Antipsiquiatria e experiência pessoal

A antipsiquiatria foi um movimento que surgiu, como o próprio nome sugere, contra a psiquiatria. Se maiores autores foram Ssaz, Laing, Scheff e Goffman. Ssaz afirmava categoricamente que a doença mental não existe. O comportamento incompreendido de algumas pessoas as levariam a ser interpretadas como doentes e tratadas como tal por sua família, equipe médica e sociedade. O doente seria vítima de uma conspiração. Laing, ao estudar esquizofrênicos dentro da sua família, percebeu a presença do que chamou de duplo vínculo: é uma relação que gera conjunto de exigências autoritárias e contraditórias, que tornam impossível ao lado dependente responder de maneira racional. Por isso, a aparente incoerência do comportamento esquizofrênico faria sentido dentro do que lhe foi exigido no seu grupo primário. Scheff trabalha com a teoria da rotulação, que diz que um comportamento disfuncional ocorre em função do comportamento dos outros, e é a maneira como é interpretado que pode fazer com que ele seja visto como doentio. O comportamento transgressor original, que pode ter múltiplas origens (até mesmo orgânicas), faz com que lhe seja atribuído um esteriótipo patológico, que faz com que todas suas ações posteriores sejam interpretadas da mesma maneira. Por fim, Goffman, trabalha com o conceito de estigma. A sociedade é preconceituosa e trabalha em prol da desvalorização de alguns membros. Uma vez vítima do estigma de doente mental, é muito difícil se libertar.

Foi com esse pensamento que eu fui fazer estágio numa clínica psiquiátrica. Eu nem ao menos procurei por ele – uma amiga havia pedido uma vaga, arrumou coisa melhor, e pra não ficar feio me colocou no lugar dela. Eram duas alas, a de pacientes que ficam lá durante o dia e voltam para casa e a da internação. Assim que a gente entrava, tinha que ficar na Ala Dia. Ao contrário do que inicialmente parece, é na ala dia que estão os pacientes mais institucionalizados. Muita gente tem uma crise e se interna durante algumas semanas e nunca mais volta. Para estar na Ala Dia, o paciente estava diagnosticado há anos e tinha uma relação de rotina com o seu internamento. Quem estava na ala dia não tinha emprego- ser doente era seu emprego, o que ocupava seus dias de segunda a sexta. Fui para a clínica com aquela vontade que todo estagiário de psicologia parece ter: eu queria fazer a diferença. Queria fazer como nos filmes – eu encontraria um paciente largado no canto, daqueles que ninguém vê solução. Eu me aproximaria, me tornaria uma amiga e quando todos se dessem conta, ele faria progressos que ninguém nunca imaginou. Todas essas ilusões acabaram logo nos primeiros dias que passei lá.

Eram várias turmas. Uma turma gostava de ver TV, outros gostavam de ouvir rádio, alguns gostavam de desenhar, a maioria gostava de ficar sentada pelos cantos. Os estagiários – geralmente estagiárias, todas novinhas – chegavam e eram simpáticos, e algumas pessoas eram simpáticas também. Não encontrei a revolta que esperava, assim como não encontrei a vontade desesperada de ser salvo. Alguns tinham algo evidente. Lembro em especial de um que adorava conversar com as estagiárias, e logo no segundo dia já contava que andava sonhando com a gente. Talvez para observar a reação e tentar encontrar alguma acolhida, descrevia com detalhes o teor erótico desses sonhos… Na maioria das vezes era preciso conversar com a psicóloga ou ler os prontuários para adivinhar o motivo da internação. Ninguém gostava de sair conversando sobre isso, assim como ninguém aqui fora gosta de mostrar o saldo do banco em vermelho para os outros.

Foram seis meses de estágio, e nesse período não salvei ninguém. E aprendi a jogar sinuca. Ou melhor, aprendi a segurar o taco e acertar a bola, porque sou péssima em sinuca. Por entender muito rápido que não salvaria ninguém, me relacionava com eles como me relacionaria com qualquer outra pessoa aqui fora. Isso me causou uma dor de cabeça muito grande, uma única vez; no geral fez com que os pacientes gostassem muito de mim. Eu tinha uma certa vergonha da equipe médica passar por mim quando estava com o taco na mão; já os pacientes pareciam gostar muito de me ver jogar tão mal. Conversavamos sobre TV, filmes, algumas vezes sobre nada. Pra não dizer que não fiz nenhum vínculo importante, fiquei próxima de uma adolescente, pouca coisa mais nova do que eu, com o diagnóstico de esquizofrenia. A única coisa que ela tinha de diferente era ser quieta e ter um olhar vazio. Ela não parecia ter motivos pra ficar ali, e receberia alta em breve. Só que quando fui fazer estudo de caso e entrevistei o irmão dela, descobri que antes de ser medicada ela sumia de casa de madrugada, andando, e que havia ameaçado a família com um facão.

