Amor de filme

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Um homem solteiro e uma mulher solteira, que não se conheciam ou nutriam de grande antipatia mútua, passam um período ligados por um compromisso importante. O que no início era uma tortura, com o convívio se torna amor. Qual o nome do filme? Qualquer um, porque essa é a essência de quase todos os filmes românticos. Não chega a ser uma ironia, acreditar que o amor pode surgir de um convívio sem escolha, nós que vivemos na época de maiores escolhas de parceiros? Não temos mais que casar em função de um sobrenome ou com parceiros escolhidos por nossos pais. Às mulheres, a liberdade econômica permitiu escolher um parceiro que lhe agrade, e não apenas que lhe garanta a sobrevivência. Graças à internet e às redes sociais, podemos entrar em contato, por dia, com muito mais pessoas do um homem medieval durante sua vida inteira. Quando alguém nos diz que o amor surge no convívio, como aconteceu com nossos antepassados, achamos pequeno; não permitimos mais qualquer interferência na escolha do parceiro – mas na hora de ver uma história de amor, nos emocionamos com casais que não se escolheram.

Uma visão pode ser a de que as pessoas não escolheram, mas que existe uma escolha. Essa escolha seria a do Destino. Isso retiraria a gratuidade do encontro. Os conflitos seriam superficiais; as pessoas envolvidas foram feitas uma para a outra e não percebem. Ou seja: os critérios que usamos para escolher os nossos parceiros são errados, ou não alcançam a essência. Ao buscar alguém de hábitos e idéias parecidas, estamos escolhendo algo que não reflete nossas reais necessidades. Quem sabe o que há por detrás da aparência é alguma coisa maior do que nós. Outro modo de ver a questão, é que homens e mulheres, se pudesse se conhecer em profundidade, se envolveriam com pessoas que elas nem imaginam. Nesse sentido os filmes românticos estariam propondo ao expectador sair da sua zona de conforto, que o que ele precisa não tem a ver com que ele acha que precisa. Viver um grande amor, mais do que encontrar a pessoa certa, seria se colocar na atitude correta: enfrentar o desconhecido, até se familiarizar e aprender a amá-lo. Uma atitude parecida com as dos nossos antepassados, pensando bem.

Talvez o problema esteja justamente no nosso imenso poder de escolha. Entrar em contato, ter milhares de amigos e seguidores, não é o mesmo que conhecer. Sabemos muito pouco daqueles com quem convivemos, vemos muitos rostos e quase todos eles não nos mostrarão muito mais do que isso. É tão fácil arranjar novos amigos, que frente à qualquer contrariedade basta apenas ir para outro. Não existe a necessidade de suportar alguém que tenha qualquer hábito irritante. Uma crônica bastante clara disso é o seriado Seinfield, onde os próprios personagens se impressionam com as pessoas que descartaram das suas vidas por motivos fúteis: porque gostava de um comercial idiota, tinha as mãos muito grandes, falava de si na terceira pessoa, não ria das piadas, etc. Como disse Bauman, ao escolher alguém, fazemos com base no presente. Ignoramos o futuro e mesmo assim o comprometemos. Hoje o nosso futuro é algo muito fluido. Como nos surgem tantos contatos diariamente, é muito difícil firmar esse compromisso.

1 comentário em “Amor de filme”

  1. Sei que teu post não é sobre isso, mas ele me deixou pensando sobre os amores que surgem pela internet. Tenho um casal de amigos que se conheceu pela net, conversaram, foram “se conhecendo”, estão casados há 7 anos e esperando o segundo filho. Se tivessem se visto ao vivo, primeiro, possivelmente não estivessem juntos. Um não fazia o tipo físico do outro.

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