Filhos de estimação

Não são todas as mudanças que acontecem de maneira tão rápida que é possível presenciar no espaço de algumas décadas. O tratamento dado a animais de estimação é uma delas. Quando eu era criança, tinhamos um cachorro, o Flock. Ele era poodle com alguma coisa. O tratamento que oferecíamos ao Flock era o tratamento normal, que todos os novos vizinhos ofereciam aos seus cachorros. O Flock comia nossos restos de comida. Tentamos dar ração, mas ele não estava acostumado e assim ficou. Quando tinha churrasco em casa, ganhava muitas linguiças (escondido) e generosos ossos. Ele não entrava em casa, e levava chinelada dos adultos quando ousava entrar na cozinha. Os poucos banhos que ele tomava por ano eram todos dados em casa, com uma mangueira. Quando necessário, ele passava horas preso na corrente. Mais pro fim da vida, adquiriu o hábito de perambular pelas redondezas e nunca mais se reacostumou a ficar em casa. Cruzou com quase todas as cadelas do condomínio.

Hoje esse tratamento seria alvo de muitas críticas. Meu cachorro, a Dúnia, não é de ter muitas regalias, mas perto do Flock pareceria uma criança mimada. Contratamos um adestrador para lhe ensinar a ser mais educada, ela ganha recompensa cada vez que saímos de casa (a maior alegria dela é quando esquecemos algo e voltamos), só come ração super premium, passeia todo dia (algumas vezes de carro), toma banho na pet shop, tem casinha com colchonete e nunca batemos nela. Ainda assim, sou acusada de não dar a ela o melhor tratamento, porque idealmente eu deveria lhe oferecer outro tipo de alimento, um irmão cachorro pra lhe fazer companhia, deixar ela entrar em casa (e dormir no meu quarto) e quem sabe lhe comprar umas bijoux ou mandar para tomar banho de ofurô, seguido de um shiatsu de cachorro. Nos anos 80, quando Leo Jaime compôs o Rock da Cachorro (sucesso na voz de Eduardo Dusek), ele não imaginava o quanto a industria de cuidados caninos cresceria.

Essa música também demonstra que a discussão que coloca o amor excessivo aos animais de estimação como um mal, um desperdício de amor é antiga. O amor legítimo, no caso, seria aquele destinado às pessoas, à sua própria espécie. Que com tanto investimento pessoal e finaceiro, seria possível impactar muito mais, e de maneira definitiva, a vida de pessoas. Amar o bicho seria amar o fácil (ninguém coloca em questão isso). Mais fácil e mais inútil, porque não teria um impacto social, da mesma forma que adotar uma criança pobre teria. Pessoas que pedem ajuda para animais abandonados ou feridos, são constantemente acusadas de futilidade. Já para quem gosta de animais, esse amor é uma amostra de seus bons sentimentos.