De volta ao básico

Estou lendo David Copperfield e não farei outra crítica a Charlles Dickens. Essa segunda leitura me fez entender melhor algumas críticas ao autor: pieguismo, visão maniqueista dos personagens, repetição de temas, crítica superficial às condições da sua época. Mesmo que duas leituras já me tornem capaz de saber onde está o vilão antes mesmo dele começar a vilania, mesmo que as desventuras de Copperfield desde a tenra idade sejam tão exageradas que eu não fui capaz de derramar uma lágrima (e sou uma leitora vergonhosamente emotiva), é um livro maravilhoso. Ele domina aquela arte mais sagrada da literatura, que é a capacidade de emocionar o leitor. Numa época que o bacana é procurar inovações na linguagem, nada como ler alguém que procura ser agradável e acessível.

Será possível que, hoje, no momento em que surge diante de mim, tão nitidamente como pessoa que eu reconhecesse na rua cheia de gente, o rosto de minha mãe já não exista mais? Sei que ela se foi, que não é mais deste mundo; mas, ao falar de sua beleza inocente e infantil, posso acreditar que ela tenha desaparecido para sempre, embora ainda sinta em mim seu hálito suave, como senti naquela noite? Será possível que minha mãe tenha morrido, quando a minha memória evoca-lhe a existência sempre assim, e meu coração, fiel às recordações da mocidade, conserva vívido o que então acariciava?

A escolha de Margarida

Esse é um desenho muito antigo, de 1947. O ponto alto da história é quando Margarida tem que escolher (5:40) entre o bem coletivo – e do próprio Pato Donald – e o seu, e não hesita em querer fazer o que é melhor pra ela. Não tem como não se identificar.

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Quando penso na quantidade de pessoas que morreram por causas – fiéis, revolucionários, sufragistas, comunistas, grevistas, etc. – me parece que escolher o bem coletivo está fora de moda. É demodé. A hegemonia das explicações religiosas acabou há muito tempo, pelo menos no ocidente. Pela política também não vejo sacrifícios – alguns ainda se dizem marxistas durante a faculdade, fazem parte de centros acadêmicos e dormem em reitorias, mas nada que a necessidade de trabalhar não cure. Pelo meio ambiente estamos dispostos a usar sacolas diferentes e olhe lá. Não lutamos como outros já lutaram, porque em retrospecto não parece que valeu a pena. As revoluções prometidas não aconteceram, ou tomaram rumos indesejados. O sentimento reinante é de apatia. Como Margarida, socamos a mesa para dizer – Eu, eu, eu, eu!

Viúvas na Índia

Li o Mahabharata porque cresci admirando o hinduísmo. Esse livro representa para os indianos o mesmo que a Bíblia para o resto do ocidente, com a vantagem de ser muito mais interessante. Uma das muitas histórias da complexa trama familiar do Mahabharata é a do rei Pandu.

O rei Pandu estava na floresta quando viu dois cervos se acasalando. Ele os acerta com as suas flechas. Só que o cervo, na realidade, era filho de um poderoso asceta. Ele (o filho) e sua esposa haviam se transformado em cervos pra ter um filho. Indignado com a crueldade do rei, o sábio/cervo lhe rogou uma praga: que no dia que Pandu cedesse ao seu desejo sexual, morreria. Desesperado, o rei decide viver sozinho na floresta. Mas suas duas esposas, Madri e Kunti, decidem acompanhá-lo e viver também uma vida de austeridade. A Rainha Kunti havia recebido do sábio Dvrvasa o dom de invocar um semi-deus e ter filhos através dele, e o uso desse dom permitiu a ela e a Madri continuar a linhagem dos Pandavas. Mesmo sendo uma pessoa de grande bondade, sabedoria e controle, o rei Pandu era humano*…

A floresta amável estava viva, com frutas e flores a desabrochar, e palmeiras, esplendorosos caramanchões, manga e campaka celestial. O cenário colorido cintilava com o frescor da Primavera, rios e lagos cheios de lotus, e enquanto Pandu contemplava a floresta, o intrometido Cupido surgiu em seu coração.

Vestida em trajes brilhantes, Madri viu Pandu desportivo como um semideus, sua bela face inspirava afeição, e ela seguia atrás dele. Pandu observava sua jovem esposa, em seu fino vestido, caminhando ao longo, e seu desejo agora crescia como um fogo que arde das profundezas do seu combustível. Sozinho com Madri naquele vale isolado, Pandu viu o mesmo fogo queimando no coração de Madri, e ao fixar-lhe nos olhos amáveis, ele não pôde controlar seu desejo, pois tomara conta de toda sua vida.

