelo nosso professor durante anos. Esse funcionário conhecia todos os segredos da escultura e, por causa disso, fazia toda parte pesada das encomendas que nosso professor recebia. Foi o professor mesmo que nos disse, falando sobre a história da escultura, que os grandes escultores do passado não faziam tudo sozinhos. Que seria humanamente impossível produzir aqueles mármores maravilhosos da Antiguidade Clássica se não tivessem muitos escravos à disposição. Baseada nessas informações, B. Michelin se despreocupou com a parte pesada do trabalho. Ela idealizava peças e pagava o funcionário para fazer.
Um dia ela nos contou que havia contratado uma Crítica para avaliar o trabalho dela. Ela ia pagar quase mil reais (e isso foi há uns dez anos). Achamos que ela estava fazendo papel de trouxa. A Crítica foi no apartamento (no Batel, um apartamento por andar, 400m² de área privativa) de B.Michelin, e “gritava a cada peça”, achando tudo lindo e maravilhoso. Ela classificou o trabalho como Art Noveau Pop, informação essa que foi adotada para todo sempre. Dias depois, apareceu uma coluna de página inteira no Caderno de Cultura da Gazeta do Povo, descrevendo B. Michelin com a mais nova revelação artística da cidade. Quando B. Michelin participou de duas exposições de designers como destaque, uma com o prazo de inscrição já vencido, começamos a desconfiar que os trouxas éramos nós.
Na versão original desse texto, a história terminava contando que com a troca de governo essa Crítica acabou caindo, e o investimento de B. Michelin não alcançou todas as suas possibilidades. Mas aí pesquisei o site da artista, depois de tantos anos, e vi que ela tem participado de exposições em São Paulo, Londres e Nova York. Caro leitor, a trouxa sempre fui eu.

Calma, tá tudo bem agora

Há algumas semanas, eu assisti uma reportagem especial, não sei de qual emissora. Não importa, realmente, em que emissora foi, porque essas reportagens especiais seguem um roteiro muito parecido. Essa era sobre exploração sexual de crianças. Ele mostrava estrangeiros que vinham ao Brasil para dormir com as meninas, falava da pobreza, das drogas, das doenças, da infância abandonada e que algumas eram levadas pelos próprios pais a se prostituirem. Tinha imagens chocantes de meninas em boates, depoimentos dolorosos de crianças que mesmo antes de chegarem aos dezoito anos já tinham visto, vivido e sido exploradas de todas as maneiras. Uma reportagem de conteúdo pesado, que causava angústia ao nos colocar a par de um problema tão grande, que existe em todos os lugares e simplesmente não é visto.

Aí, no fim da reportagem, eles colocaram instituições exemplares que cuidam dessas meninas. Mostravam as pequenas X e Y, que pela primeira vez em muitos anos eram tratadas com dignidade e não viviam mais nas ruas. E assim, depois de todo mal estar, eles colocaram algo positivo para que os telespectadores não fossem dormir mal. Calma, tá tudo bem agora. Mas não está. Se for parar pra pensar, aquelas instituições não resolvem os problemas relativos à prostituição infantil: o número delas é insuficiente, o índice de recuperação é pequeno, os danos causados a essas crianças são muito grandes e quando falamos em perspectivas, são sempre perspectivas muito limitadas, de sair da prostituição para entrar na pobreza e no subemprego. A questão é que não paramos pra pensar, apenas nos sentimos aliviados. As reportagens que mostram a realidade nua e crua têm essa tendência, ou essa regra, de sempre terminarem bem, mostrando um problema e sua solução. Mesmo que seja uma solução muito insuficiente.

A ficção conhece há muito tempo e se utiliza do recurso de escolher bem como encerrar. Nas novelas, nos romances, os anos a fio de injustiça vividos pelos mocinhos são apagados no momento em que tudo acaba bem no final. Há obras que precisam ser totalmente repensadas, porque o final nos abre perspectivas novas para tudo o que havia acontecido antes. Lembro de filmes de terror, que não terminam nunca; eles nos oferecem um final feliz falso e logo depois plantam a dúvida – a mãozinha do assassino saindo da terra – que nada mais é do que um aviso de que haverá uma continuação. Existem as narrativas circulares, em que no fim da história nos vemos no começo, ou num recomeço. Na música, existem intervalos entre notas que dão a idéia de tensão, assim como existem os que dão idéia de finalização; tais intervalos dão colorido às frases. As músicas costumam ter um auge melódico pouco antes de acabar. Na dança, as coisas terminam em pose. Onde quer que se olhe, a maneira de terminar é uma comunicação com o público, que a partir dali deve reagir – com aplausos ou com silêncio.

