Tatuagem versus todo o resto

O discurso da tatuagem é da extrema personalização. Cada corpo tatuado se transformaria num corpo único, que reflete através dos desenhos a personalidade do seu dono. Pois é ele quem escolhe a figura, as cores, as dimensões, a localização. Por isso, um corpo tatuado nunca seria igual ao outro, ele diria algo que o corpo em branco não teria. Ele contaria uma história através de seus desenhos. As desbotadas ou cujo tema não se parecem mais com o dono, mostrariam o que um dia foi importante para ele e o que estava vivendo naquele momento. Outras seriam para sempre recentes – através de seus retoques – e diriam quem a pessoa é, seriam verdadeiros símbolos dos seus donos. Chega um certo ponto em que a pessoa não pode mais ser dissociada das tatuagens que ostenta. A tatuagem seria, assim, reflexo da vontade de ser único e demarcar no corpo o que há de singular em cada um.

Ao mesmo tempo, a própria popularização das tatuagens depõe contra essa idéia. Os estúdios de tatuagem não param de surgir e é cada vez maior o número de pessoas que procuram fazer um desenho definitivo no corpo. São diversas faixas etárias – adolescentes que insistem com seus pais para fazerem tatuagem antes da maioridade, adultos e até mesmo pessoas mais velhas que querem também ter uma marca. Os desenhos têm se tornado cada vez maiores, e dizem que tatuagem vicia, que fazer uma dá vontade de fazer outra e mais outra; muitos têm o objetivo de se tornar um quadrinho humano. Quando eu era criança, ouvia falar que os japoneses compravam pele tatuada pra fazer abajur. Lembro também a rejeição que Penélope Nova causava com seus braços cobertos de desenhos. Hoje isso se tornou mais comum. Se antes a tatuagem estava ligada à marginalidade, bandas de heavy metal e serviam como expressão de revolta, agora são estrelinhas no pulso de adolescentes, nomes de filhos escritos com letras cursivas nas costas das mães, escudos de time na pele dos torcedores mais fanáticos. Das mais feias e escritas em inglês ruim às artísticas dos estúdios mais caros, não é preciso adotar qualquer crença para se tatuar – basta achar bonito. Os preconceitos contra tatuagens, em proporção, também diminuiram muito.

Como as coisas que eu citei deixam perceber, as tatuagens claramente obedecem aos padrões de idade e gênero. As meninas costumam tatuar flores, insetos bonitos e voadores, fadas, estrelas, linhas suaves e, à medida que crescem, acrescentam a esses elementos símbolos e citações, mas sempre associados à idéia de feminilidade e delicadeza. As tatuagens masculinas costumam ter caveiras, insetos asquerosos ou animais pestilentos, mulheres em atitudes ou formas provocantes, símbolos esportivos, linhas bruscas que remetem à idéia de força e virilidade. Mesmo quando uma mulher faz uma caveira, essa caveira será bonita ou terá um acessório que indique que ela é fêmea. Ou seja, a escolha pelo tema da tatuagem não é tão livre quanto seus donos imaginam. Eles obedecem regras não-escritas, do que fica bem em homens e mulheres. A visão de uma tatuagem consegue, isoladamente, revelar um pouco de quem a porta.

Mas isso é bastante previsível, e na realidade não me incomoda. O que realmente me parece incoerente é buscar uma diferença na pele e se submeter a todos os outros padrões de beleza uniformizadores. A visão de um corpo jovem cheio de lindas tatuagens está em todos os lugares, como exemplos do trabalho de seus artistas ou como símbolos de um certo fetiche. No entando, a visão de um corpo velho tatuado costuma causar repulsa, como se uma coisa não fosse consequencia da outra. Ao invés de assumirem seus corpos nas suas mais particulares, na formas como ele é e como ele muda com a passagem dos anos, a moda da tatuagem anda de mãos dadas com o padrão vigente. Ou seja, o corpo tatuado bonito é jovem, magro, trabalhado em academia e submetido a cirurgias plásticas. Para mostrar a tatuagem presente nas costas, na cintura, na virilha, no dorso ou em outros lugares, só é considerado estético se for um corpo “perfeito”. A tatuagem serve para ressaltar a barriga tanquinho, o braço forte, a cintura fina, as formas inchadas ou ultra arredondadas do silicone. A pele flácida ou gorda não tem licença pra ostentar tatuagem. Aí algo que serviria para ressaltar o diferente, só aparece se estiver estritamente igual ao que as revistas pregam.

