Pobreza, por Victor Hugo

A vida para Marius ficou difícil. Comer com o dinheiro obtido na venda das roupas e do relógio não era nada. Ele se alimentou também dessa coisa inexprimível que se chama o pão que o diabo amassou. Coisa horrível, que incluiu os dias sem pão, as noites sem sono e sem luz, a lareira sem fogo, as semanas sem trabalho, o futuro sem esperança, os cotovelos rotos, um chapéu velho que provocava o riso das mocinhas, a porta que se encontra fechada à noite por não ter pago o aluguel, a insolência do porteiro e do estalejadeiro, a zombaria dos vizinhos, as humilhações, a dignidade ofendida, a aceitação dos trabalhos vis, o desgosto, a amargura, o desânimo. Marius aprendeu como se devora tudo isso, e como, muitas vezes, essas são as únicas coisas que se existem para devorar. Nesse momento da existência em que o homem tem necessidade do orgulho, porque tem necessidade de amor, viu-se escarnecido, porque estava mal vestido, e ridicularizado, porque era pobre. Na idade em que a juventude nos enche o coração de altivez imperial, ele muitas vezes baixou os olhos para as botinas furadas e conheceu a vergonha injusta e o pungente rubor da miséria. Admirável e terrível prova da qual os fracos saem infames e os fortes, sublimes. Cadinho em que o destino joga os homens todas as vezes que quer criar um patife ou um semideus.

Victor Hugo/ Os miseráveis

Fast psicologia

Cena 1 : Coisas que odeio em mim.

Esse programa se propõe a resolver dez problemas em apenas um dia. A californiana Jane se queixa de que ela não consegue esquecer o namorado com quem viveu mais de cinco anos e de quem estava separada há dois. Eles chamam sua melhor amiga para lhe dar apoio e um psicólogo. Diante das câmeras, ela fala da saudades que sente dele e chora. O psicólogo pede para ela escrever no papel todos os seus medos e mágoas com relação a esse assunto. Depois, discursa sobre ela estar começando um novo período na sua vida, simbolizado pela queima do papel onde ela havia descrito seus problemas.

Cena 2: Super Nanny.

A especialista Super Nanny ajuda pais que não conseguem educar seus filhos. As cenas mostram Mary oprimida por seus dois filhos. Ela carrega suas mochilas, apanha deles quando os contraria e se sente extremamente culpada quando coloca qualquer limite. Super Nanny lhe dá uma mochila cheia e as duas saem para caminhar. Chegam ao topo de uma montanha. Quando Mary abre sua mochila, ela está cheia de pedras. Aquelas pedras, Super Nanny lhe diz, representam toda culpa que ela tem carregado inutilmente. Ela é convidada a nomear cada pedra com uma de suas culpas e joga-las fora.

Cena 3: Guro do estilo.

A participante abre seu guarda-roupa a um especialista, que analisam seu tipo físico e estilo para lhe propor um novo visual. Depois de conhecer Sue, o especialista conclui que ela têm um grave problema de auto-estima. Então marcam para ela uma consulta com um psicólogo que atende várias estrelas. Na consulta, ele faz com que ela desfile com uma roupa feita de saco de lixo – “o que pode ser pior do que se vestir de saco de lixo?”. Depois a mostra a vários espelhos de imagem deformada, que simbolizam a maneira como os outros a vêem. Por fim, diante do espelho normal, ela conclui que o melhor é ser ela mesma.

A psicologia, como ciência, nasceu sob influência do pensamento filosófico europeu. Para muitos o marco está em Descartes, que ao dividir a res cogitans da res extensa, ou seja, a parte psíquica da física, iniciou uma forma de ver o indivíduo e estudá-lo. A psicologia estaria separada da biologia e outras ciências materiais por se debruçar sobre aquilo que se manifesta no físico e possui suas próprias origens e leis – para tanto, merece um método específico de estudo. Wundt em 1873 ele publicou o livro Fundamentos da Psicologia Física e é considerado o pai da psicologia. Ele criou em 1879 o primeiro laboratório de psicologia. Como é possível perceber, a psicologia experimental ainda dialogava muito com experimentos fisiológicos. Idéias hoje associadas à psicologia como inconsciente, repressão e libido surgiram graças a Freud. Em 1895, no Estudos Sobre a Histeria, Freud procura minimizar o discurso físico em torno da histeria para privilegiar a dimensão psicológica.

