Uma opinião e uma história sobre arte

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Os cânones artísticos estão continuamente mudando, mas na nossa época quase todas as formas de arte entraram na regra de não ter regra. É possível misturar várias referências, sem a necessidade de ser fiel a um estilo, local ou época. Não existe mais a preocupação de representar a realidade objetiva, que está cada vez mais fácil de ser capturada por celulares, filmes, videos caseiros. O artista tem liberdade total, de usar todas as formas, meios e materiais para dizer o que quer dizer. Isso, que à primeira vista parece tornar as coisas mais fáceis, levou a arte a outros desafios. Sem ter em nada pra se apoiar, cabe ao artista a decisão de cada etapa – terá nome, terá cor, terá rosto? O resultado imediato dessa aparente democracia é muita coisa que só precisa de cara de pau para se declarar arte. Coisas que não têm significado e que reivindicam um significado posterior; ou coisas que possuem apenas significado, cuja apresentação não diz absolutamente nada ao outro. Por isso muitos simplesmente desistiram de desfrutar da arte, de ir a exposições, e dizem que não entendem e não gostam. Ter feito parte dessa tentativa – a que muitos chamados de ser artista – me fez compreender que muita coisa é simplesmente ruim mesmo. Que chamar o público de burro não deixa de ser uma forma de se proteger. Pouca coisa do que está sendo produzida hoje conseguirá romper a barreira da bobagem e dirá alguma coisa ao futuro.

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O atelier funcionava de terça a sexta, em horário comercial. Por causa disso, a frequencia das pessoas era limitada àqueles que podiam pagar sem trabalhar o dia inteiro. Havia aposentados, donas de casa, pessoas que vínculos artísticos ou simplesmente recém-surtados sem saber o que fazer da vida (meu caso). Dentre essas pessoas com vários perfis, a que tinha mais dinheiro era uma senhora a quem chamarei de B.Michelin. O marido dela era muito rico, vivia viajando e a filha dele já era adulta. Sem maiores obrigações na vida, B. Michelin decidiu colocar a sua sensibilidade artística em objetos coloridos, femininos e de cores vibrantes, tais como ela mesma.
Ela não era muito boa na escultura propriamente dita, na realidade. Esculpir é um trabalho pesado. Ela não tinha noção de desenho ou de anatomia, e pra piorar tinha graves problemas de coluna. Havia, no atelier, um funcionário treinado pelo nosso professor durante anos. Esse funcionário conhecia todos os segredos da escultura e, por causa disso, fazia toda parte pesada das encomendas que nosso professor recebia. Foi o professor mesmo que nos disse, falando sobre a história da escultura, que os grandes escultores do passado não faziam tudo sozinhos. Que seria humanamente impossível produzir aqueles mármores maravilhosos da Antiguidade Clássica se não tivessem muitos escravos à disposição. Baseada nessas informações, B. Michelin se despreocupou com a parte pesada do trabalho. Ela idealizava peças e pagava o funcionário para fazer.
Um dia ela nos contou que havia contratado uma Crítica para avaliar o trabalho dela. Ela ia pagar quase mil reais (e isso foi há uns dez anos). Achamos que ela estava fazendo papel de trouxa. A Crítica foi no apartamento (no Batel, um apartamento por andar, 400m² de área privativa) de B.Michelin, e “gritava a cada peça”, achando tudo lindo e maravilhoso. Ela classificou o trabalho como Art Noveau Pop, informação essa que foi adotada para todo sempre. Dias depois, apareceu uma coluna de página inteira no Caderno de Cultura da Gazeta do Povo, descrevendo B. Michelin com a mais nova revelação artística da cidade. Quando B. Michelin participou de duas exposições de designers como destaque, uma com o prazo de inscrição já vencido, começamos a desconfiar que os trouxas éramos nós.
Na versão original desse texto, a história terminava contando que com a troca de governo essa Crítica acabou caindo, e o investimento de B. Michelin não alcançou todas as suas possibilidades. Mas aí pesquisei o site da artista, depois de tantos anos, e vi que ela tem participado de exposições em São Paulo, Londres e Nova York. Caro leitor, a trouxa sempre fui eu.

4 comentários em “Uma opinião e uma história sobre arte”

  1. Querida Caminhante,
    sempre aos cegos…

    A DIFERENÇA
    by Ramiro Conceição

    A diferença entre a Arte
    e tais ínfimos senhores
    é que eles são somente
    essas contas-correntes
    com seus juros, enquanto Ela
    é um rio corrente – ao futuro.

    O VELHO ADAMASTOR
    by Ramiro Conceição

    Após cada sábado,
    a fazer sol ou pingos,
    sempre…
    jogos de bingo.
    É, de belzebus
    d’olho no patrimônio
    do velho Adamastor,
    a casa ficava atulhada
    de espelhos – do amor –
    todo domingo.

    Durante bimestres,
    Adamastor não partiu.
    Durante semestres,
    Adamastor resistiu.
    Passaram-se anos…
    Porém,
    pouco a pouco,
    naquela casa,
    só ficou o pó
    da canalha…

    Por fim, o velho Adamastor,
    que tudo fingia e nada dizia,
    finalmente, um dia… sorriu!

    Qual é a moral dessa história
    capitalista… e tão humana?
    Ora,
    a morte não tolera zombarias:
    aqui se canta, aqui se cala;
    aqui se afana, aqui se afaga;
    aqui se é luz – aqui se apaga!

  2. Querida Caminhante,
    aos cegos…

    DE PÉ
    by Ramiro Conceição

    Dentro do possível inventar DE PÉ, mesmo quando quase morto. Ao Amor, trabalhar DE PÉ mesmo quando for somente uma esperança. Sim, sempre DE PÉ diante de qualquer cotidiana ditadura dissimulada ou de qualquer sadomasoquista religião prostrada. DE PÉ, sonhar e permitir à continuidade da Vida, da Poesia, mesmo no tempo da hipocrisia… DE PÉ, escrever mais e mais, principalmente diante do nunca mais da eternidade que é bastante, pois a mediocridade, efetivamente, não se basta.


    by Ramiro Conceição

    De dentro de uma dor,
    a melhor coisa – é a fé,
    que ensina a pensar-sentir de pé.
    O resto é fé que mata, e não cria!

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