Essas experiências todas me fizeram ver o porquê a antipsiquiatria é bonita como teoria, mas que contribuiu muito pouco ou nada para ajudar a vida de doentes psiquiátricos. Porque é muito difícil lidar com alguém assim -com alguém que te ameaça comum facão, ou que assedia todas as mulheres que encontra ou que parece indiferente a qualquer contato. É fácil dizer que as pessoas precisam de compreensão; mas é difícil saber o que fazer. É preciso tanta disposição, tempo, dinheiro, abertura e a coragem que na prática talvez não seja possível. Principalmente: eu vi que receber um diagnóstico psiquiátrico realmente estigmatiza profundamente; mas, como toda estigmatização, ela oferece à pessoa um ponto de vista diferente. A partir do estigma, eles olhavam a normalidade – com todas suas cobranças, reprimendas e dores – e calculavam a validade dela. Em outras palavras, a importância de ser normal é posta em dúvida. Muitos, claramente, passaram a preferir viver do outro lado. Querer que todos adotem nossa visão de normalidade, que a felicidade está em ser produtivo e pai de família, também não deixa de ser uma forma de violência.

Sociabilidade e carros

Naqueles papéis com propagandas de apartamentos, vi um que me surpreendeu: um apartamento pequeniníssimo com duas vagas na garagem. Acho que isso mostra de maneira enfática as escolhas que temos feito e a importância cada vez maior dos carros. Não é incomum conhecer famílias com o mesmo número de carros e pessoas. Quem pode, adquire um. Em Curitiba até algumas décadas não tinha engarrafamentos e se orgulhava do seu sistema integrado de transporte. As pessoas diziam que pegar ônibus era muito mais prático. Hoje a cidade é campeã de veículos por habitante. Não é incomum ouvir seguinte queixa: “Cheguei atrasado porque peguei o maior trânsito. Por que tanta gente andando de carro?”. Só que quem diz isso também está usando o seu.

Antigamente, as famílias possuiam apenas um carro, que era de todos. Dividir um carro exige por parte das pessoas uma série de programções, ajustes e negociações: quem vai mais longe, até onde é possível mudar de itinerário, a necessidade de esperar, caronas que levam até parte do caminho. São incômodos que as pessoas aceitavam, até por falta de opção. Assim como andar de ônibus é incômodo: os bancos não são confortáveis e existe sempre a possibilidade de ficar de pé; é preciso estar ciente dos horários, dividir se espaço com desconhecidos e andar mais. Essas coisas me fazem concluir que o transporte público – mesmo que o público se limite a membros da família – aumenta a sociabilidade. Quem não tem um transporte de uso pessoal e restrito, precisa estar atento às necessidades do outros. É preciso ceder pelo bem comum, usar a solução possível. Nem que pra isso a pessoa passe a usar outra linha de ônibus, de sair num horário diferente ou até procurar formas alternativas de transporte.

Quando cada um possui seu próprio carro, não existe mais a necessidade de dividir. O carro, de longe, representa a vitória do individual sobre o coletivo, dos interesses econômicos sobre os outros interesses. Pouco importa o perigo às pessoas ou o dano ambiental que eles representam – o que importa é que quem possa comprar, tenha o seu carro. Nas relações humanas, ele dá o direito de ir e vir sem ter que comunicar nada ao outro. Não é preciso esperar ou se fazer esperar, consultar as outras pessoas e abrir mão de seu tempo e comodidade por causa delas. Ter um carro é adquirir uma independência – coisa cada vez mais valorizada nas sociedades atuais. Assim como não pensamos mais em termos de comunidade e até mesmo de vizinhança, – porque hoje ignoramos os que vivem próximos de nós – o carro diminui a necessidade de negociar dentro da própria casa.