Desse modo, me parece que a tatuagem é realmente uma maneira superficial – epidérmica – de personalizar o corpo. Se de um lado é uma escolha totalmente individual, de outro é submissa a padrões de idade, beleza e gênero bastante precisos. Ao ter perdido a associação com o comportamento outsider, perdeu também sua característica de crítica e se tornou mais uma forma de adorno. O indivíduo que se tatua vê nesse comportamento algo individual, mas só se sente estimulado a fazer isso porque todos a sua volta estão fazendo, ou seja – atende novamente ao coletivo.

Adeus às armas

Eu deveria ter anotado na hora, mas não me ocorreu.

Geralmente vou à biblioteca com apenas um livro definido, ou uma vaga idéia do que pegar- um autor brasileiro e um livro de contos, reler um clássico e um autor americano, conhecer um autor novo e seguir a indicação de um blog, etc. Passo por fases de ler vários livros seguidos de um só autor e depois o abandono por um tempo. Gosto de passear pelas estantes das diferentes nacionalidades e cada hora descobrir algo novo. Há duas semanas avistei Heminway, de quem nunca li nada, e decidi arriscar. O nome Adeus às Armas me soou familiar, e na capa dizia que era um livro autobiográfico que falava do período da Primeira Guerra. Autobiografia e história, não tem como ser ruim, pensei.

Quando cheguei em casa, com Adeus às Armas (e Solo de Clarineta I), me sentei confortavelmente no sofá disposta à todos os rituais correspondentes a ficar um longo tempo lendo. Aí comecei a ler a orelha do livro. Deveria ter anotado aquilo. Ela dizia coisas como “a cena de amor mais bonita de toda a literatura” “você vai ficar de coração partido quando Fulano e Beltrana se separarem em não-sei-onde” “o livro mais emocionante já escrito” e outros exageros que me deram tanta vergonha alheia que até duvidei se a pessoa que os escreveu assinaria (e assinou).

Resultado: devolvi sem ler uma só linha.

Alguns problemas sobre as drogas

A questão das drogas está novamente na moda, e é muito difícil discutí-la. É difícil saber definir o que são drogas – é o que causa viagem? É o que cria dependência? É o que causa prejuízos sociais? Existe a questão do que preenche os requisitos e é legalizado, enquanto outras substâncias podem causar efeitos menores e são proibidas. Nesse ponto, vemos a questão da tradição – o que estamos acostumados a consumir e considerar inocente – e de toda uma indústria que existe e lucra com o consumo de algumas coisas. Existe a questão da dosagem, do quanto é necessário consumir para os efeitos serem negativos. Há a discussão sobre a capacidade do indivíduo de se negar, ou caso ele opte por não se negar, sobre a sua capacidade de não se viciar. Nesse ponto entra a questão do livre arbítrio, do quanto é possível informar e do quanto esse nível de informação torna o sujeito responsável por suas ações. O que ninguém nega é a existência do vício, seus prejuízos, e que é muito mais salutar para a sociedade diminuir (ou anular) a quantidade de indivíduos químico-dependentes. Ou seja, que a droga é um mal.

