Viva o povo brasileiro

O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal pra pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de côco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de linguiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia passado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele. Também usaram as sobras para iscas de siri e de peixinho de rio, sendo os bofes e as partes moles o que melhor serve, como caboco logo descobriu.

p. 40
Adorei o livro. Alguns trechos são de um senso de humor indecente. Eu conhecia João Ubaldo pela coleção Plenos Pecados, o livro dedicado à Luxúria e recorde de empréstimo na Biblioteca. Mas faz muito tempo. Quando no início do Viva o Povo apareceram algumas descrições de mulheres sendo pegas à força, pensei se ele não seria um daqueles autores magistrais apenas no ponto de vista masculino – assim como mulheres podem saber apenas escrever do ponto de vista feminino. Mas depois quando ele fala do mesmo assunto, sem meias palavras, do ponto de vista da mulher que foi atacada, ele se mostrou tão sensível e preciso quanto. João Ubaldo Ribeiro descreve com a mesma naturalidade e empatia o caráter violento, o orgulho, a ambição, a falta de escrúpulos, assim como é capaz de nos levar a amar outro personagens, pelo seu idealismo, sua sensibilidade, seu amor, ou a tragicidade do seu destino.
O senso de humor dele também está presente na maneira como alguns personagens se desenrolam, tomando rumos inesperados, negando o que um dia foram, retornando às suas raízes mesmo que as ignorem. Ele mostra o problema da história, por certas coisas se perdem com o tempo, algumas por querer. Equívocos são mantidos e as mentiras úteis são repetidas até se tornarem verdadeiras. Como era de se esperar, no início da colonização os personagens são brutos, violentos, não existe honestidade possível e nem ao menos uma idéia de honestidade. Existem apenas vítimas e os que fazem de tudo para estarem por cima. À medida em que o livro (e o tempo) avança, outras características são necessárias para vencer. Os personagens substituem a violência pela astúcia, pelas influências, pela rede de conhecidos e o pensar antes de agir.
Nesse sentido, Viva o Povo brasileiro me lembra o Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. Os personagens mais interessantes de Érico são os do início, que lutam contra uma realidade mais dura e por isso mais heróica: Ana Terra e Capitão Rodrigo. Seus descendentes vão ficando tão civilizados quanto desinteressantes. Isso acontece um pouco no Viva o Povo, embora de maneira mais lenta. Mas as semelhanças entre os dois livros são poucas. A narrativa de Érico é tradicional, enquanto João Ubaldo se permite brincar, ir e voltar no tempo; Érico se compromete com personagens da mesma família, mesmo os sem brilho, enquanto João Ubaldo conta episódios, abandona alguns personagens para nunca mais retornar, enquanto outros merecem aprofundamento. E aquela característica já citada, da capacidade de João Ubaldo se colocar no papel das mulheres, falta claramente em Érico (que fez mea culpa disso em edições posteriores). Em Tempo e o Vento, as esposas se adaptam com tranquilidade à matriarca da família Terra-Cambará; oras, uma mulher aceitar o domínio de outra na esfera doméstica – a única em que eram permitidos jogos de poder às mulheres – nunca é tranquila. Só um homem poderia dizer uma coisa dessas. As mulheres de João Ubaldo se mostram mais ativas e fazem o que podem para serem felizes apesar das convenções.
Em Viva o Povo Brasileiro, vemos que o desprezo das nossas elites pelo povo é um lugar comum. Dos portugueses com os nativos, dos brancos com os negros, dos mestiços com os negros, mestiços esses que fazem de tudo para negar sua ascendência e buscam o clareamento da prole. Por se verem como europeu expatriados, não existe a identificação e nem o desejo de ajudar. O problema da ignorância e pobreza é sempre motivo de queixa, mas eles não acham que fazem parte disso. O povo brasileiro se vê obrigado a buscar uma identidade nacional em meio a esse descaso. Isso faz com que o livro se torne engajado, porque ele olha para séculos de abandono com carinho, e tenta alertar para o futuro. Tanto que seu título um grito de guerra, repetido pelos seus personagens mais valorosos: Viva o povo brasileiro!

7 thoughts on “Viva o povo brasileiro

  1. Também lembro de ter gostado muito de Viva o Povo Brasileiro, principalmente a abordagem da linguagem, sofisticada, elegante, ainda mantendo seu traço distintivamente brasileiro, mas diferente e superior à maior parte das outras produções dos romancistas seus contemporâneos.

    P.S.: que beleza o texto do jumento, que humor. Estou rindo aqui comigo mesmo.

  2. Estou fora da net temporariamente porque estou no século XIX e aqui não tem essas coisas (escrevendo artigo sobre isso e imerso no tempo). Logo, posto um comentário à altura de minha paixão por este livro.
    Viva o Povo é o livro que MAIS ME FEZ RIR em toda minha vida.
    E o nego Leléu é um dos mais belos personagens que conheço. Retrata como poucos a sociedade escravista do século XIX brasileiro, sobre a qual estou escrevendo agora.

  3. Isso não é certo, colocar lá no outro blog de comentário fechados o post sobre seu aniversário. Como se desejaria para você os manjados votos de felicidades e muitos anos de vida?

    Parabéns, Fernanda. Um abraço daqui de um amigo que não te conhece mas sabe o suficiente da pessoa maravilhosa que você é. Felicidades e muitos anos de vida.

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