Não é à toa que o carro represente tanto – qual a marca, qual o modelo, quanto custa? Cada modelo pretende dizer alguma coisa do seu usuário, mesmo que ele mereça o adjetivo de “aventureiro” apenas na sua fantasia ao comprar o carro. Mais importante do que ter espaço e conforto na sua própria casa, é muito mais importante que o carro tenha um lugar seguro e protegido para ficar. A pessoa se preocupa mais com quem ela é em trânsito do que dentro de casa. No mesmo sentido da história do apartamento pequeno com duas vagas de garagem, lembrei de um caso contado por uma amiga: ela foi uma vez foi num bairro pobre, num conjunto de apartamentos igualmente pobre. E se surpreendeu em ver uma BMW estacionada, que pertencia a um dos moradores. Quando comentou qual o sentido de investir num carro melhor ao invés de uma casa melhor, recebeu a seguinte resposta: “a casa a gente não sai por aí e mostra pros outros. O carro sim”.

Dois insights sobre a fama

Mozart morreu com a certeza de que tinha sido um fracasso, porque sua música não fazia sucesso no círculo que ele esperava que fizesse, a corte de Viena. Enquanto isso, em outras cidades da Europa, suas óperas alcançavam sucesso e se tivesse vivido um pouco mais, possivelmente Mozart teria sido aclamado ainda em vida. O que me parece interessante nessa história é perceber que a noção de sucesso e fama não existe de maneira absoluta; ela está ligada, principalmente, ao reconhecimento dos que nos estão próximos, ou daqueles cuja opinião valorizamos (que nem sempre são o mesmo grupo). É possível alegar que hoje, com a internet e a televisão, as coisas tenham mudado e a repercurssão nesses meios mostre a verdade. Quando lembro da surpresa da Amy Winehouse ao receber o Grammy, não me parece que as coisas sejam assim tão claras.YouTube Preview Image

O vídeo mostra a performance toda do Grammy. A partir do minuto 5:49, o anúncio do prêmio e a reação de Amy.
Pesquisas, cópias vendidas, referências no Google e todos os outros dados são apenas números. A percepção que cada um tem do seu reconhecimento é dado pelas pessoas que lhe são próximas. Uma possível fama num país distante, com pessoas que nunca vistas, é muito abstrata. Lucélia Santos, graças à primeira versão da novela Escrava Isaura, era muito conhecida na China e aqui ninguém ficou sabendo. Apesar de tantas mudanças, se sentir famoso ainda é o calor do contato humano, é ser reconhecido nas ruas e dar autógrafos. É possível que se sinta mais famoso alguém conhecido na sua cidadezinha do que um autor ou um blogueiro com muitos leitores que jamais conhecerá.

Depois de um vídeo aparecer no Te dou um dado, Lucas Celebridade realmente se tornou uma celebridade, pelo menos nos meios virtuais. Esse video gerou um vaquinha que reformou a casa dele.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a entrevista do cantor Lobão ao portal UOL. Como era um programa ao vivo, para manter a interatividade, o entrevistador Mauricio Stycer a todo instante lia mensagens dirigidas ao cantor. Todas faziam referência ao fato dele ser “muito loco”, “surtado” e coisas desse teor. O próprio cantor se irrita com isso. Então ele declara (37:08): “Você não consegue ter uma interlocução. O cara que te detesta, ele não entende porra nenhuma. Geralmente o cara que te gosta, te gosta pelo motivo mais equivocado do mundo. Então não há forma de solidão mais cruel do que estar no meio desse tiroteio.“. Ser famoso, nesse sentido, é ser também muito desconhecido. Ter o nome e o rosto reconhecido não quer dizer que as pessoas têm noção do que você faz, ter fãs não quer dizer que eles saibam realmente quem você é. Conheço uma frase, atribuida a várias pessoas diferentes – ou seja, a frase se tornou mais famosa que seu dono – que diz que a fama é uma série de equívocos em torno do nome de alguém.

