Sociabilidade e carros

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Naqueles papéis com propagandas de apartamentos, vi um que me surpreendeu: um apartamento pequeniníssimo com duas vagas na garagem. Acho que isso mostra de maneira enfática as escolhas que temos feito e a importância cada vez maior dos carros. Não é incomum conhecer famílias com o mesmo número de carros e pessoas. Quem pode, adquire um. Em Curitiba até algumas décadas não tinha engarrafamentos e se orgulhava do seu sistema integrado de transporte. As pessoas diziam que pegar ônibus era muito mais prático. Hoje a cidade é campeã de veículos por habitante. Não é incomum ouvir seguinte queixa: “Cheguei atrasado porque peguei o maior trânsito. Por que tanta gente andando de carro?”. Só que quem diz isso também está usando o seu.

Antigamente, as famílias possuiam apenas um carro, que era de todos. Dividir um carro exige por parte das pessoas uma série de programções, ajustes e negociações: quem vai mais longe, até onde é possível mudar de itinerário, a necessidade de esperar, caronas que levam até parte do caminho. São incômodos que as pessoas aceitavam, até por falta de opção. Assim como andar de ônibus é incômodo: os bancos não são confortáveis e existe sempre a possibilidade de ficar de pé; é preciso estar ciente dos horários, dividir se espaço com desconhecidos e andar mais. Essas coisas me fazem concluir que o transporte público – mesmo que o público se limite a membros da família – aumenta a sociabilidade. Quem não tem um transporte de uso pessoal e restrito, precisa estar atento às necessidades do outros. É preciso ceder pelo bem comum, usar a solução possível. Nem que pra isso a pessoa passe a usar outra linha de ônibus, de sair num horário diferente ou até procurar formas alternativas de transporte.

Quando cada um possui seu próprio carro, não existe mais a necessidade de dividir. O carro, de longe, representa a vitória do individual sobre o coletivo, dos interesses econômicos sobre os outros interesses. Pouco importa o perigo às pessoas ou o dano ambiental que eles representam – o que importa é que quem possa comprar, tenha o seu carro. Nas relações humanas, ele dá o direito de ir e vir sem ter que comunicar nada ao outro. Não é preciso esperar ou se fazer esperar, consultar as outras pessoas e abrir mão de seu tempo e comodidade por causa delas. Ter um carro é adquirir uma independência – coisa cada vez mais valorizada nas sociedades atuais. Assim como não pensamos mais em termos de comunidade e até mesmo de vizinhança, – porque hoje ignoramos os que vivem próximos de nós – o carro diminui a necessidade de negociar dentro da própria casa.

Não é à toa que o carro represente tanto – qual a marca, qual o modelo, quanto custa? Cada modelo pretende dizer alguma coisa do seu usuário, mesmo que ele mereça o adjetivo de “aventureiro” apenas na sua fantasia ao comprar o carro. Mais importante do que ter espaço e conforto na sua própria casa, é muito mais importante que o carro tenha um lugar seguro e protegido para ficar. A pessoa se preocupa mais com quem ela é em trânsito do que dentro de casa. No mesmo sentido da história do apartamento pequeno com duas vagas de garagem, lembrei de um caso contado por uma amiga: ela foi uma vez foi num bairro pobre, num conjunto de apartamentos igualmente pobre. E se surpreendeu em ver uma BMW estacionada, que pertencia a um dos moradores. Quando comentou qual o sentido de investir num carro melhor ao invés de uma casa melhor, recebeu a seguinte resposta: “a casa a gente não sai por aí e mostra pros outros. O carro sim”.

8 comentários em “Sociabilidade e carros”

  1. Eu achei muito boas as colocações do texto. E particularmente interessante essa questão das pessoas procurarem utilizar o carro para projetar uma imagem. Algumas vezes eu acho que chega a ser cômico as contradições dessa projeção da personalidade através do automóvel e da pessoa propriamente dita. Tipo ver executivos vestidos a rigor dirigindo carros esportivos ou mesmo carros off-road.

  2. É exatamente isso, Leonardo. A maioria desses casos esportivos, com trações nas 4 rodas, feitos para grandes viagens e lama, jamais sairão da cidade. A pessoa compra porque gosta da idéia e gosta que os outros a vejam assim. Como se um carro aventureiro substituisse a necessidade de uma aventura de verdade.

  3. E o interessante é que o Brasil é um dos países em que o carro tem os mais altos e absurdos preços do mundo. Semana passada mesmo vi num jornal que no Brasil, um mesmo modelo chega a custar o dobro do preço que em países como o México e Chile. Culpa dos impostos? Não, por incrível que pareça, mas por uma razão que contribui de maneira vergonhosa para a nossa tão famosa complacência étnica: a culpa é que os brasileiros aceitam a pura especulação das fábricas e concessionárias, PAGANDO os preços estipulados. Vale a pena procurar essas notícias pelo Google.

    Não tenho nem a mais remota vaidade com carros. Só comprei um por razões específicas que não eram cobertas pela pouca distância entre um local e outro da cidade onde moro. Aqui o pessoal leva a sério a “vida que exibe”, comprando carros ostensivos que estão bem acima de suas condições financeiras reais.

  4. Menina como adoro ler seus posts, muitas vezes não tenho nem capacidade para comentar. Amei sua visão sobre o status de ter um carro. Sofri muito com carros velhos, eles paravam de funcionar no farol, na saida do supermercado, eu era xingada, maltratada por isso. Um dia fiquei puta da vida e fui a pé dar aulas, sofri pra KCT, tive bolhas nos pés de andar, calos nas mãos de carregar CDs e mochilas, mas chegava na hora certinha nas minhas aulas com as minhas proprias pernas.

    Então tive tendinite e pensei não posso andar tanto assim. Ou compro um carro novo que não me deixa na mão ou largo 50% das minhas aulas.

    Resolvi encarar um carrinho novo com prestações a perder de vista e caras, e continuar com minhas aulas e minhas crianças.Concordo com vc que carro é estatus, mas meu palio basico e em promoção é minha salvação; comprei um zero que me esfola, mas que me faz chegar no lugar e na hora certa, pois onde moro tinha poucos onibus, bairro de rico, sabe como é? Tô tão feliz com ele que batizei ele de João, homenagem ao meu filho Giovanni que em portugues significa João.

    Amo seus posts, vc sabe dizer exatamente o que é a verdade. Beijos

  5. Obrigada, Heydi!

    Aqui também temos o nosso carrinho. Quis enfocar só num pedaço da questão, porque eu sei que a questão é muito maior. Falo de transportes alternativos mas na prática não é tão simples. Não é toda cidade que dá pra andar de bicicleta. Também não me arrisco a perder os dentes por aí só por querer me locomover. As nossas cidades são muito grandes e as alternativas são poucas. Isso sem falar que é preciso chegar com certa dignidade nos locais!

    Beijo pra você e pros Joões da tua vida!

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