Por ela ser um mal, fazemos campanhas de combate às drogas, acreditamos que adolescentes entram no mundo das drogas por causa das más companhias. Que às drogas cabe dizer não, porque é possível entrar num caminho sem volta. Os que conseguem sobreviver nos relatam o inferno que suas vidas se tornaram, a perda de tudo que lhes era importante e o difícil caminho da reconstrução. Caminho esse que geralmente envolve uma conversão religiosa. Do Estado esperamos repressão total – entendemos ações violentas como parte do processo e condenamos quando se mostra fraco diante do poder do tráfico. Nessa luta do bem contra o mal, a alternativa de descriminalizar o uso soa a alguns como uso indiscriminado, aprovação e compactuação com o vício. Como se de alguma forma fosse preciso dizer sempre não, que a única alternativa moralmente correta seja a de proibir – qualquer coisa diferente disso seria imoral. Parece que o Estado assume o mesmo dilema dos pais no que diz respeito às coisas erradas: impedir o acesso até chegar à maturidade ou deixar conhecer sob a sua supervisão? Essa demonização também merecia ser revista, o quanto ela impede ou serve de estímulo para o que queremos evitar.

A questão das drogas me parece um exemplo dramático da dificuldade de escolher (ou conciliar) as duas éticas weberianas: a ética da convicção e a ética do esclarecimento. Proibir as drogas está de acordo com nossas crenças de que elas são nocivas, perigosas, más. Na ética da convicção, ao colocarmos as drogas como poderosas e ruins, entendemos que o melhor é impedir seu acesso, formar aparelhos repressores físicos e morais para impedirem os indivíduos de consumi-las. Na ética do esclarecimento, nos apoiamos nos dados que apontam o fracasso continuado das campanhas, reconhecemos o uso, a vontade de experimentar e que talvez seja inevitável que alguns trilhem um caminho de auto-destruição através delas. Apesar de reconhecer nela um mal, agimos de maneira a evitar que o uso de drogas se associe à violência, clandestinidade e doenças. E pra isso permitimos algo, com o pressuposto de que seria usado de qualquer forma. Como Weber aponta, nenhuma das duas éticas é melhor do que a outra e nem funcionam de maneira absoluta. Encontrar a maneira de conciliá-las, de maneira a causar o menor dano possível, é o grande desafio.

A tarefa do escritor, por Érico Veríssimo

Às vezes, tarde da noite, homens batiam à porta da farmácia ou da nossa residência, trazendo nos braços, ferido e sangrando, algumas vítimas da brutalidade dos capangas do chefe político local ou alguém que fora “lastimado” numa briga na Capoeira ou no Barro Preto. Lembro-me que certa noite – eu teria uns quatroze anos, quando muito – encarregaram-me de segurar uma lâmpada elétrica à cabeceira da mesa de operações, enquanto um médico fazia os primeiros curativos num pobre-diabo que soldados da Polícia Municipal haviam “carneado”. Eu terminara de jantar e o que vi no relance inicial me deixou de estômago embrulhado. A primeira coisa que me chamou atenção foi o polegar decepado, que se mantinha pendurado à mão esquerda da vítima apenas por um tendão. O ferimento mais horrível de todos era o talho, provavelmente de navalha, que rasgara uma das faces do caboclo duma comissura dos lábios até a orelha. Tinha-se a impressão de que o homem estava sorrindo de tudo aquilo. Seus olhos conservaram-se abertos e de sua boca não saía o menor gemido. Um golpe, provavelmente de adaga, lhe havia descolado parte do couro cabeludo. Pelo talho do ventre escapava-se a madrepérola viscosa dos intestinos. Foi essa a primeira vez na vida que senti de perto o cheiro de sangue e de carne humana dilacerada. Apesar do horror e da náusea, continuei firme onde estava, talvez pensando assim: se esse caboclo pode aguentar tudo isso sem gemer, por que não hei de poder ficar segurando esta lâmpada para ajudar o doutor a costurar esses talhos e salvar essa vida? Por incrível que pareça, o homem sobreviveu.

Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, trazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiramos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.

