A tarefa do escritor, por Érico Veríssimo

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Às vezes, tarde da noite, homens batiam à porta da farmácia ou da nossa residência, trazendo nos braços, ferido e sangrando, algumas vítimas da brutalidade dos capangas do chefe político local ou alguém que fora “lastimado” numa briga na Capoeira ou no Barro Preto. Lembro-me que certa noite – eu teria uns quatroze anos, quando muito – encarregaram-me de segurar uma lâmpada elétrica à cabeceira da mesa de operações, enquanto um médico fazia os primeiros curativos num pobre-diabo que soldados da Polícia Municipal haviam “carneado”. Eu terminara de jantar e o que vi no relance inicial me deixou de estômago embrulhado. A primeira coisa que me chamou atenção foi o polegar decepado, que se mantinha pendurado à mão esquerda da vítima apenas por um tendão. O ferimento mais horrível de todos era o talho, provavelmente de navalha, que rasgara uma das faces do caboclo duma comissura dos lábios até a orelha. Tinha-se a impressão de que o homem estava sorrindo de tudo aquilo. Seus olhos conservaram-se abertos e de sua boca não saía o menor gemido. Um golpe, provavelmente de adaga, lhe havia descolado parte do couro cabeludo. Pelo talho do ventre escapava-se a madrepérola viscosa dos intestinos. Foi essa a primeira vez na vida que senti de perto o cheiro de sangue e de carne humana dilacerada. Apesar do horror e da náusea, continuei firme onde estava, talvez pensando assim: se esse caboclo pode aguentar tudo isso sem gemer, por que não hei de poder ficar segurando esta lâmpada para ajudar o doutor a costurar esses talhos e salvar essa vida? Por incrível que pareça, o homem sobreviveu.

Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, trazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiramos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.

3 thoughts on “A tarefa do escritor, por Érico Veríssimo

  1. Caminhante,
    ao seu caminho,
    ao seu Amor…

    ESTELARES
    by Ramiro Conceição

    Na planície
    agora existe
    um perfume:
    teu nome…
    Por isso,
    precisamente,
    preciso-de-ti,
    pois, quando
    te amo, canta
    a castanheira
    ao bem-te-vi!

    Houve antes.
    Existe agora.
    Haverá depois.
    Então, meu amor,
    por favor, aviva-te!
    Porque o sagrado da Vida
    é o tempo que nos habita.

    Na rua das castanheiras,
    namoro o amor que mora.
    Lá, crio, rio, choro
    e devoro-te… É,
    quando o amor nos beija,
    enfeita, Alguém, com véus
    as castanheiras… do céu.

    O que será de mim
    quando o Sol pentear
    os teus cabelos
    e o amarelo revelar o quê que
    nunca vira antes… tão belo?
    O que será de mim quando,
    porventura, o teu sorriso passear
    qual mar que leva um bardo à vela,
    grávido, à fundura do amor bendito
    qual antílope enamorado a farejar
    no orvalho a dádiva do teu perfume?
    Ai, de mim! O que farei quando fores
    uma perdida esperança… em mim?

    Meu amor, quando se der a despedida,
    sejamos então, só, as sementes à Vida!
    Pois as lágrimas são encontros com as marés
    de onde viemos e das quais ressuscitaremos:
    estelares!

  2. “Tears for Fears”??? Pô, quando acessei o link e os primeiros acordes soaram no vídeo do youtube, me veio em cheio uma carga de nostalgia da adolescência que quase me pôs abaixo. Gosto muito de umas cinco músicas dos caras.

    Você deve ser igual a mim, né. Não revelou que tem um blog para seus parentes.

    A garota vai adorar o Mochileiro das Galáxias.

    (Me diga uma coisa: por que estamos todos nós de nosso ciclo de blogueiros_ ai, odeio essa palavra_ tão pouco produtivos nessas últimas semanas? Postando tão pouco? Há de se pensar sobre isso.)

  3. Eu só lembrava do nome, e não sabia que músicas eram do Tears for Fears. Também devo gostar de umas cinco deles, a que deixei no link especialmente.

    Até que eu revelei que tenho blog aos meus parentes. Mas ninguém se interessou muito em ler, até hoje. Faz parte do desprezo que eles nutrem pelas coisas que faço. Claro que isso – de ter contado – não inclui os parentes do Luiz. Eles sim, leriam com um ávido (e nocivo) interesse.

    Acho que a sobrinha do Luiz vai adorar o Mochileiros. Eu o li tarde demais, há poucos anos, e fiquei decepcionada depois de já ter ouvido tanta coisa sobre o livro. É um livro para ser lido na adolescência. Duvido que ela gostasse do Admirável Mundo Novo. Parece que o MUITO que ela tem lido é Harry Potter. Não é a mesma bagagem que tinhamos na adolescência (sim, eu nutro um certo desprezo intelectual pelos parentes dele)

    Que bom que você falou nisso, também tenho sentido que todos estamos pouco produtivos. A mim tem sido bem penoso escrever no CDiurno, e pra cá não me surge nada. Seja lá como for, espero que essa maré passe.

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