Se a maneira de terminar indica que experiência o público deve levar, podemos concluir que o as reportagens chocantes nunca querem prolongar o desconforto que elas mesmas causaram. É um choque de mentirinha. O público deve ficar temporarimente abalado, mas que a TV não seja culpada de dores na consciência e insônia de ninguém. Após conhecer uma realidade difícil, que o espectador se tranquilize com a idéia de que alguém – que sem dúvida não é ele – já está providenciando solução para o problema. Se o sentimento de desconforto persistir, ele pode procurar a instituição que apareceu na reportagem e fazer uma doação.

O que aconteceria se as coisas fossem apresentadas sem solução? Se ao invés de mostrar instituições salvadoras, a reportagem terminasse com meninas que se prostituem desde a infância, usam drogas e não tem perspectiva para o futuro? Eu não sei. Quem estivesse vendo aquela reportagem ficaria angustiado, e teria que procurar sozinho uma maneira de digerir o que viu. Não há como prever que efeito teria- poderia ser totalmente inócuo, ou o espectador poderia encontrar uma solução muito mais interessante do que normalmente se propõe. Eu acho que o inesperado, não oferecer soluções fáceis, é uma experiência muito mais adulta e que vale a pena ser testada.

Blogagem coletiva em apoio à Fundação Dorina Nowill

Quando li sobre essa postagem coletiva, o nome da fundação me soou imediatamente familiar. Me lembro de ter procurado esse nome do google para escrever corretamente. Isso porque um dos meus primeiros entrevistados – e o primeiro a aparecer no livro, que está em ordem decrescente da quantidade tempo em que está cego – foi para lá em busca de ajuda. Porque ele ficou cego de repente e aqui em Curitiba não havia onde procurar ajuda. Sua família tinha condições financeiras para lhe oferecer o melhor, por isso ele foi até São Paulo, para a Fundação Dorina Nowill, para aprender a se readaptar.

Isso foi há muito tempo, e hoje o nosso Institudo dos Cegos tem como oferecer apoio à essas pessoas. E existe também a Associação dos Deficientes Visuais do Paraná. A Biblioteca Pública do Paraná possui um grande acervo em braille e audio-livros, grande parte dele feito com a ajuda de voluntários. Pela sua história e qualidade, o instituto Dorina Nowill continua como referência a todos aqueles que sofrem com a deficiência visual – o que inclui cegos, pessoas com visão residual, amigos, familiares e educadores. Como a pesquisa que fiz sobre o assunto me levou a perceber, as pessoas tendem a olhar a questão da cegueira de maneira esteriotipada. O cego é visto como um coitado, que quando muito precisa de educação especial. A cegueira é apenas uma parte da vida dessas pessoas. Os cegos querem comida, diversão e arte – eles querem a mesma coisa que eu e você.

Pra ajudar as pessoas a lembrarem dessa questão, estamos fazendo essa blogagem coletiva. Você, blogueiro, pode fazer um post onde conste o endereço da Fundação Dorina Nowill e avisar aqui. Outra forma de participar é clicar em um dos links que coloquei ao longo do texto, ou quem sabe procurar entidades que trabalhem com cegos no seu estado e fazer uma doação. Existem muitas formas de doar: pode ser tempo, dinheiro ou solidariedade.

A conversão do diabo

Quem não ama o bem?

É assim que Leonidas Andreif começa um dos melhores contos que eu já li, que marcaram a minha vida: A conversão do diabo. Fui à minha estante, à procura dele, e não o achava entre os contos de Maupassant. Porque o conto é cheio da ironia, o pessimismo e a desilusão que consideramos as marcas de Maupassant. Nunca li, ao que eu saiba, qualquer outra coisa de Andreif. Caso A conversão do diabo seja um daqueles casos únicos de um autor que não produziu mais nada, já terá valido a pena. É uma reflexão dura e, de certa forma, um tapa na cara de todos aqueles que buscam o aprimoramento pessoal. Para Andreif, o esforço consciente para se tornar bom é algo que não chega a lugar nenhum.

