Mozart – A sociologia de um gênio

Compartilhe este texto:

Quando você diz que a infância tal como a conhecemos é uma construção social, que crianças já foram vistas como mini-adultos ou qualquer coisa que o valha, receberá amistosos acenos de cabeça em concordância. Experimente então dizer que ser artista é ter uma profissão como outra qualquer, o mesmo que ser policial ou vendedor. Ninguém concordará. Podem dizer que existem artistas e artistas, que o do primeiro grupo até pode ser um simples profissional, mas que o verdadeiro artista, aquele com alma e talento, não é assim. Esse é um tipo de pessoa especial, que sente de maneira diferente e por isso tem algo diferente para transmitir. Elias consegue fazer um livro muito especial ao se debruçar sobre esse tema, a construção que temos em cima da idéia de gênio artístico. E escolhe o hoje incontestável Mozart:

Sua situação era muito peculiar. Embora fosse um subordinado, socialmente dependente dos aristocratas da corte, a clara noção que tinha de seu extraordinário talento musical levava-o a se sentir igual, ou mesmo superior a eles. Era, numa palavra, um “gênio”, um ser humano excepcionalmente dotado, nascido numa sociedade que ainda não conhecia o conceito romântico de gênio, e cujo padrão social não permitia que em seu meio houvesse qualquer lugar legítimo para um artista de gênio altamente individualizado. Pode-se imaginar agora: o que isto significou para Mozart e para seu desenvolvimento em termos humanos? Claro, podemos apenas formular hipóteses; faltam as evidências (embora não inteiramente). Mas basta ter em conta esta estranha situação, de certa maneira única, para chegar à chave vital na compreensão de Mozart. Sem tal reconstrução, sem uma noção da estrutura de sua situação social – um gênio antes da época dos gênios -, nosso acesso a ele fica bloqueado.

O resultado disso é um livro interessante, gostoso de ler e ao mesmo tempo inovador. Ele pode tanto ser lido pelos amantes da música como por quem quiser conhecer os alcances de um bom estudo sociológico. Elias não usa de nenhum dado inédito para aqueles que já tiveram a curiosidade de saber sobre a vida de Mozart mais do que o filme Amadeus (que exagera a importância de Salieri e lhe coloca um papel injusto e tardio na história, pelo menos na das mentalidades) ou os pequenos resumos que acompanham CDs. Ao colocar Mozart dentro de seu contexto, e no que era esperado dentro dos vários papéis que ele desempenhava, passamos a ver de outra maneira seu relacionamento com a vida cortesã, o papel que desempenhava seu pai, as tentativas e desilusões de sua carreira como músico. Passamos a ver Mozart como alguém além do seu tempo não apenas por sua música, como também por suas aspirações artísticas.

Contrariamente à acusação usual de ver o homem de maneira distante, Elias consegue, num estudo sociológico, nos fazer entender Mozart de uma maneira mais íntima. Entendido em seu contexto, passamos a entender também as motivações de Mozart. De inconsequente, passamos a ver nele um homem arrojado, que confiava em seu talento a ponto de desafiar os caminhos tradicionais e propor (mesmo sem essa intenção) uma nova forma de expressão artística. Seu problema foi estar pouco tempo à frente do seu tempo, e a certeza do seu fracasso não lhe permitiu colher os frutos que ajudou a plantar. Beethoven, que era apenas quinze anos mais novo, alcançou em vida o status pela qual Mozart tanto lutou e jamais conseguiu obter: o status de gênio. Ele não podia alcançar uma idéia que ainda não existia. Ler Mozart através de Elias é descobrir (ou relembrar) que a crença numa sensibilidade artística especial também é uma construção histórica.

8 thoughts on “Mozart – A sociologia de um gênio

  1. Olha como são os usos dos costumes linguísticos, já ia te apontando para a falha de não revelar o nome completo e o título do livro do autor, pois não sabia quem era “Elias”. (Me veio na mente Elias Canetti). A ficha caiu: claro, Norbert ELIAS. Citar pelo sobrenome.

    No ano de celebração de Mozart, acho que 2008 ou 2009, não sei, descobri que há uma turma da crítica que não acha Mozart incontestável. Muita gente esperta querendo aparecer surgiu com mil relativizações e reanálises sobre a verdadeira genialidade de Mozart, chegando à conclusão que as peças que valem são as óperas, os concertos para violino, e umas três sinfonias. Mozart não é meu músico “erudito” preferido (Bach e Beethoven), mas adoro de forma incondicional um monte de composições dele, sendo a principal esta (um link do PQP Bach em que vc pode baixar esse cd magnífico):

    http://pqpbach.opensadorselvagem.org/wolfgang-amadeus-mozart-1756-1791-os-concertos-para-violino-e-orquestra-e-sinfonia-concertante/

  2. Mozart SÓ teria feito boas óperas, concertos para violino e umas três sinfonias? Tsc, tsc, tsc… Tivesse feito apenas uma obra imortal ele já mereceria destaque. Quem me dera fizer só o que ele fez.

    Na verdade, eu deveria mesmo ter colocado Norbert Elias, pra deixar claro. Quando gostamos muito de um autor acontece uma coisa dessas, de achar que todos associam os nomes a eles.

    Ah, esses links do PQPBach! Meu aparelho de som ainda tem espaço para fita cassete, não toca mp3 e se recusa a tocar vários piratas. Os poucos links que tentei baixar, nunca tocaram lá. Tenho um estoque de coisas que gostaria de ouvir que estão na fila de espera, até que eu compre um aparelho novo. (poderia ouvir aqui, no computador, mas me recuso)Vou ficar na vontade, de novo.

  3. Pô, Caminhante! Aí também não, né. Um aparelho de mp3 mais barato deve estar custando uns cento e poucos reais. Um muito bom, com entrada para pendrive, uns 500. Quantas horas de prazer que vc se priva não abrindo mão a um gastozinho necessário?

  4. Amiga obrigada pela visita.

    Eu estou recem separada e então as vezes, eu disse as vezes fico meio down, só isso. Tenho valores nobres, mas estou achando minha vida pouco interessante até pra mim mesma.

    Mas gostei de suas palavras, beijos

  5. Pingback: O Mago | Caminhando por fora

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *