Reflexões sobre padecer no paraíso

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Mulher, sexualidade e maternidade sempre parecem estar ligadas. Não podemos dizer o mesmo sobre homem, sexualidade e paternidade. O homem é muito a sua sexualidade, o tamanho do seu pênis, a frequencia com que faz sexo, com que quantidade de mulheres e todas outras demonstrações de virilidade. A idéia de paternidade é mais distante. Nunca vi oferecerem, à adolescente que engravida, a possibilidade do pai ficar com a criança enquanto ela cuida da sua vida. O filho está ligado a mãe por laços indubitáveis, enquanto sobre a paternidade pode pairar eterna dúvida (até que seja feito um exame de DNA). Alguns homens podem se irritar e procurar demonstrar o valor e a importância do amor paterno – mas a verdade é que muitos, e durante gerações, têm se sentido muito bem com a possibilidade de não estar presente que o papel oferece.

A sexualidade feminina, sempre se viu contaminada (e porque não dizer, aprisionada) pela idéia de maternidade. Apesar da maternidade ser fruto do sexo, é como se para as mulheres houvesse um antagonismo. De um lado a maternidade, com uma idéia de pureza, sacrifício, amor e dedicação. Um estado que transforma a mulher em algo superior, que a torna mais importante do que uma mulher comum. De outro o sexo, que na mulher é sujo quando excessivo, escancarado, com muitos parceiros. A mulher que dorme com muitos é uma puta, e ser filho de uma é a pior ofensa que se pode sofrer. Num ideal, a maternidade seria um fim em si, sem que pra isso a mulher desfrutasse do sexo. Penso nisso quando vejo o quanto o comportamento comedido é desejável e educado nas mulheres, e que a palavra pudor quase sempre se refere a isso; no extremo, isso se materializaria no costume de alguns povos de extirparem o clitoris. Em uma ponta, existe a mulher que sente prazer e dorme com muitos, e na outra o ideal de mulher como mãe que gera sem sexo, a Virgem Maria.

O imaginário sobre a maternidade é dominado por duas palavras bastante fortes: obrigação e amor. Em primeiro lugar, pela própria obrigação de amar. Assume-se que desde o instante que a mulher sabe que será mãe, ela sinta amor, que se não for instantaneo ao menos deve ser crescente. Esse amor serve para tornar suave todas as outros obrigações, que são muitas, mas que podem ser resumidas em uma frase: cuidar do bem estar da prole de maneira absoluta, em todos os níveis e durante toda a sua vida. Pouca coisa, não?

Por ser uma obrigação muito grande e muito forte, sempre surgem casos de mulheres que não conseguer estar à altura disso. Um exemplo que sempre me chama atenção é a comoção quando encontram bebês abandonados. Sustentar uma gravidez, ter um bebê nos braços e ser capaz de deixá-lo num lugar qualquer nos parece de uma maldade sem limites. Eu me pergunto se essa mulher não teria feito um aborto se pudesse. Na medida em que a irresponsabilidade de uma relação sexual desprotegida recai toda sobre à mulher, em que dizemos que interromper uma gravidez é a mesma coisa que um assassinato, em que ela é obrigada a amar, cuidar e se sacrificar pelo resto da vida depois de ter tido aquela relação sexual lá atrás, as mulheres são colocadas numa situação muito difícil. Acredito que as mulheres que fazem isso estejam tentando apagar o passado, ter a mesma vida que teriam se não tivessem sido mães. Coisa simples, se elas não fossem mulheres. O gesto de abandonar um bebê não necessariamente é monstruoso, pode ser apenas desesperado.

Por fim, eu quero encerrar com uma cena da primeira temporada série Desperate Housewifes. Nela, a perfeccionista Bree Van de Kamp está no terapeuta e começa a falar de Freud. Ela diz que Freud era um filho ingrato e deve ter causado muito desgosto à mãe dele. Como era possível ele ter falado aquelas coisas horríveis de quem cuidou das roupas dele, fez comida, limpou a casa e o alimentou durante boa parte da vida. Ainda mais naquela época, com pouca tecnologia, em que tudo era tão difícil e precisava ser feito à mão. Até o terapeuta se sensibilizou. Se às mães cabe a culpa de tantos traumas, é porque elas se fazem presente demais. Quem faz muito erra muito. Se um imaginário tão exigente persiste, é porque as mulheres têm feito de tudo para alcançarem a perfeição.

6 comentários em “Reflexões sobre padecer no paraíso”

  1. Às vezes eu acho que a grande barreira entre eu e os outros é uma simples questão geográfica. Morar numa cidade pequena e ser um pai presente, duas situações que me definem, descarta parte das preocupações do seu texto. Eu passo horas com a minha família, mais do que fico trabalhando. Isso seria impossível numa cidade grande. É tão banal essa observação que indigna as reflexões sociológicas de peso. Mas minha esposa não fica sobrecarregada. Isso deveria ser a discussão principal do casal que pensa em ter filho. Se gostam, se se comprometem, se podem sacrificar uma renda familiar que de outro modo seria aumentada e destinada para benefícios apenas do homem e da mulher. O casal deve pensar em termos de conciliar a vida profissional com uma nova _ e grande_ disposição de tempo para ficar com os filhos.

    Involuntariamente planejei isso a vida toda antes de ter filhos. A distância ocasional e as exigências de uma vida urbana reascendem essas suas preocupações. A sociedade moderna baumaniana é de muita sabido que acaba com a instituição da família. Não sou o cara mais feliz do planeta nem tenho a família mais bonita. Mas a mais simples e auto-disposta.

  2. Obrigada, Betanegan. Gostei do teu poder de síntese!

    Charlles, você é apaixonado pelos teus filhos e é isso que te faz ficar perto deles. A questão geográfica apenas te ajuda. Caso você não quisesse ser um bom pai, nem uma cidade pequena te impediria. Você poderia morar na mesma rua que eles, todos saberem dos laços que os unem, e ainda assim não fazer nenhum movimento para ver os filhos. As pessoas achariam feio, mas isso não te impediria de ter amigos. Eu conheço casos assim e você deve conhecer também. O amor de pai, para os homens, é sempre uma escolha.

  3. É, é verdade. Sou quase um pai gay. Passeio com a minha filha todas as manhãs na praça, e sei que isso provoca uma certa pequena celeuma da parte dos outros homens, o que equivale a dizer que isso é uma obrigação das mães. Talvez por ser um dos únicos tópicos da minha vida que é perfeitamente resolvido, tenho uma visão ingênua sobre o assunto. Mas o sossego relativo de uma cidade pequena tem muito a ver para quem gosta de ser pai, como eu. Eu sentia uma falta tremenda da minha mãe quando era criança, pois era a universidade e o emprego dela, e os ônibus e as obrigações de horários. Não vejo isso com a mesma carga de gravidade por aqui. As mães saem dos serviços para amamentarem seus bebês, basta dobrar um quarteirão.

  4. Muito bom o texto, e ainda acrescento um item: A obrigação de ser mãe, se você é mulher e não tem filhos ou não pretende tê-los, é vista como um ser sem “coração”, que não quer ter a maior dádiva dos céus, etc. De uma forma ou de outra, sempre carregamos alguma culpa. Parabéns pelo texto.

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