Uma vez, um diabo, já entrado em anos e a quem tinham apelidado, no inferno, de Narigão, sentiu, inesperadamente, certa inclinação à virtude. Entregara-se na sua mocidade, como todos os diabos, a insignificantes proezas diabólicas, mas, com a idade, já um tanto cansado do seu oficio, tornara-se comedido.
Embora gozasse de ótima saúde, os excessos juvenis quebraram-lhe um pouco as forças e ele não sentia entusiasmo algum pelas tolices da mocidade. Cada vez sentia mais acentuada propensão para a ordem (virtude esta muito comum entre os diabos); dotado de espírito firme e esclarecido, embora um tanto metafísico, gostava de filosofar.
Acabou por perder a fé na perfeição do inferno e nos costumes diabólicos.Enfadava-se principalmente nos dias festivos, quando não tinha nenhuma tarefa a desempenhar e não sabia como matar o tempo, tanto mais que era celibatário.
Para lutar contra essa situação que tanto lhe perturbava o espirito, entregou-se ao trabalho, mudando várias vezes de ofício.
De inicio, instalou-se como diabo tentador em uma igrejinha católica de Florença.
Ali, segundo suas próprias palavras, saboreou pela primeira vez o repouso de espirito.
Ali, também principiou sua conversão.

E assim somos nós, eu e você, depois que passamos de uma certa idade. Alguns já nasceram meio velhos, outros demoram mais. De qualquer maneira, todo mundo passa por uma fase de em que basta haver sexo oposto, alcool e música pra tudo ser divertido. Como se tivesse um botão escrito FUN e bastasse apertá-lo. Porque às vezes as condições são muito ruins – caronas desconfortáveis, péssimas acomodações para dormir, pouca comida – e mesmo assim tudo parece muito divertido, tudo vale a pena. Até que um dia os pobres diabos começam a se sentir exaustos antes mesmo da diversão começar. Pensam em como estará na segunda-feira, nas contas a pagar e esse processo de prestar atenção em detalhes faz com que a magia se perca. Talvez seja por causa do corpo, e sua curva descendente. Ou talvez o ser humano realmente aprenda alguma coisa com o tempo.

– Tu és um verdadeiro sábio nas questões religiosas! Realmente! – Por ventura as estudastes?
– Um pouco, respondeu modestamente o diabo. Apesar dessa modéstia, conservava sua dignidade; não se humilhava, nem demonstrava demasiada afetação.
Via-se logo que era um diabo sério, ponderado e judicioso. Não se orgulhava de seus conhecimentos, e por isso agradava ainda mais o velho sacerdote.
– Afinal – perguntou-lhe o padre – o que desejas?
Então o diabo caiu de joelhos, exclamando:
– Ensine-me, meu padre, a praticar a virtude. Sinto grande desejo disso. Eu não posso viver sem praticar a virtude, porém não sei como fazê-lo. Quanto ao Satanás e a todos os místeres diabólicos, renuncio a eles para sempre.
E, com o fito de confirmar suas palavras, o diabo cuspiu desdenhosamente três vezes seguidas.

A história é divertidíssima. Quero muito que vocês passem no link completo do conto e comprovem o que estou dizendo. Uma pequena amostra, só pra animar vocês:

– E o que quer dizer esta camisa nova? Ganhaste-a de presente?
– Qual! Comprei-a para dar ao primeiro que ma pedisse. Durante quinze dias estive passeando pela cidade, entre os pobres. Pediram-me tudo o que o senhor possa imaginar, menos a camisa. Provavelmente ignoram o caminho do bem.

O padre é um homem simples e bondoso, o diabo culto e disciplinado, e a procura do bem se revela um desafio para os dois. O padre é bom instintivamente, e não consegue transmitir isso. O diabo não consegue sentir o que é o bem, não consegue decidir o que fazer diante das situações; ele não pode contar com o que tem dentro de si. A cultura e todas as escrituras se mostram inúteis para o diabo, porque elas são contraditórias e não esclarecem sobre O Bem no dia a dia. Quanto mais eles buscam, mais O Bem parece fugir deles. Nesse esforço, o diabo comete erros maiores do que do os que quando era apenas mais um diabo.

Como não lembrar de fundamentalistas religiosos? Pessoas que interpretam livros sagrados ao pé da letra e esquecem que o preceito mais importante é o do amor e da tolerância. Ao invés de ser um instrumento de união, instituições religiosas dividam o mundo entre nós x eles, sendo que eles merecem todo sofrimento porque pensam/agem diferente. Mas a acusação de não saber o que é o bem não cabe apenas a fundamentalistas ou pessoas radicais. Todos estamos continuamente buscando um bem que não sabemos direito o que é, e nessa tentativa nos cremos melhores do que realmente somos. Na tentativa de acabar com um defeito, frequentemente apenas trocamos um pelo outro, quando muito. Para Andreif, somos todos diabos arrependidos, desejando princípios sem conhecê-los, patéticos e bem intencionados.