O tratamento psicológico, quando pensado em função do inconsciente e traumas infantis, é bastante dispendioso. A preocupação com o tempo e a cura não foi uma prioridade no nascimento da disciplina. A psiquiatria nunca teve um histórico de curas, apenas de controle. A psicanálise também não se propõe a curar. Na tipologia da psicanálise, o sujeito normal é um neurótico. O neurótico é aquele que entende a adere às regras sociais, mesmo que isso lhe cause sofrimento. A repressão da libido é entendida como condição básica da civilização. A única coisa que a psicanálise pode propor aos seus pacientes é o ajustamente social e alívio de alguns sintomas. Com Jung, o paciente terapeutizado se propõe a fazer um mergulho tão profundo no seu inconsciente que atinge o inconsciente da própria humanidade. Reich, outro discipulo eminente de Freud, propunha uma verdadeira revolução sexual: a neurose invidividual, fruto de uma repressão sexual, não poderia encontrar sua plena manifestação numa sociedade puritana e repressora. Por isso, a libertação da indivíduo necessariamente passaria pela libertação da própria sociedade.

Nos Estados Unidos surgiu uma outra maneira de entender a psicologia, muito mais prática e direta. Lá surgiu a psicologia comportamental, também chamada de behaviorismo. O behaviorismo metodológico de Watson (1878-1958) se propunha a abandonar os processos cognitivos e se limitar ao comportamento observável. Skinner (1904-1990) levou o método comportamental a outro patamar, ao propor que através do comportamento observável é possível conhecer e modificar a dimensão psíquica. Para tanto era preciso fazer uma análise comportamental, ter objetivos claros, levar em conta possível condicionamentos e propor modificações ambientais. Isso tornou possível a criação de terapias mais rápidas. Embora criticado pelo seu mecanicismo e por ignorar a questão da liberdade pessoal, o behaviorismo se mostrou muito eficaz em tratamentos como os de fobias, distúrbios de sexualidade, necessidades educativas especiais, entre outros.

O que ninguém poderia prever é até onde a idéia da rapidez e simplificação poderia nos levar. O behaviorismo se livrou do inconsciente e essa nova modalidade de terapia se livrou do condicionamento. Restou apenas o comportamento. Em programas de TV, palestras motivacionais e qualquer evento que dure algumas horas, é possível alguém usar algum objeto como metáfora – papel para simbolizar as dificuldades, pedras transformadas em culpa, espelho e roupa em auto-imagem – e propor com isso uma mudança de vida. Pela popularidade do método, não duvido que isso possa causar uma sensação imediata de alívio. Acho que se as questões de uma pessoa fossem simples como carregar pedras, ela mesma já teria dado conta de resolver o problema. Essa simplificação extremada não possui nenhuma base consistente; ela pode ser resultado da solicitação crescente que a psicologia sofre da sociedade. E certamente contribuirá para a desvalorização da psicologia.

Uma história íntima da humanidade

O livro me foi indicado por uma historiadora, a Nikelen. Além do mais, o título do livro usa a palavra história. Então nada mais natural do que procurá-lo como um livro de história. Mas na biblioteca ele estava classificado como Antropologia Social (e existe uma antropologia que não seja social?). Pior ainda foi quando procurei um link para cita-lo neste post e ele aparece como psicologia. A confusão, na verdade, é compreensível. O primeiro capítulo, sobre liberdade, foi quase como ler auto-ajuda para mim. Auto-ajuda num sentido bom, claro.

Capítulo 1: Como os seres humanos continuam a perder as esperanças, e como novos encontros, e óculos novos, as renovam.