Paternidade voluntária

Já escrevi aqui falando das mães, e do quanto esse papel é pesado. A paternidade está livre de todas essas sanções. É possível para o homem ser apenas doador de esperma. A partir da concepção, ele pode sumir a qualquer momento: pode não estar presente na gravidez, pode não acompanhar o nascimento do filho, pode negar a ele seu sobrenome e direitos legais, pode sumir na infância e pro resto da vida. Mesmo para aqueles que não somem, é sempre possível ser um pai que acompanha apenas os momentos gostosos, e reserva à mãe toda a tarefa desagradável de exigir limpeza, pontualidade, lições de casa, enfim, a tarefa de transformar um filho num civilizado, num cidadão. Há um episódio do New Adventuries of Old Christinne que trata disso: o filho dela passa a semana inteira esperando pelo fim de semana, quando encontra seu pai e se diverte muito. Estar com ela era fazer as coisas chatas – mas ao mesmo tempo, era estar in home.

Sou filha de pais separados e vivi algo que infelizmente é bastante comum: pais que levam os filhos a escolherem um lado. Vivi isso na minha infância, vi na infância de outras pessoas da minha família, vejo na sobrinha do Luiz. E vejo até em casais casados há muitos anos, mas que mantém o casamento por interesses muito diferentes do amor. Como os filhos geralmente moram com a mãe, mesmo sem perceber escolhem o lado dela; eles acreditam na razão da mãe ou que a família dela possui os melhores valores. Entendo que é difícil deixar de viver com alguém e ainda sentir admiração pelo outro – ou pelo menos não deixar transparecer a raiva e o desprezo. Some-se isso à tendência dos mais jovens a verem o mundo em preto e branco, com vilões e mocinhos, e está feito: o pai é o mau, o inútil, o dispensável. Em casos assim, há a tendência a passar um vida inteira de mágoa e acusação com o pai, para apenas na idade adulta conseguir ver as coisas em perspectiva. Depois, lamenta-se tantos anos de equívocos e afastamento. Acho tão triste, porque fiz com o meu e não consigo evitar que façam com os pais dos outros. Levar uma vida para entender o pai parece ser um caminho inevitável para muitos. Existe até um termo técnico para isso: síndrome da alienação parental.

É fácil se afastar sendo pai, é fácil afastar a figura do pai. Justamente por essas facilidades a paternidade assumida se torna tão bonita. Eles não precisam e podem não ser tantos quanto gostaríamos, mas existem sim pais que fazem de tudo para estar com os filhos. Pais completamente babões, apaixonados, que planejam suas vidas de maneira a estarem presentes o máximo possível. Um dia estava no ônibus e senti lagrimas saltarem aos olhos ao ver o pai com um filho – o menino, bastante desajeitado, fazia questão de sentar sozinho no banco que ainda era alto pra ele. O pai o acompanhou com olhos amorosos, e teve cuidado de deixar o menino se virar sozinho. Esse pai me fez lembrar de todo o imaginário que cerca esse papel, da mãe com suas asas quentinhas e o pai que prepara para o mundo. É um alívio uma mulher não ter que assumir tudo, e é muito bonito quando um homem se dispõe a ser essa figura.

Mozart – A sociologia de um gênio

Quando você diz que a infância tal como a conhecemos é uma construção social, que crianças já foram vistas como mini-adultos ou qualquer coisa que o valha, receberá amistosos acenos de cabeça em concordância. Experimente então dizer que ser artista é ter uma profissão como outra qualquer, o mesmo que ser policial ou vendedor. Ninguém concordará. Podem dizer que existem artistas e artistas, que o do primeiro grupo até pode ser um simples profissional, mas que o verdadeiro artista, aquele com alma e talento, não é assim. Esse é um tipo de pessoa especial, que sente de maneira diferente e por isso tem algo diferente para transmitir. Elias consegue fazer um livro muito especial ao se debruçar sobre esse tema, a construção que temos em cima da idéia de gênio artístico. E escolhe o hoje incontestável Mozart:

Sua situação era muito peculiar. Embora fosse um subordinado, socialmente dependente dos aristocratas da corte, a clara noção que tinha de seu extraordinário talento musical levava-o a se sentir igual, ou mesmo superior a eles. Era, numa palavra, um “gênio”, um ser humano excepcionalmente dotado, nascido numa sociedade que ainda não conhecia o conceito romântico de gênio, e cujo padrão social não permitia que em seu meio houvesse qualquer lugar legítimo para um artista de gênio altamente individualizado. Pode-se imaginar agora: o que isto significou para Mozart e para seu desenvolvimento em termos humanos? Claro, podemos apenas formular hipóteses; faltam as evidências (embora não inteiramente). Mas basta ter em conta esta estranha situação, de certa maneira única, para chegar à chave vital na compreensão de Mozart. Sem tal reconstrução, sem uma noção da estrutura de sua situação social – um gênio antes da época dos gênios -, nosso acesso a ele fica bloqueado.