Talento

Ah, o talento! Questão que atormenta todos os que se dedicam a uma arte. Quem não se sentiu um pouquinho que seja como Salieri, o invejoso personagem de Amadeus, ao ver alguém fazer melhor e com mais facilidade alguma coisa que você ama? Existem muitas discussões sobre o talento ser algo que o indivíduo carrega puro dentro de si, ou se é conquistado. Sobre o que ninguém tem dúvida, é que o talento existe. E ele possui algumas características, que tentarei desvendar.

 

(Eu deveria ter colocado exemplos de várias expressões artísticas, mas acabei privilegiando a dança. Além de ser a forma de arte na qual estou mais envolvida, achei que ficou mais interessante assistir videos do que clicar em fotos)

Talento é diferente de técnica

… mas se beneficia com ela. É importante ressaltar isso porque já vi mais de uma pessoa que faz questão de não estudar, de não ler sobre o assunto, não ver o que os melhores da sua área fizeram com medo de que isso estrague a pureza do seu talento. Nada mais errado. De nada adianta ter uma certa facilidade e não aprimorá-la. Sem a técnica, a arte se enche de ruído, de equivocos, de coisas que precisam ser relevadas pelo expectador. Quando há muitos erros em torno, o talento fica misturado em meio às imperfeições. Um talento verdadeiro encontra na técnica um instrumento de ajuda. A perfeição técnica permite alcançar a liberdade; a única preocupação, depois disso, é conseguir se expressar.

 

 

Escolhi um video do Baryshnikov porque ele é muito técnico, com eixo e acabamentos incríveis (oito giros seguidos e termina com perfeição todas as vezes), mas também um grande intérprete. No final do video mostra dois bailarinos que estavam no palco, fazendo figuração, impressionados com o espetáculo. Mas Baryshnikov também é muito expressivo, passa uma força e masculinidade no palco que dá vontade de… ir abraçá-lo. Ele tem apenas 1,68, o que para um bailarino é uma desvantagem. Nos pas de deux, o bailarino deve ser pelo menos na altura da bailarina, que fica cerca de 10 cm maior nas pontas. Mas técnico e talentoso desse jeito, não tinha como não colocar Baryshnikov como primeiro bailarino.

Talento pode ser perdido ou estragado

Infelizmente. Talento não é algo tão abstrato assim. Ele não está imune à exagero de sexo, drogas e rock´n roll. Ele é sensível a separações, crises existenciais, tragédias pessoais. Nem todos que são talentosos quando criança conseguem crescer e se manter à altura. O talento pode sumir, pode voltar, pode nunca mais voltar. Algumas vezes o talento parece ser só um momento, como aquelas bandas de apenas um sucesso. Dá pra considerar perda de talento quando o artista vive de um sucesso passado, uma fórmula que um dia funcionou e agora é apenas repetição. De certa forma, esperamos que o artista sempre se renove, pesquise, mantenha um olhar diferente sobre o mundo e nos comunique.

Escolhi Camille Claudel por ser um dos artistas que mais me toca. Sua história trágica, cuja culpa muitos atribuem (injustamente) apenas a Rodin, tornou Camille uma dessas artistas famosas por reforçarem a idéia de artista como incompreendido. A força dessa história nos a duvidar do seu talento, se ela não é famosa apenas por causa da biografia. Mas quando olhamos os trabalhos de Camille Claudel, é impossível não se sentir comovido. Um dos meus sonhos é poder ver as peças dela pessoalmente. Nunca canso de olhar para esta peça, La Valse – a maneira como a mulher foge e se entrega, como o homem a puxa para si com força e delicadeza, o movimento envolvente de ambos. É uma pena pensar que alguém com um talento desses não encontrou todas as possibilidades que podia e que sucumbiu à própria doença.

Talento é pessoal e intransferível

Imitar alguém talentoso ou ser filho de alguém talentoso não nos torna talentosos; às vezes nem ao menos uma inspiração é possível. Em outras palavras, é como se cada obra tivesse uma personalidade, e a personalidade dos talentosos fosse inconfundível. Você pode não gostar, você pode até mesmo achar horrível e dizer que não é arte, mas você nunca será indiferente. Dentre tantas coisas que existem no campo artístico, todas tentando seu espaço e querendo dizer algo novo, a capacidade de ser inconfundível é um grande mérito. O olhar, o gesto, a forma de tratar um tema, de certa forma, nascem e morrem com a mesma pessoa.

