A conversão do diabo

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Quem não ama o bem?

É assim que Leonidas Andreif começa um dos melhores contos que eu já li, que marcaram a minha vida: A conversão do diabo. Fui à minha estante, à procura dele, e não o achava entre os contos de Maupassant. Porque o conto é cheio da ironia, o pessimismo e a desilusão que consideramos as marcas de Maupassant. Nunca li, ao que eu saiba, qualquer outra coisa de Andreif. Caso A conversão do diabo seja um daqueles casos únicos de um autor que não produziu mais nada, já terá valido a pena. É uma reflexão dura e, de certa forma, um tapa na cara de todos aqueles que buscam o aprimoramento pessoal. Para Andreif, o esforço consciente para se tornar bom é algo que não chega a lugar nenhum.

Uma vez, um diabo, já entrado em anos e a quem tinham apelidado, no inferno, de Narigão, sentiu, inesperadamente, certa inclinação à virtude. Entregara-se na sua mocidade, como todos os diabos, a insignificantes proezas diabólicas, mas, com a idade, já um tanto cansado do seu oficio, tornara-se comedido.
Embora gozasse de ótima saúde, os excessos juvenis quebraram-lhe um pouco as forças e ele não sentia entusiasmo algum pelas tolices da mocidade. Cada vez sentia mais acentuada propensão para a ordem (virtude esta muito comum entre os diabos); dotado de espírito firme e esclarecido, embora um tanto metafísico, gostava de filosofar.
Acabou por perder a fé na perfeição do inferno e nos costumes diabólicos.Enfadava-se principalmente nos dias festivos, quando não tinha nenhuma tarefa a desempenhar e não sabia como matar o tempo, tanto mais que era celibatário.
Para lutar contra essa situação que tanto lhe perturbava o espirito, entregou-se ao trabalho, mudando várias vezes de ofício.
De inicio, instalou-se como diabo tentador em uma igrejinha católica de Florença.
Ali, segundo suas próprias palavras, saboreou pela primeira vez o repouso de espirito.
Ali, também principiou sua conversão.

E assim somos nós, eu e você, depois que passamos de uma certa idade. Alguns já nasceram meio velhos, outros demoram mais. De qualquer maneira, todo mundo passa por uma fase de em que basta haver sexo oposto, alcool e música pra tudo ser divertido. Como se tivesse um botão escrito FUN e bastasse apertá-lo. Porque às vezes as condições são muito ruins – caronas desconfortáveis, péssimas acomodações para dormir, pouca comida – e mesmo assim tudo parece muito divertido, tudo vale a pena. Até que um dia os pobres diabos começam a se sentir exaustos antes mesmo da diversão começar. Pensam em como estará na segunda-feira, nas contas a pagar e esse processo de prestar atenção em detalhes faz com que a magia se perca. Talvez seja por causa do corpo, e sua curva descendente. Ou talvez o ser humano realmente aprenda alguma coisa com o tempo.

– Tu és um verdadeiro sábio nas questões religiosas! Realmente! – Por ventura as estudastes?
– Um pouco, respondeu modestamente o diabo. Apesar dessa modéstia, conservava sua dignidade; não se humilhava, nem demonstrava demasiada afetação.
Via-se logo que era um diabo sério, ponderado e judicioso. Não se orgulhava de seus conhecimentos, e por isso agradava ainda mais o velho sacerdote.
– Afinal – perguntou-lhe o padre – o que desejas?
Então o diabo caiu de joelhos, exclamando:
– Ensine-me, meu padre, a praticar a virtude. Sinto grande desejo disso. Eu não posso viver sem praticar a virtude, porém não sei como fazê-lo. Quanto ao Satanás e a todos os místeres diabólicos, renuncio a eles para sempre.
E, com o fito de confirmar suas palavras, o diabo cuspiu desdenhosamente três vezes seguidas.

A história é divertidíssima. Quero muito que vocês passem no link completo do conto e comprovem o que estou dizendo. Uma pequena amostra, só pra animar vocês:

– E o que quer dizer esta camisa nova? Ganhaste-a de presente?
– Qual! Comprei-a para dar ao primeiro que ma pedisse. Durante quinze dias estive passeando pela cidade, entre os pobres. Pediram-me tudo o que o senhor possa imaginar, menos a camisa. Provavelmente ignoram o caminho do bem.

O padre é um homem simples e bondoso, o diabo culto e disciplinado, e a procura do bem se revela um desafio para os dois. O padre é bom instintivamente, e não consegue transmitir isso. O diabo não consegue sentir o que é o bem, não consegue decidir o que fazer diante das situações; ele não pode contar com o que tem dentro de si. A cultura e todas as escrituras se mostram inúteis para o diabo, porque elas são contraditórias e não esclarecem sobre O Bem no dia a dia. Quanto mais eles buscam, mais O Bem parece fugir deles. Nesse esforço, o diabo comete erros maiores do que do os que quando era apenas mais um diabo.

