Violência

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Só uma pessoa que não suporta ver sangue pra se dar conta de que ele está na TV o tempo inteiro. Tem sangue nos programas policiais, tem sangue nos videoclipes, tem sangue em todos os seriados americanos, tem sangue nos filmes de amor. Por falar em seriados americanos, tem seriado com psicopata de protagonista, Dexter, e seu código de ética de matar quem merece desafia e confunde a ética do espectador – pode um psicopata ser bom? Quando eu era adolescente, a última palavra em violência era um filme chamado Faces da Morte, que nada mais era do que uma coletânea de imagens reais de pessoas morrendo. Mortes naturais ou assassinatos, algumas por acaso ou simplesmente cenas de putrefação. O hit dessa série – acho que fizeram uns quatro Faces da Morte – era a cena morte na cadeira elétrica, onde era possível perceber que os globos oculares saltavam. Ver o Faces da Morte era quase como um iniciação, uma prova de força. Hoje existem outros filmes, outras provas. Se clamamos por um mundo menos violento, porque essa necessidade de assistir violência todo o tempo?

Para Elias, nos encaminhamos há muito para um mundo que age cada vez menos. Se olharmos a realidade medieval, ela era muito mais violenta, em vários sentidos. Era possível morrer de pestes, que implicavam em sofrimentos terríveis, erupções, mau cheiro e apodrecimento. Era possível morrer em guerras, invasões, lutas armadas que não necessariamente possuiam um grande motivo. Mas a violência não estava limitada a isso. Ela estava à mesa, onde o animal era destrinchado pelo anfitrião. Estava nas relações mais próximas com a natureza, com os nascimento e as mortes em família, no trato com os animais, com uma atitude menos cerimoniosa de lidar com o dia a dia. Esse homem medieval foi perdendo espaço, ao longo dos séculos, por um modelo de homem que não toca os próprios alimentos com as mãos, que deixa para especialistas (e por isso oculto aos seus olhos) o cuidado com doentes e a morte, e que se torna gradualmente vegetariano, pelo seu horror ao processo de feitura dos alimentos derivados de carne. Enquanto o homem medieval manifestava sem pudores o seu gosto por jogos violentos, pela guerra e pela possibilidade de matar, o homem de hoje não confessa esses prazeres nem para si mesmo e precisa se contentar em ver. A violência seria como um instinto que não pode ser eliminado e sim encontrar outro tipo de vazão.

Mas eu acho que é um pouco mais do que isso. Acho que estávamos fazendo com a violência o mesmo processo que, de acordo com Foucault, estamos fazendo com o sexo. Para esse autor, somos a única civilização que coloca o sexo como um mistério a ser desvendado. Nossa atitude para com o sexo nunca foi a de naturalidade, de indiferença. Da repressão à masturbação, da histeria das mulheres, do complexo de Édito e todas as atitudes de combate ao sexo, realizamos um movimento pendular e fomos ao oposto, onde o sexo é visto, desejado, falado, vendido em todos os meios e durante todo o tempo. Ao invés de se conter, a regra agora é fazer o máximo de sexo possível e experimentar de tudo. A produção de manuais e estudos sobre o sexo, que tinham por objetivo entender esse fenômeno, fizeram com que o sexo se tornasse cada vez maior e misterioso, como um buraco que não pára de crescer porque nunca paramos de cavar.

Eu acho que fazemos a mesma coisa com a violência – nunca paramos de cavar. Já tentamos entender as variáveis da violência, classificando-a. Distinguimos a violência gratuita, a violência premeditada, a violência com fins econômicos, a violência familiar, a violência sexual, a violência entre nações e quanto mais dividimos a violência em pedaços pequenos, ela mostra unidades ainda menores. Procuramos entender a fundo os crimes violentos, para entender a mente de quem os produz, as suas motivações, o que separa um indivíduo comum de um violento. Estamos sempre buscando essa fronteira, estamos com medo dessa fronteira. A existência de psicopatas, de certa forma, nos alivia, porque demonstra que existe um tipo de gente diferente, que já nasce violenta e pra isso não precisa cruzar fronteira alguma. Só que a idéia de ser ou não ser psicopata não nos alivia ao ponto de abandonar esse assunto. Agora queremos conhecer a mente psicopata, queremos domar o psicopata e produzimos até um herói psicopata. Herói ou não, a idéia da psicopatia, que deveria ser exceção, tem se tornado cada vez mais comum. Agora vemos tantos psicopatas nas nossas relações, nos adolescentes e nos padrões de comportamento, que já tem se discutido a idéia de que nossa sociedade é psicopática.

5 comentários em “Violência”

  1. Quando eu era adolescente, anos 90, exibiram Faces da Morte na minha turma. Uma de minhas colegas estava grávida, já de uns seis meses, o professor todo preocupado que aquilo pudesse ser chacante para ela, perguntando várias vezes se ela não queria ir em outro lugar, sair mais cedo, etc. E acabou que ela era a mais facinada, que não virava o rosto nem diante da cena mais violenta. Expectativa da vida e fetichização da morte presentes no mesmo momento. Acho que tanto tentamos analisar, fetichizar, transformar em divertimento, estilizar, até como forma de exorcizar o medo que temos da nossa própria natureza violenta. Parabéns pelo texto.

  2. Esse seu post dá margem para muita reflexão. A insensibilização diante o sofrimento alheio é técnica declarada do exército americano. Li num livro de Zizek uma variante soviética sobre as aplicações da tortura, através de uma injeção que dava a impressão de um sono pacífico, mas que reduzia os batimentos cardíacos do prisioneiro, causando-lhe muito sofrimento. Não havia nenhum que, ao acordar, não confessasse o que queriam que fosse confessado.

    Faces da Morte foi mesmo um ritual de iniciação para a minha geração. Tinha-se que vê-lo para ganhar a distinção de adolescente sofisticado, em contato com a mídia mais proibitiva. Isso hoje parece ingênuo, diante os video-games da ultraviolência, como o GTA. Zizek (desculpe citá-lo tanto, mas é que estou lendo o Defesa das Causas Perdidas) menciona que isso é fruto da perda da autoridade matafísica, a perda da noção do grande Outro. Sem exemplos de uma valorização suprema que justifique a nossa existência, nos rendemos ao lado bestial o qual é a única coisa da qual não temos dúvidas.

  3. Já li várias coisas sobre essa insensiblidade ao sofrimento alheio. Parece que vai na direção contrária da técnica que foi usada no Laranja Mecânica (que vi na faculdade de psico justamente pra criticar isso). Logo nas primeiras vezes que você vê algo violento, se sente muito mal. Depois acaba se acostumando e precisa de doses cada vez maiores pra sentir alguma coisa. Você leu o link que coloquei aqui uma vez, sobre a indústria do pornô? Eles sofrem desse mesmo mal:

    http://contramachismo.wordpress.com/2011/01/14/devemos-nos-preocupar-se-a-pornografia-sequestrou-nossa-sexualidade/

    Eu levantei questões que não faço a menor idéia de como responderia, nesse texto. Sei da quantidade crescente de violência, sei que ela produz uma necessidade cada vez maior de violência e reconheço que uma certa dose dela é inerente ao humano. Não gosto da direção que estamos tomando, não sei ao que ela serve, só sei que não é bom.

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