Eu vi o quadro Jardim das Delícias de perto. Passei o dia inteiro no Museo del Prado, fiquei umas seis horas lá dentro. Saí zonza. Com o tempo, tudo vai ficando bastante parecido – óleos bem feitos, detalhes, anjos, naturezas mortas, etc. Até que eu entrei numa sala e uma tela amarela brilhava no meio dela. Me senti renovada na vontade de olhar. Era ele, o Jardim das Delícias. Com meus poucos conhecimentos de pintura, tentei analisar a estrutura do quadro, o que era centro, que recursos usou, quais as simetrias, e o quadro resistiu à tudo. Tudo nele é único. Não precisa de muito pra olhar um Bosch e saber que é um Bosch.


Talento se revela nos primeiros segundos

É como se o encanto chegasse antes mesmo da obra. Enquanto o comum precisa de muito tempo, de muita análise e que prestem atenção na dificuldade do que ele faz e no valor da proposta, o trabalho cheio de talento agrada de primeira. Ele nem ao menos precisa que o público saiba o que ele fez, tecnicamente falando. É um trabalho que agrada, que toca, que mexe com alguma coisa, mesmo que não saibamos explicar o que aconteceu.

 

Eu já vi esse video do Antonio Gades tantas vezes que já perdi a conta e verei outras tantas ao longo da minha vida. Não dura nem dois minutos. Começa com ele erguendo os braços, uma coisa tão simples que qualquer um pode imitar. Mas não com a mesma solenidade que ele. A gente o vê erguendo os braços e fica na expectativa. Existe tanta personalidade nesse gesto que ele nada tem de banal. E quando Gades começa a dançar, ele faz o que quer com a nossa atenção. Nos perdemos quando ele é rápido, ficamos hipnotizados com a precisão dos braços, um simples mover de mão parece importante.


Talento se impõe

É sempre a mesma briga: pelos melhores papéis, pelo melhor lugar no palco, pela melhor coreografia, por mais tempo no video, pelo melhor lugar da galeria. Porque existem essas divisões, coisas estratégicas que aumentam a visibilidade. Ao mesmo tempo, todos sabem que isso, por si só, não garante nada. Fazendo uma ponta, falando pouco ou nada, num cantinho, alguém com talento é capaz de se destacar. Por mais simples que seja o tema, o gesto, a proposta, uma pessoa de talento fará aquilo com uma qualidade, com uma personalidade, que chamará atenção. Ou o contrário – fará algo complicado parecer muito simples, tamanho o apuro no que faz.

 

 

Muita gente não gosta de ópera. Pra essas pessoas, é um dramalhão exagerado, comprido, com atores gritando no palco. Mesmo que você seja um desses, dê play neste video. É Maria Callas cantando Carmen. Mesmo quem não sabe o enredo da ópera, e não faça a menor idéia de quem é Maria Callas, que tipo de voz ou amplitude vocal ela tem, do porquê ela ser considerada uma das grandes, é capaz de perceber que ela é ótima. A gente ouve Callas cantar e se sente interessado, comovido. Isso é talento.

Talento é surpreendente

O talento renova. E pode renovar de duas maneiras diferentes, até mesmo opostas: uma, pela capacidade de fazer algo que ninguém jamais teria pensado. É o caso das rupturas artísticas radicais, nos novos movimento, novos temas e novas cores. Outra maneira de surpreender é dentro das próprias convenções, renovando-as. O talentoso olha para o que todos conhecem e consegue extrair um sentimento novo. Algo que era engessado, apenas uma convenção, consegue voltar ao princípio e transmitir o mesmo da primeira vez.

 

Este video virou febre na internet. Eu acompanho o programa e vi no dia em que foi passado. As razões do sucesso dele não são difíceis de entender, o video é um conto de fadas moderno: o rapaz pobre é desacreditado pelas pessoas, mas ele se mostra tão talentoso que todos são obrigados a se render diante de sua grandeza. Quando vi o John Lennon dançando, não fiquei plenamente convencida. Achei que foi um golpe de sorte, que ele só sabe fazer braço de cisne e nunca mais apresentaria algo tão bom. Depois vi ele dançando outras coreografias, nas outras etapas do programa, e me rendi. Ele tem muito talento sim e tem a capacidade de renovar o que quer que ele se proponha a dançar.

