Pobreza, por Victor Hugo

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A vida para Marius ficou difícil. Comer com o dinheiro obtido na venda das roupas e do relógio não era nada. Ele se alimentou também dessa coisa inexprimível que se chama o pão que o diabo amassou. Coisa horrível, que incluiu os dias sem pão, as noites sem sono e sem luz, a lareira sem fogo, as semanas sem trabalho, o futuro sem esperança, os cotovelos rotos, um chapéu velho que provocava o riso das mocinhas, a porta que se encontra fechada à noite por não ter pago o aluguel, a insolência do porteiro e do estalejadeiro, a zombaria dos vizinhos, as humilhações, a dignidade ofendida, a aceitação dos trabalhos vis, o desgosto, a amargura, o desânimo. Marius aprendeu como se devora tudo isso, e como, muitas vezes, essas são as únicas coisas que se existem para devorar. Nesse momento da existência em que o homem tem necessidade do orgulho, porque tem necessidade de amor, viu-se escarnecido, porque estava mal vestido, e ridicularizado, porque era pobre. Na idade em que a juventude nos enche o coração de altivez imperial, ele muitas vezes baixou os olhos para as botinas furadas e conheceu a vergonha injusta e o pungente rubor da miséria. Admirável e terrível prova da qual os fracos saem infames e os fortes, sublimes. Cadinho em que o destino joga os homens todas as vezes que quer criar um patife ou um semideus.

Victor Hugo/ Os miseráveis

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