Viva o povo brasileiro

O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal pra pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de côco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de linguiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia passado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele. Também usaram as sobras para iscas de siri e de peixinho de rio, sendo os bofes e as partes moles o que melhor serve, como caboco logo descobriu.

p. 40
Adorei o livro. Alguns trechos são de um senso de humor indecente. Eu conhecia João Ubaldo pela coleção Plenos Pecados, o livro dedicado à Luxúria e recorde de empréstimo na Biblioteca. Mas faz muito tempo. Quando no início do Viva o Povo apareceram algumas descrições de mulheres sendo pegas à força, pensei se ele não seria um daqueles autores magistrais apenas no ponto de vista masculino – assim como mulheres podem saber apenas escrever do ponto de vista feminino. Mas depois quando ele fala do mesmo assunto, sem meias palavras, do ponto de vista da mulher que foi atacada, ele se mostrou tão sensível e preciso quanto. João Ubaldo Ribeiro descreve com a mesma naturalidade e empatia o caráter violento, o orgulho, a ambição, a falta de escrúpulos, assim como é capaz de nos levar a amar outro personagens, pelo seu idealismo, sua sensibilidade, seu amor, ou a tragicidade do seu destino.
O senso de humor dele também está presente na maneira como alguns personagens se desenrolam, tomando rumos inesperados, negando o que um dia foram, retornando às suas raízes mesmo que as ignorem. Ele mostra o problema da história, por certas coisas se perdem com o tempo, algumas por querer. Equívocos são mantidos e as mentiras úteis são repetidas até se tornarem verdadeiras. Como era de se esperar, no início da colonização os personagens são brutos, violentos, não existe honestidade possível e nem ao menos uma idéia de honestidade. Existem apenas vítimas e os que fazem de tudo para estarem por cima. À medida em que o livro (e o tempo) avança, outras características são necessárias para vencer. Os personagens substituem a violência pela astúcia, pelas influências, pela rede de conhecidos e o pensar antes de agir.
Nesse sentido, Viva o Povo brasileiro me lembra o Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. Os personagens mais interessantes de Érico são os do início, que lutam contra uma realidade mais dura e por isso mais heróica: Ana Terra e Capitão Rodrigo. Seus descendentes vão ficando tão civilizados quanto desinteressantes. Isso acontece um pouco no Viva o Povo, embora de maneira mais lenta. Mas as semelhanças entre os dois livros são poucas. A narrativa de Érico é tradicional, enquanto João Ubaldo se permite brincar, ir e voltar no tempo; Érico se compromete com personagens da mesma família, mesmo os sem brilho, enquanto João Ubaldo conta episódios, abandona alguns personagens para nunca mais retornar, enquanto outros merecem aprofundamento. E aquela característica já citada, da capacidade de João Ubaldo se colocar no papel das mulheres, falta claramente em Érico (que fez mea culpa disso em edições posteriores). Em Tempo e o Vento, as esposas se adaptam com tranquilidade à matriarca da família Terra-Cambará; oras, uma mulher aceitar o domínio de outra na esfera doméstica – a única em que eram permitidos jogos de poder às mulheres – nunca é tranquila. Só um homem poderia dizer uma coisa dessas. As mulheres de João Ubaldo se mostram mais ativas e fazem o que podem para serem felizes apesar das convenções.
Em Viva o Povo Brasileiro, vemos que o desprezo das nossas elites pelo povo é um lugar comum. Dos portugueses com os nativos, dos brancos com os negros, dos mestiços com os negros, mestiços esses que fazem de tudo para negar sua ascendência e buscam o clareamento da prole. Por se verem como europeu expatriados, não existe a identificação e nem o desejo de ajudar. O problema da ignorância e pobreza é sempre motivo de queixa, mas eles não acham que fazem parte disso. O povo brasileiro se vê obrigado a buscar uma identidade nacional em meio a esse descaso. Isso faz com que o livro se torne engajado, porque ele olha para séculos de abandono com carinho, e tenta alertar para o futuro. Tanto que seu título um grito de guerra, repetido pelos seus personagens mais valorosos: Viva o povo brasileiro!