Como não lembrar de fundamentalistas religiosos? Pessoas que interpretam livros sagrados ao pé da letra e esquecem que o preceito mais importante é o do amor e da tolerância. Ao invés de ser um instrumento de união, instituições religiosas dividam o mundo entre nós x eles, sendo que eles merecem todo sofrimento porque pensam/agem diferente. Mas a acusação de não saber o que é o bem não cabe apenas a fundamentalistas ou pessoas radicais. Todos estamos continuamente buscando um bem que não sabemos direito o que é, e nessa tentativa nos cremos melhores do que realmente somos. Na tentativa de acabar com um defeito, frequentemente apenas trocamos um pelo outro, quando muito. Para Andreif, somos todos diabos arrependidos, desejando princípios sem conhecê-los, patéticos e bem intencionados.

5 thoughts on “A conversão do diabo

  1. Um ex-diabo disse…

    GAIA
    by Ramiro Conceição

    No imaginário Norte: brancos cabelos à sorte.
    No imaginário Sul: silêncios brancos do azul.
    Entre os pés e a cabeça: sonhos e florestas
    de flores amarelas, vermelhas – e tão azuis…

    Entre Norte — Sul o admirável sucedeu:
    conquistas, assassínios e o Amor de Deus.
    Entre o céu e a terra uma história nasceu:
    aquela em que os deuses são filhos, seus!

    A Pérola Azul, uma lágrima Divina,
    gira o Ocidente ao Oriente ao Ocidente
    com dois Corações Castanhos em si…

    Aquele à direita – é a África bendita!
    Violentada pela ganância branca e vil.
    O Indígena à esquerda ferido – é o Brasil!

    SEMEADOR
    by Ramiro Conceição

    A Arte são os degraus alados
    desse Mar de fadas e de fados.
    O artista…?
    Ora, é o semeador de escadas
    entre estrelas e a Terra amada.

  2. Não entendi a parte de procurar esse conto entre os de Maupassant?

    Este texto tem relação com o de seu outro blog, que fala que os hábitos identificam melhor a similitude emocional do que os gostos (prova disso somos minha esposa e eu, absolutamente opostos em tudo _ ela odeia Mingus, ou TOLERA, e eu não sou muito de conversar). A maturidade é uma excelente coisa. A busca desenfreada pela diversão na adolescência, deus do céu, eu participei disso, caronas desconfortáveis, e hoje acho lamentável que aos jovens não existam muitos caminhos diferentes deste rito de passagem para a maturidade, no caso de conseguirem sobreviver.

    Gosto muito de contos sobre demônios. Há ótimos contos desse gênero escritos por Alberto Moravia e Isaac Bashevis Singer. Mas, muito parecido com o de seu post, é um de Herman Hesse, que há muito que li e não recordo o nome. Um dos demônios menores de uma turma que assediam barbaramente as noites de um heremita do deserto, simpatiza-se pela vida de devoção do velho, e se enfuna também em uma caverna afim de dedicar sua vida a deus. Um conto belíssimo, que serve a percebermos o quanto a apreensão da possibilidade de deus está muito além dos dogmas e escrituras religiosas. Palavras da salvação!

  3. Tem razão, Charlles, não expliquei direito essa parte de procurar entre os Maupassant. Dos inúmeros livros que recebi de herança, tinha dois de capa dura igual. Um chama Contos, que era só de contos de Maupassant; o outro era “A marcha do espírito”, uma coletânea de contos que eu mantinha apenas por causa da Conversão. Pois bem, na hora de escrever este post foi lá procurar o conto e descobri que havia doado o livro. Confundi as capas, confundi os autores, confundi tudo. Teria doado o Maupassant com facilidade, mas não teria me desfeito do outro. Fiquei aliviada em encontrar o link que coloquei aqui.

    Esse do Herman Hesse que você citou por acaso não conta a história de Santo Antão? Ouço essa história desde criança, porque minha mãe teve este quadro durante muitos anos:

    http://tesla.liketelevision.com/liketelevision/images/lowrez/st_anthony_bosch.jpg

  4. Não é esse do Hesse não. Acho que está num volume intitulado “Livro das Fábulas”, ainda que pareça não ter nada a ver com fábula. No final da história, após sucessivas tentativas do demoniozinho para receber uma manifestação de que deus o aceitava, qualquer indício, ele morre sem sucesso. Não me recordo precisamente de como termina, apenas de que muito emocionante.

    Esse negócio de confundir livros é bem conhecido por mim também, preocupa não.

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