Beleza da idade

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Ontem, dia quatro de setembro, minha mãe completou sessenta anos de idade. Ela estava aguardando ansiosamente o próprio aniversário para poder entrar na fila de idosos do supermercado sem que olhem feio para ela. Porque minha mãe não aparenta a idade que tem; ela está muito bem pra idade dela.

Quando dizemos que uma mulher até que está bem para a idade dela, de certa forma também estamos dizendo: ela deveria estar um bagaço com essa idade, mas até que ainda não ficou tão estragada assim. Exagero? Então porque ninguém nunca diz que uma adolescente de dezesseis ou uma mulher chegando aos seus trinta está bem para a idade dela? Porque a idade delas, a qualidade da sua pele, sua postura, seu físico, são os nossos padrões. É atrás dessa beleza que estamos, é dessa beleza que a mulher deve se afastar com a maior lentidão que puder. Os homens, ao procurarem uma parceira, ao considerarem uma mulher bonita, sempre olham da sua idade para baixo (ou menos do que isso). Não é apenas a mortalidade que faz com que mulheres mais velhas fiquem solteiras; não é raro que homens da geração da minha mãe procuram mulheres da minha geração para namorar. As mulheres não conseguem ignorar esse fato e se deixam escravizar pela indústria da beleza, que promete apagar rugas com cremes, levantar com silicone e endurecer com exercício.

Corpos mais velhos contam histórias. Eles nos mostram que músculos a pessoa mobiliza quando sorri, se tem um cacoete de contrair as narinas pra cima ou se fica muito tempo preocupada. Os seios dizem se amamentaram, a pele da barriga mostra se acomodou mais de uma criança. Estamos longe da época que as pessoas usavam perucas brancas e tentavam parecer mais velhas. Hoje consideramos todas essas marcas feias e vergonhosas. Então a mulher precisa fazer de tudo para apagar o seu próprio mapa, para lutar contra a tendência natural do corpo de exibir o registro do que lhe aconteceu. Queremos que uma mulher cheia de história tenha o mesmo aspecto daquela que ainda não viveu nada. E que não tem nada para nos dizer, na maioria das vezes.

Vocês poderão me dizer que um corpo velho não é desejável. Que a pele lisa e macia é indiscutivelmente mais atraente. E eu posso responder que valorizar uns aspectos em detrimento de outros é histórico e cultural, que nem sempre foi assim. Infelizmente, o sentido de gosto, beleza e libido são das coisas mais profundas de cada um. Um simples gesto de vontade – ou de conscientização – não é capaz de modificar as construções históricas que nos levaram a ver o corpo feminino da maneira como vemos hoje. Mas esses argumentos – sobre o corpo jovem ser claramente mais desejável – apontam numa direção importante: julgamos um corpo pelo sexo, como se ele fosse apenas sexo. Para tornar o corpo mais sexual, facilmente o retalhamos, tornamos menos funcional, prejudicamos sua saúde. Como se o corpo fosse um bem material como qualquer outro. Não é apenas a história das gerações passadas que estamos dispostos a apagar do nosso presente – queremos apagar a própria história dos nossos corpos.

7 comentários em “Beleza da idade”

  1. Eu acho que também a questão das pessoas verem muitas vezes a velhice com a ante-sala da morte… desse ponto de vista acho que renegar a velhice pode ser um modo de evitar ter que reconhecer que cada vez estamos mais perto do fim da nossa existência.

    Nos homens você vê muita essa questão da recusa em envelhecer, quando você vê um velhinho que insiste em fazer certos esforços físicos que ele já não aguenta ou no modo como os homens tendem a fugir do médico para não ter que admitir que já não pode mais fazer certas extravagâncias.

  2. Sabe um corpo qdo envelhece, envelhece por dentro e por fora. Perdemos nutrientes valiosos para nossos orgãos. De nada adianta passar um creme a base de colágeno pra retardar as rugas enquanto seu figado envelhece pelo mesmo motivo.

    Tenho 46 anos e ja entendi que não sou mais “jovem”, é preciso saber envelhecer. Vejo mulheres com rostos esticados, peitos empinados aos 60 anos. A beleza é um conjunto de tudo que vc tem e é e não de partes isoladas.

    Belo texto, beijos

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