O Uma história íntima da humanidade se confunde com antropologia, com psicologia e com uma certa auto-ajuda porque ele aborda temas próximos e de uma maneira muito pessoal. A cada capítulo, ele conta a história de alguém. São histórias verdadeiras, de mulheres (na introdução o autor justifica essa escolha) que refletem sobre as escolhas que fazem e que rumo deram às suas vidas. Dentro de cada uma dessas histórias o autor destaca uma questão e mostra o quanto ela diz respeito a todos nós. Ele mostra que as questões daquelas mulheres não são inéditas, que as maneiras de entender certos fenômenos mudou de enfoque e de importância ao longo do tempo. Ou seja, o autor fala do próximo e do distante, do particular e do comum.
O medo tem sido quase sempre mais poderoso do que o desejo de liberdade. Contudo, o imperdor Maurício, de Bizâncio (582-602), descobriu uma excessão. Ficou perplexo com três eslavos que havia capturado e que não portavam armas. Levavem somente guitarras e cítaras e vagabundeavam cantando as alegrias da liberdade, de estar em campos abertos gozando as brisas frescas. eles lhe disseram: “É normal que pessoas estranhas à guerra se devotem à música com fervor”. Suas canções versavam sobre o livre-arbítrio, e eles eram conhecidos como pessoas de vontade libre. Em 1700 ainda havia gente assim quando Pedro o Grande decretou-lhe a condenação: todos deviam fazer parte de um Estado legal, com deveres preestabelecidos. Mas 150 anos depois, Tara Sevlenko, um servo ucraniano alforriado, cantava poemas na mesma linha, lamentando que ” a liberdade esteja adormecida por ordem do czar bêbado”, e insistindo em que a esperança podia ser encontrada na natureza:
Ouça o que diz o mar
Interrogue as montanhas negras.
Havia escravidão, antes de tudo, porque os que queriam ficar sozinhos não se afastavam do convívio dos que apreciavam a violência. Os violentos têm sido vitoriosos ao longo da história porque administravam o medo com que cada um de nós nasce.
O objetivo do livro, ao fazer recortes tão originais, é ambicioso: mostrar que as coisas não são como devem ser, e sim formadas por muitas escolhas. Escolhas forjadas pelos nossos antepassados, que nos deram uma maneira de olhar a questão. Mas também escolhas da nossa própria geração, que lança ela mesma uma contribuição à maneira de olhar os fenômenos. O autor procura retirar do leitor o sentimento de determinação; conhecer a nossa história, ao invés de nos mostrar um curso de progresso inevitável, aumenta a capacidade crítica. “Quero demonstrar como, hoje em dia, é possível aos indivíduos formarem opinião nova de sua própria crônica pessoal e de todo o registro da crueldade humana, seus equívocos e alegrias. Para se ter visão nova do futuro, sempre foi necessário, antes, adquirir uma visão nova do passado” (p.7)

Seu corpo sabe

É um arquivo que parecerá grande quando você abrir, mas é bem fácil devorar as sete páginas em que o Dr. Vernon Coleman discute vários aspectos da medicina. Destaco alguns pontos:

O fato é que nosso corpo é perfeitamente capaz de cuidar-se sozinho. No entanto, poucas pessoas aproveitam esses mecanismos de auto-cura e a capacidade de auto-proteção. Em vez disso, preferimos colocar nossa saúde e nossa vida nas mãos de “especialistas”, muitas vezes treinados para considerar o corpo e as doenças que o afligem com evidente estreiteza de visão.(….)

Como conseqüência importante desse relacionamento entre médicos e indústria farmacêutica, formas de terapia que não podem ser embaladas, vendidas e transformadas em um produto lucrativo são ignoradas tanto pelas revistas médicas quanto pelos próprios médicos, que obtêm suas informações através dessas revistas.

Por exemplo, embora cada vez mais estudos independentes comprovem que pessoas com hipertensão podem reduzir permanentemente sua pressão arterial aprendendo a relaxar, a maioria dos médicos ainda acredita que medicamentos são a única saída.(….)
Anos atrás, se você fosse ao médico dizendo que se sentia péssimo, na maior fossa, ele provavelmente teria receitado um tônico inócuo, conversado com você durante uns 20 minutos e aconselhado a sair e se divertir um pouco. Hoje, se você vai ao médico queixando-se do mesmo desânimo, ele provavelmente vai diagnosticá-lo como depressivo. Provavelmente, ele vai receitar um dos poderosos medicamentos atualmente disponíveis na praça.

Até recentemente, a depressão era uma doença relativamente rara, mas as coisas mudaram. Hoje, a depressão é uma das moléstias que mais aumenta no mundo. Milhões de pessoas sofrem de depressão. E o boom ocorrido no diagnóstico de depressão coincidiu com o desenvolvimento de anti-depressivos químicos especiais, novos e caros. Temo que muitas vezes a pessoa é diagnosticada como “depressiva” quando simplesmente está angustiada, infeliz ou cansada da vida que leva.(….)

Como a maioria dos médicos receita demais medicamentos diferentes, eles não têm idéia dos efeitos colaterais produzidos por aqueles que estão receitando. Portanto, lembre-se da Primeira Lei da Medicina Moderna de Coleman: “Se você desenvolver novos sintomas enquanto estiver sob tratamento para qualquer problema, provavelmente esses novos sintomas são causados pelo tratamento.” Um entre cada seis pacientes está no hospital porque os médicos o tornaram doente. O motivo é simples. São poucos os médicos e os doentes que conhecem a Primeira Lei da Medicina Moderna de Coleman. Você não deve esquecer nunca.

Leia o artigo completo aqui. Indicação do Alessandro Martins.

Guarda-pó

Basta digitar a palavra cientista no Google pra encontrar várias fotos semelhantes a essa: uma pessoa de guarda-pó, preferencialmente em meio a tubos de ensaio. Lembro de uma propaganda de um desses cogumelos milagrosos (“contra artrite, artrose, osteoporose”), em que a imagem do cientista ganhava um acréscimo: aparecia um japonês de guarda-pó para falar das últimas pesquisas relativas ao produto. Se cientistas já são pessoas inteligentes, gênios, imagine só um cientista japonês! Não menos ridículo é pensar que até poucas gerações atrás os professores de sociologia usavam guarda-pó também. São ciências sociais, entende? Me pergunto como uma peça de vestuário que deve ter nascido da simples praticidade de proteger a roupa adquiriu um imaginário tão poderoso. Há quem declare sonhar em ser um profissional da saúde para usar guarda-pó branco – ou que tenha fantasias sexuais com quem o usa. A função de proteção é o de menos. O guarda-pó é um verdadeiro símbolo de status.

História sem régua

Minha sogra era professora primária e era dia 26 de abril quando estavamos almoçando lá. Ela perguntou à neta, de 14 anos, que data importante era aquela. 26 de abril? Eu sabia que o descobrimento do Brasil era 22 de abril, e pra existir um 26 de abril, concluí que aquela era a data da celebração da primeira missa. A sobrinha do Luiz não fez todos esses cálculos, e começou a chutar datas aleatórias – “Dia da independência do Brasil? Dia da descolonização do Brasil?” Descolonização? Minha sogra ficava doida. Contou que era o dia da primeira missa e perguntou quem a havia rezado. Outra negativa. Todos os presentes – eu, o Luiz, minha cunhada e meu sogro – sabiam as respostas. Depois o Luiz me explicou que a mãe dele sempre fica louca da vida em perceber que a neta é muito ruim em datas.

Eu não soube o que pensar. Não sei o quão importante é lembrar das datas, se faz mesmo diferença saber que foi em 1888 que foi assinada a Lei Áurea e outros tantos números que tenho guardados na minha cabeça. Acho que todos já recebemos um e-mail dizendo que há anos atrás as questões eram mais rigorosas, que o aluno de hoje mal precisa pensar para responder uma prova. Desse ponto de vista, o fato de não lembrar das datas seria o indício de algo maior, de que os alunos de hoje aprendem menos do que o básico. A impressão que eu tenho é de que certas discussões acadêmicas acabam chegando de maneira estranha – talvez o termo certo seja empobrecida – às salas de aula. Hoje a História, na academia, tem procurado abandonar o modelo cronológico que a dominou durante séculos, o que mesmo que me foi ensinado: o da história progressiva, um grande modelo explicativo da humanidade. Aquela história que estudava as Eras, que se preocupava em dizer se foi a Revolução Francesa ou a Primeira Guerra Mundial que nos fez deixar de ser Modernos para nos tornarmos Contemporâneos. Para esse modelo, era essencial conhecer as datas.

Filhos dessa auto-crítica histórica estão abordagens muito interessantes, que trazem uma maneira nova de olhar o que já parecia explicado, ou que lançam questões inovadoras sobre o passado. Ao invés da história dos grandes estadistas, hoje brotam livros que falam das pessoas comuns, de como viviam e pensavam aqueles cujos nomes ninguém nunca se interessou em saber. Nem todo recorte precisa ser feito por países, reinados ou guerras; podemos nos perguntar da concepção de morte, amor, higiene, infância e tudo o que faz/fez parte das nossas vidas. É uma história que nos torna mais próximos dos que nem conhecemos, que nos mostra que mentalidades ainda resistem, o que mudou, o que é radicalmente diferente da maneira como gostamos de nos entender. Meu amor pela história se renova quando leio livros assim. Quando falamos em mudanças de mentalidade, a data se torna uma questão menor. Podemos acompanhar o movimento e dizer quando ele parece ter se estabelecido, mas não é possível afirmar quando, onde e nem porquê.

Não me arrisco a dizer se essa nova geração não sabe a data da Proclamação da República (15 de novembro) mas sabe o que ela significa, ou se nem é importante saber o que é Proclamação. Sei que aos olhos mais cronológicos, é como se a história estivesse se desfazendo.

Violência

Só uma pessoa que não suporta ver sangue pra se dar conta de que ele está na TV o tempo inteiro. Tem sangue nos programas policiais, tem sangue nos videoclipes, tem sangue em todos os seriados americanos, tem sangue nos filmes de amor. Por falar em seriados americanos, tem seriado com psicopata de protagonista, Dexter, e seu código de ética de matar quem merece desafia e confunde a ética do espectador – pode um psicopata ser bom? Quando eu era adolescente, a última palavra em violência era um filme chamado Faces da Morte, que nada mais era do que uma coletânea de imagens reais de pessoas morrendo. Mortes naturais ou assassinatos, algumas por acaso ou simplesmente cenas de putrefação. O hit dessa série – acho que fizeram uns quatro Faces da Morte – era a cena morte na cadeira elétrica, onde era possível perceber que os globos oculares saltavam. Ver o Faces da Morte era quase como um iniciação, uma prova de força. Hoje existem outros filmes, outras provas. Se clamamos por um mundo menos violento, porque essa necessidade de assistir violência todo o tempo?

Para Elias, nos encaminhamos há muito para um mundo que age cada vez menos. Se olharmos a realidade medieval, ela era muito mais violenta, em vários sentidos. Era possível morrer de pestes, que implicavam em sofrimentos terríveis, erupções, mau cheiro e apodrecimento. Era possível morrer em guerras, invasões, lutas armadas que não necessariamente possuiam um grande motivo. Mas a violência não estava limitada a isso. Ela estava à mesa, onde o animal era destrinchado pelo anfitrião. Estava nas relações mais próximas com a natureza, com os nascimento e as mortes em família, no trato com os animais, com uma atitude menos cerimoniosa de lidar com o dia a dia. Esse homem medieval foi perdendo espaço, ao longo dos séculos, por um modelo de homem que não toca os próprios alimentos com as mãos, que deixa para especialistas (e por isso oculto aos seus olhos) o cuidado com doentes e a morte, e que se torna gradualmente vegetariano, pelo seu horror ao processo de feitura dos alimentos derivados de carne. Enquanto o homem medieval manifestava sem pudores o seu gosto por jogos violentos, pela guerra e pela possibilidade de matar, o homem de hoje não confessa esses prazeres nem para si mesmo e precisa se contentar em ver. A violência seria como um instinto que não pode ser eliminado e sim encontrar outro tipo de vazão.

Mas eu acho que é um pouco mais do que isso. Acho que estávamos fazendo com a violência o mesmo processo que, de acordo com Foucault, estamos fazendo com o sexo. Para esse autor, somos a única civilização que coloca o sexo como um mistério a ser desvendado. Nossa atitude para com o sexo nunca foi a de naturalidade, de indiferença. Da repressão à masturbação, da histeria das mulheres, do complexo de Édito e todas as atitudes de combate ao sexo, realizamos um movimento pendular e fomos ao oposto, onde o sexo é visto, desejado, falado, vendido em todos os meios e durante todo o tempo. Ao invés de se conter, a regra agora é fazer o máximo de sexo possível e experimentar de tudo. A produção de manuais e estudos sobre o sexo, que tinham por objetivo entender esse fenômeno, fizeram com que o sexo se tornasse cada vez maior e misterioso, como um buraco que não pára de crescer porque nunca paramos de cavar.

Eu acho que fazemos a mesma coisa com a violência – nunca paramos de cavar. Já tentamos entender as variáveis da violência, classificando-a. Distinguimos a violência gratuita, a violência premeditada, a violência com fins econômicos, a violência familiar, a violência sexual, a violência entre nações e quanto mais dividimos a violência em pedaços pequenos, ela mostra unidades ainda menores. Procuramos entender a fundo os crimes violentos, para entender a mente de quem os produz, as suas motivações, o que separa um indivíduo comum de um violento. Estamos sempre buscando essa fronteira, estamos com medo dessa fronteira. A existência de psicopatas, de certa forma, nos alivia, porque demonstra que existe um tipo de gente diferente, que já nasce violenta e pra isso não precisa cruzar fronteira alguma. Só que a idéia de ser ou não ser psicopata não nos alivia ao ponto de abandonar esse assunto. Agora queremos conhecer a mente psicopata, queremos domar o psicopata e produzimos até um herói psicopata. Herói ou não, a idéia da psicopatia, que deveria ser exceção, tem se tornado cada vez mais comum. Agora vemos tantos psicopatas nas nossas relações, nos adolescentes e nos padrões de comportamento, que já tem se discutido a idéia de que nossa sociedade é psicopática.