O resultado disso é um livro interessante, gostoso de ler e ao mesmo tempo inovador. Ele pode tanto ser lido pelos amantes da música como por quem quiser conhecer os alcances de um bom estudo sociológico. Elias não usa de nenhum dado inédito para aqueles que já tiveram a curiosidade de saber sobre a vida de Mozart mais do que o filme Amadeus (que exagera a importância de Salieri e lhe coloca um papel injusto e tardio na história, pelo menos na das mentalidades) ou os pequenos resumos que acompanham CDs. Ao colocar Mozart dentro de seu contexto, e no que era esperado dentro dos vários papéis que ele desempenhava, passamos a ver de outra maneira seu relacionamento com a vida cortesã, o papel que desempenhava seu pai, as tentativas e desilusões de sua carreira como músico. Passamos a ver Mozart como alguém além do seu tempo não apenas por sua música, como também por suas aspirações artísticas.

Contrariamente à acusação usual de ver o homem de maneira distante, Elias consegue, num estudo sociológico, nos fazer entender Mozart de uma maneira mais íntima. Entendido em seu contexto, passamos a entender também as motivações de Mozart. De inconsequente, passamos a ver nele um homem arrojado, que confiava em seu talento a ponto de desafiar os caminhos tradicionais e propor (mesmo sem essa intenção) uma nova forma de expressão artística. Seu problema foi estar pouco tempo à frente do seu tempo, e a certeza do seu fracasso não lhe permitiu colher os frutos que ajudou a plantar. Beethoven, que era apenas quinze anos mais novo, alcançou em vida o status pela qual Mozart tanto lutou e jamais conseguiu obter: o status de gênio. Ele não podia alcançar uma idéia que ainda não existia. Ler Mozart através de Elias é descobrir (ou relembrar) que a crença numa sensibilidade artística especial também é uma construção histórica.

A beleza nobre

A princesinha andava de um lado para outro do terraço com os companheiros, e brincava de esconde-esconde à roda dos vasos de pedra e das velhas estátuas musgosas. Nos dias comuns, só lhe era permitido brincar com crianças da mesma condição, de modo que brincava sempre sozinha, mas o dia dos seus anos era uma excessão, e o rei dera ordens para que ela convidasse todos os amiguinhos que quisesse para virem divertir-se com ela. Tinham uma graça majestosa ao passar aquelas esguias crianças espanholas, os meninos com os chapéus de grandes plumas e curtos mantos ondulantes, as meninas segurando a cauda dos longos vestidos de brocado, e protegendo os olhos do sol com imensos leques de cores negras e prateadas. Mas era a infanta a mais graciosa de todas, e a que se trajava com maior requinte, segundo a moda um tanto pesada da época.
O aniversário da infanta

De Oscar Wilde eu li, na adolescência, O Retrato de Dorian Gray. Lembro de ter gostado muito e não ter me interessado em ler mais nada do autor, porque estava numa fase de querer devorar clássicos. Então fui sem qualquer lembrança de estilo que peguei Os melhores contos de Oscar Wilde. E me senti, invariavelmente, entrando num aniversário de uma infanta, visitando uma vida de corte, vendo as coisas na perspectiva de uma pessoa que tinha tudo: beleza, educação, bons relacionamentos, brilho próprio e genialidade. Wilde às vezes tenta em alguns momentos sair da sua posição e escrever do ponto de vista de pessoas simples, mas as descrições lhe saem vazias. Ele claramente não pertence ao mundo dos que trabalham pesado:

Todas as tardes saía para o mar o jovem Pescador e atirava a rede à água.
Quando o vento soprava de terra, ele não apanhava nada, ou pouca coisa, pois era um vento amargo de asas negras, e ondas eriçadas vinham recebê-lo. Mas quando o vento soprava para a praia, subiam os peixes das profundezas, e nadavam-lhe por entre as malhas das redes, e ele os levava ao mercado e vendia-os.
O Pescador e sua Alma