Reflexões sobre padecer no paraíso

Mulher, sexualidade e maternidade sempre parecem estar ligadas. Não podemos dizer o mesmo sobre homem, sexualidade e paternidade. O homem é muito a sua sexualidade, o tamanho do seu pênis, a frequencia com que faz sexo, com que quantidade de mulheres e todas outras demonstrações de virilidade. A idéia de paternidade é mais distante. Nunca vi oferecerem, à adolescente que engravida, a possibilidade do pai ficar com a criança enquanto ela cuida da sua vida. O filho está ligado a mãe por laços indubitáveis, enquanto sobre a paternidade pode pairar eterna dúvida (até que seja feito um exame de DNA). Alguns homens podem se irritar e procurar demonstrar o valor e a importância do amor paterno – mas a verdade é que muitos, e durante gerações, têm se sentido muito bem com a possibilidade de não estar presente que o papel oferece.

A sexualidade feminina, sempre se viu contaminada (e porque não dizer, aprisionada) pela idéia de maternidade. Apesar da maternidade ser fruto do sexo, é como se para as mulheres houvesse um antagonismo. De um lado a maternidade, com uma idéia de pureza, sacrifício, amor e dedicação. Um estado que transforma a mulher em algo superior, que a torna mais importante do que uma mulher comum. De outro o sexo, que na mulher é sujo quando excessivo, escancarado, com muitos parceiros. A mulher que dorme com muitos é uma puta, e ser filho de uma é a pior ofensa que se pode sofrer. Num ideal, a maternidade seria um fim em si, sem que pra isso a mulher desfrutasse do sexo. Penso nisso quando vejo o quanto o comportamento comedido é desejável e educado nas mulheres, e que a palavra pudor quase sempre se refere a isso; no extremo, isso se materializaria no costume de alguns povos de extirparem o clitoris. Em uma ponta, existe a mulher que sente prazer e dorme com muitos, e na outra o ideal de mulher como mãe que gera sem sexo, a Virgem Maria.

O imaginário sobre a maternidade é dominado por duas palavras bastante fortes: obrigação e amor. Em primeiro lugar, pela própria obrigação de amar. Assume-se que desde o instante que a mulher sabe que será mãe, ela sinta amor, que se não for instantaneo ao menos deve ser crescente. Esse amor serve para tornar suave todas as outros obrigações, que são muitas, mas que podem ser resumidas em uma frase: cuidar do bem estar da prole de maneira absoluta, em todos os níveis e durante toda a sua vida. Pouca coisa, não?

Por ser uma obrigação muito grande e muito forte, sempre surgem casos de mulheres que não conseguer estar à altura disso. Um exemplo que sempre me chama atenção é a comoção quando encontram bebês abandonados. Sustentar uma gravidez, ter um bebê nos braços e ser capaz de deixá-lo num lugar qualquer nos parece de uma maldade sem limites. Eu me pergunto se essa mulher não teria feito um aborto se pudesse. Na medida em que a irresponsabilidade de uma relação sexual desprotegida recai toda sobre à mulher, em que dizemos que interromper uma gravidez é a mesma coisa que um assassinato, em que ela é obrigada a amar, cuidar e se sacrificar pelo resto da vida depois de ter tido aquela relação sexual lá atrás, as mulheres são colocadas numa situação muito difícil. Acredito que as mulheres que fazem isso estejam tentando apagar o passado, ter a mesma vida que teriam se não tivessem sido mães. Coisa simples, se elas não fossem mulheres. O gesto de abandonar um bebê não necessariamente é monstruoso, pode ser apenas desesperado.

Por fim, eu quero encerrar com uma cena da primeira temporada série Desperate Housewifes. Nela, a perfeccionista Bree Van de Kamp está no terapeuta e começa a falar de Freud. Ela diz que Freud era um filho ingrato e deve ter causado muito desgosto à mãe dele. Como era possível ele ter falado aquelas coisas horríveis de quem cuidou das roupas dele, fez comida, limpou a casa e o alimentou durante boa parte da vida. Ainda mais naquela época, com pouca tecnologia, em que tudo era tão difícil e precisava ser feito à mão. Até o terapeuta se sensibilizou. Se às mães cabe a culpa de tantos traumas, é porque elas se fazem presente demais. Quem faz muito erra muito. Se um imaginário tão exigente persiste, é porque as mulheres têm feito de tudo para alcançarem a perfeição.