Propriedade privada

Antes de visitar a casa dela, eu achava que aquelas casas da revista Casa Claudia eram bonitas e chiques. Por isso posso dizer que nem estava preparada para visitar um lugar tão bonito. A casa foi construída ao pé de uma montanha e tem a vista inteira voltada a uma cachoeira, em frente a um dos parques mais bonitos de Curitiba. Móveis orientais, detalhes em cada parede, jardim de inverno, ofurô envidraçado com visão magnífica, tudo distribuido em três pavimentos integrados. Na parte da frente da casa, sacadas e varandas com toda estrutura para receber os amigos. Não é de se admirar que um dia a casa tenha sido invadida, e ela ainda teve sorte que os ladrões levaram apenas os eletrônicos. Sinal de que eram ladrões respeitadores e burros, porque os artigos de decoração e móveis valiam muito mais do que qualquer TV de tela plana.

Assustada, ela resolveu arranjar um cachorro, um filhote de rottweiller. Eles passeiam juntos no parque. E deve ter sido num desses passeios que ela travou o diálogo que a fez soltar fogo pelas ventas de indignação. A coisa chegou a mim em forma de reclamação:

– Porque esse país onde nós vivemos é cada um por si. O governo não nos dá nada, não cuida de nada, ninguém está nem aí com a nossa segurança. Você acredita que eu fui reclamar da segurança pro guarda do parque e ele me respondeu que “tem família”? Então ele não vai me proteger porque “tem família”? Que tivesse procurado outra profissão, então!

Isso aí. As classes D e E tinham mais é que dar a vida para proteger a propriedade privada das suas elites.

Best Sellers

Eu cresci numa casa cheia de livros, e não era raro que eu ouvisse o termo Best Sellers – livros que estavam há semanas na lista dos Best Sellers, um livro que era um Best Seller. Claro que eu não sabia o que queria dizer em inglês. Achei que aquilo era algum tipo de prêmio literário, um atestado de qualidade. Fiquei muito decepcionada quando soube que significava apenas Mais Vendido. Então era só isso? O livro que mais pessoas compraram, sem nenhum outro mistério? Nem ao menos delimita um padrão de escrita ; o mais vendido não quer dizer o melhor, o mais inovador. Alguns, que se vêem como verdadeiros gourmets literários, já diriam o seguinte: se é tão popular, sinal de que não é bom.

Paulo Coelho é um caso clássico. Dá para listar em ordem alfabética, cronológica e de importância centenas de autores mais inovadores, com narrativas mais interessantes, personagens mais bens construídos, nacionais ou estrangeiros, contemporâneos ou de várias épocas melhores do que ele. Dependendo que quem você conheça ou leia, de repente até o seu amigo Zé pode ser melhor do que o Paulo Coelho em um ou vários aspectos – o que não muda nada o fato dele ser o Zé e o Paulo Coelho um escritor mundialmente famoso. Pouco importa que Paulo Coelho não seja tão original, que muitas histórias sejam claramente inspiradas em parábolas orientais e só não pagam direitos autorais porque não existe direito autoral para parábola. Paulo Coelho é um dos que levam os críticos nacionais (porque ninguém diria isso lá fora) a confirmarem a idéia de que o segredo do best seller é sua mediocridade.

É só pensar um pouco pra perceber que isso não é verdade. Muitos best sellers preenchem todos os requisitos da boa literatura. Assim como existem livros bem feitos e originais que nunca passarão de poucas edições. Me parece que best sellers são fenômenos meio desconhecidos, uma surpresa, um talento. O que percebi na minha curta vida de pessoa que escreve é que é muito difícil acertar o coração do leitor. Existe uma sintonia fina entre o que é escrito e o que o público está desejoso para ler. Seja genial demais e é possível que isso soe falso, pedante. Fale apenas o trivial e é possível que ninguém se dê ao trabalho de avançar pelas linhas. Também é possível que você fale a coisa certa para o público certo, e simplesmente não seja marcante. Por isso que eu acredito que o best seller nunca é um equívoco, por mais que nos critérios gourmets possa parecer que sim.