Não sei que impressão eu teria se fossem outros contos. Nessa seleção que peguei, é como se Oscar Wilde pretendesse colocar no seu trabalho uma pitada de crítica social; ele não é insensível às contradições da sua época. Mas, aos olhos de hoje, essa crítica não consegue mais do que arranhar a superfície. Talvez para sua época nenhuma solução fosse vislumbrada que não fosse uma dedicação total aos pobres, abdicar de todos os seus bens (como pretende O jovem rei). Victor Hugo, nos Miseráveis, propõe um herói assim. Oscar Wilde não é tão radical, e justamente por isso não sabe o que propor. Ninguém soube dizer ao Jovem Rei que ele, mais do que ninguém, estava em posição de tentar ajudar àqueles que sofreram para costurar suas roupas. A história d´O modelo milionário lembra contos religiosos, onde anjos vestem andrajos para ajudar os puros de coração. Por mais que n´O Aniversário da Infanta a nobreza se mostre cruel e O rouxinol e a rosa tenham levado à sério demais dois jovens enamorados, é do lado da elite que Wilde está. O pobre é o feio, o anão, a multidão furiosa. A pureza de caráter e a beleza física estão sempre do lado nobre, mesmo que sua posição de elite esteja ameaçada:

A menos que seja rico, a ninguém adianta ser encantador. O romance é privilégio do abastado, e não ofício do desempregado. O pobre há de ser prático e prosaico. Mais vale ter uma renda permante do que ser fascinante. Tais são as grandes verdades da vida moderna, que Huguie Erskine jamais compreendeu. Podre Huguie! Intelectualmente, cumpre confessá-lo, não tinha grande importância. Nunca disse uma frase brilhante, nem sequer maldosa, em toda existência. Mas era maravilhosamente bem-apessoado, com cabelos anelados e castanhos, o bem-delineado perfil e os olhos cinzentos. Tão popular entre os homens como entre as mulheres, possuía todos os talentos exceto o de saber ganhar dinheiro. Legara-lhe o pai a espada de cavalaria e uma História da Guerra Peninsular em quinze volumes. Huguie colocou a primeira sobre o espelho, a segunda em uma estante, entre o Guia de Ruff e a Bailey´s Magazine, e passou a viver com as duzentas libras anuais que lhe dava uma tia velha. Tentara tudo. Frequentara durante seis meses a Bolsa de Valores; mas que há de fazer uma borboleta entre touros e ursos? Fora comerciante de chá por um pouco mais de tempo, mas logo se cansar de pekoes e souchons. Depois, tentara vender xerez seco. Mas isso também dera em nada: o xerez era seco demais. Afinal de contas, era nada, um rapaz encantador, malsucedido, com um perfil perfeito e nenhuma profissão.
O modelo milionário

Não é à toa que tantos críticos dizem que a obra de Wilde chegou a outro patamar depois de sua prisão e a publicação de De profundis. É o próximo livro que lerei e estou ansiosa para ver o que essa mudança de universo provocou no estilo de um dândi.

Estado de espírito

Tenho sentido dificuldades imensas de postar, aqui e no outro blog. Principalmente aqui, que é menos pessoal. Passei o fim de semana envolvida no workshop de flamenco, comecei a frequentar aulas diferentes e por causa disso tudo estou voltada para preocupações mais físicas – como fazer um certo movimento de braço, de que forma colocar a minha energia, qual a distribuição de peso e outras coisas que soam bastante abstratas para quem nunca esteve envolvido em um trabalho de aprimoramento de movimentos, seja de que modalidade for.

Eu sinto claramente, em mim, no meu corpo, na minha forma de pensar, a diferença entre a inteligência exigida pela dança e a exigida nos processos intelectuais. São quase opostas, e para serem feitas com qualidade as duas necessitam de uma certa absorção. Para ler eu preciso estar tranquila, introspectiva. Meu corpo deve estar mais desligado, apto a passar longas horas mudando pouco de posição porque o foco é outro. O raciocínio deve ir a outro lugar. Quando uso a parte da dança, estou agitada e muito desperta. Minha mente está a serviço do corpo, se perguntando qual a melhor forma de fazer algum gesto, que em breve se transforma no gesto mesmo e precisa ser repetido à exaustão até o corpo entender. Reviso os passos mentalmente o tempo todo. Ir de um estado a outro é difícil – nos últimos anos, muito mais difícil do intelectual pro físico. É algo como ter que puxar de volta uma pipa que voa linda no céu para ir a escola.

Esse é meu estado atual. Como estou com dor nas costas, tenho que me voltar rápido. E depois conto as novidades.