Ratos

Tenho uma grande admiração por ratos. Eu já tive um rato de estimação. Essa informação teria mais impacto antes, porque muitas pessoas passaram a achar ratos simpáticos depois de Ratatouille. Nos extras do DVD, tem um filminho dedicado inteiramente à informações sobre os ratos de verdade. Já eu sou de uma geração diferente, a do Mickey Mouse e o Jerry. Mickey Mouse é um camundongo sem nada de roedor, de um bom mocismo irritante. Já o Jerry, com sua esperteza e crueldade, era muito mais rato. Lembro da dona do Tom (cujo rosto nunca vimos) subindo desesperada na cadeira quando vê Jerry. Mesmo hoje, é assim que as mulheres aprendem a reagir na presença de um rato, subindo nas cadeiras e gritando por socorro.
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Rato é meu ascendente no horóscopo chinês, e a descrição do signo diz que eles são gregários, organizados e protetores. Só que quando combinado com o meu outro signo, a serpente, geralmente esses horóscopos me definem como interesseira, vingativa e capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que quero. Um pouco como os ratos do Guia do Mochileiro das Galáxias. Esse livro, um verdadeiro símbolo nerd, perde muito a sua graça quando lido depois dos vinte (meu caso). O que achei interessante foram os aliens chegam na Terra para conversar com a especie mais inteligente. A surpresa está no fato de que a humanidade é apenas a terceira espécie: antes da humanidade estão os golfinhos e os ratos encabeçam a lista. Concordo.
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O que me convenceu disso foi um livro interiro dedicado ao assunto: Todos os ratos do mundo: do Flautista de Hamelin a Mickey Mouse: O Irresistível Charme dos Roedores. Olha que informação interessante: desenvolver veneno contra ratos é muito difícil. Não se sabe se é pelo olfato, mas eles são muito desconfiados e simplesmente não comem certas substâncias, por mais que sejam misturadas aos ingredientes mais saborosos. E quando se deparam com algo novo, eles fazem com que os mais velhos ou mais fracos comam primeiro. Esses membros ficam dias em observação, e apenas depois desse período, se eles não mostrarem nenhuma reação, é que os outros comerão a comida. Venenos para ratos, por esse motivo, precisam não ter odor e só manifestarem seu efeito depois de alguns dias.
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Essa daqui é pra convencer de uma vez que eles são muito inteligentes: um navio estava infestado de ratos. Para exterminar a praga, o navio foi esvaziado, lacrado e colocaram tubos por pontos estratégicos onde seria liberado um veneno poderoso. Com aquela quantidade de veneno, durante tanto tempo e sem ter por onde sair, todos os ratos morreriam asfixiados e a praga terminaria. Só que quando terminou a administração de veneno, eles chegaram lá e encontraram os ratos, vivos. O que teria dado errado? Quando foram recolher os tubos, viram que em cada um havia um rato entalado. Ou seja, eles descobriram de onde o veneno saía e sacrificaram alguns membros para impedir que todos morressem.
As histórias de ratos são todas assim. Os ratos são tão poderosos porque pensam coletivamente. Ratos dão a impressão de serem uma grande inteligência, espalhada em pequenos corpos ágeis e de dentes afiados. Uma família de ratos sempre pensa no todo. Quando o lugar onde eles estão se torna pequeno e a comida escassa – experiência de alimentar um casal, deixando-o se reproduzir o quanto quiser, sem mudar de gaiola ou alterar a quantidade de ração – eles começam a fazer controle de natalidade e racionar comida. Por isso que só eles e as baratas (sem mérito por parte delas) sobreviveriam a uma hecatombe nuclear. Nós mal sobrevivemos a nós mesmos.

Alimentação perfeita

Cresci em meio a livros de alimentação natural e homeopatia, e minha mãe sempre se esforçou para seguir o que esses livros pregavam. Mas era muito difícil. Se por um lado as marmitas de comida macrobiótica que ela trazia determinaram o meu paladar para sempre, por outro éramos crianças e todas as crianças estão atentas às novidades das bolachas, dos chocolates, dos salgadinhos. Ela tentava achar um meio termo, se recusando a comprar Tang e dando preferência ao chocolate no lugar da bala. A intenção era ser naturalista, mas pra isso ela precisava de um tempo, dinheiro e pesquisa impossíveis para uma mulher que passava o dia inteiro fora.

Se por um lado minha mãe não conseguiu a alimentação perfeita, eu tive a oportunidade de conhecer quem conseguiu essa proeza. Era uma família formada por um casal de uma filha. Não conheci o pai, que passava quase todo o tempo na chacarazinha que eles tinham. Eu desconfiei de qualquer coisa quando a filha, que era uma pessoa muito sociável, se recusou a ir a um comes & bebes de confraternização. O convívio com a família e muitos sucos de bambu depois, me fizeram descobrir que ela e a mãe conseguiam realmente se alimentar de modo “perfeito”, do modo que todos os livros de comida natural pregam. Elas eram totalmente vegetarianas e cortaram o açúcar de suas vidas. As coisas que elas comiam vinham de diferentes origens: da chácara, da hortinha no apartamento, de feiras de orgânicos e, por último, da sessão de hortifruti do supermercado perto de casa. E era apenas isso e produtos de limpeza que elas compravam lá. Tudo o que elas comiam era feito em casa e integral; graças ao talento culinário da mãe, tudo era muito gostoso.

Ao mesmo tempo, foram elas que me fizeram perceber porque minha mãe nunca conseguiu ter a alimentação natural perfeita, do mesmo modo que eu não consigo. Se nós lemos Sugar Blues e acreditamos no poder dos alimentos, o que nos falta? A família de alimentação perfeita a tinha tão perfeita que elas nunca comiam fora de casa. Seus critérios alimentares eram rigorosíssimos. A filha se viu em sérios problemas quando começou a namorar e foi conhecer a família dele. Para agradá-la, sabendo que ela não bebe refrigerante ou sucos de caixa, decidiram lhe oferecer um chá. Compraram matte leão. Mas pra quem é realmente naturalista algo que vem adoçado, cafeinado e numa garrafa pet não pode nem ser chamado de chá. Ela não aguentou beber e foi pega no flagra quando despejava o conteúdo do copo na pia da cozinha…

Por outro lado, conheço quem se despreocupe completamente com essas questões. Eu mesma fiz isso, quando casei. Adotamos aqui em casa o mesmo esquema que o Luiz estava acostumado na casa dos pais dele: geladeira sempre cheia de refrigerante, comida congelada, bolachas recheadas, muitas idas à praças de alimentação. Mais tarde, tivemos que lutar para emagrecer e eu me revelei uma grande viciada em coca-cola. A mesma coca-cola que um amigo do Luiz (cada dia mais gordo e com problemas de colesterol) toma de café-da-manhã, porque “espremer uma laranja pra fazer suco dá muito trabalho e perde muito tempo”. Na falta de tempo e de habilidade para fazer uma boa comida natural, pagamos caro pra comer regularmente num restaurante vegetariano. Dá pra dizer que temos uma alimentação mais saudável do que a média. Vejo os resultados disso quando minha cunhada, que é mais nova do que o Luiz, teve que retirar pedras da vesícula e parece muito mais velha.

Por isso que eu gostei muito quando a Sonia Hirsch, na sua entrevista, falou da alimentação possível, a alimentação que conjuga o que faz bem com o que todo mundo come. Porque a comida é muito mais do que um simples combustível que nos anima. Ela está nas confraternizações entre amigos, no lanche da tarde com as visitas, nos almoços para conhecer os pais, no cafezinho com os colegas de trabalho, nos jantares de negócios. O que comemos fala da época que nós vivemos, e com quem comemos fala sobre as nossas relações . Não acho que devemos nos submeter apenas à nossa época de maneira acrítica, em matéria de comida ou em qualquer outra. Ao mesmo tempo, não conseguimos estar de todo fora dela.