Nessa floresta secreta o monarca segurou sua esposa à força. A deusa torceu-se e lutou com toda sua energia para impedi-lo, mas o desejo já o havia possuído, e Pandu nada lembrava da maldição. À força ele foi para cima de Madri no ato de amor.

O rei morre logo depois de satisfazer seu desejo e Madri assume a culpa de tê-lo feito ceder – quem mandou ser tão jovem e bonita? Então, pede para Kunti cuidar dos seus filhos e decide se juntar ao rei na pira funerária.

O problema é que por fazer parte de um livro sagrado, essa história passou a servir de modelo e inspiração. Na Índia é costume que as esposas sejam queimadas ao lado do marido. Tenho certeza de que é para repetir o sacrifício da rainha Madri.

* A descrição que tenho, de Willian Buck, não comete a liberdade imperdoável de colocar o Cupido no meio da história. Mas esta é melhor.

Morte e cegueira

Não sou uma grande leitora de Saramago. Tentei várias vezes ler Memorial do Convento, até que me convenci de que o livro não me conquistaria. No Evangelho Segundo Jesus Cristo não cheguei até o fim. Não é que o livro não seja interessante, o problema é o tema. Li para saber porquê de tanto escândalo sobre o seu conteúdo. À medida que a história – verossímil e bem construída – avançava, me dei conta de que a figura de Jesus me interessa tão pouco que o livro não me valia só pela polêmica. O que li com profundidade porque citei na minha dissertação foi Ensaio sobre a cegueira. E agora, As intermitências da morte.

Esses dois livros começam com um argumento em comum, com um questionamento simples levado às últimas consequencias: e se de repente ficássemos todos cegos? E se de repente as pessoas parassem de morrer? E é assim que os livros começam, logo no primeiro parágrafo de Intermitências e no segundo de Ensaio:

No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nem nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequente em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia.

***

O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecanico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o transito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.

Ao contrário da cegueira, que é encarada como um mal assim que surge, a morte revela sua importância à medida que se faz cada vez mais ausente. Nos dois fenômenos, a mesma falta de explicação. E mesmo se levantadas algumas explicações – vírus, greve, castigo? – elas não esclarecem nada, porque diante de calamidades as explicações pouco importam. A visão é o sentido que nos faz perceber as coisas à distância, a capturar a informação que está distante; de maneira semelhante, o Ensaio sobre a cegueira fala pouco de um quadro amplo, que é muito mais imaginado. Ele conta como a cegueira atinge uns poucos personagens, que são trancafiados e têm suas vidas transformadas; o conhecimento deles apenas nos deixa adivinhar o que a epidemia está fazendo aos outros. No caso da morte, ela é um problema coletivo, e o livro narra o que se passa em esferas governamentais. A ausência da morte interfere em questões de segurança nacional, na autoridade, na economia e no bom funcionamento das instituições.

Nos dois casos, a organização social entra em colapso. É preciso, antes de tudo, ser pragmático; o homem em crise é um outro homem. A necessidade de sobreviver ao extraordinário revela o lado feio das relações humanas. Surgem então novas regras, novas forças, novas organizações. Os que já eram cegos passam a ter vantagem sobre aqueles que acabaram de perder a visão, e usam desse poder para obter regalias e controle sobre as mulheres (para muitos, o momento mais pesado do livro). O governo do país que não morre se vê amordaçado por anônimos se organizam no controle da morte, que se torna uma mercadoria à medida que não pode ser obtida naturalmente. Nos dois livros, Saramago parece nos dizer que o que somos é frágil e contingente; qualquer alteração no que estamos acostumados pode destruir séculos de civilização. E o que está por detrás dessa civilização é egoísta e violento.

Joe Gargery

Eu cheguei ao Grandes Esperanças de Charles Dickens através do post do Milton, e principalmente por causa dos comentários da Nikelen. Diante do que eles disseram, me sinto tão obtusa e constrangida quanto Joe Gargery, o ferreiro ignorante e amoroso. Nada tenho a declarar sobre o autor estar abandonado e qual legado ele nos deixou; se fosse escrever sobre a importância de Dickens como primeira celebridade literária, teria que copiar os comentários da Nikelen. A crítica que tenho a fazer sobre o livro é apenas um entusiasmado Estou adorando.

O livro me pegou de jeito, como pegou as pessoas que o leram na época sua época. Termino cada capítulo ansiosa pelo seguinte. Rio das muitas ironias do livro, me comovo com os momentos emotivos, me indigno com as injustiças. Ou seja, sou uma leitora-joguete, o autor tem me conduzido como quer. Pip tem a trajetória clássica do herói, a mesma tradição que também abarca Luke Skywalker e Harry Potter: cresce como orfão e mais tarde tem acesso a todas as oportunidades que sonhava antes. Na sua passagem do mundo pobre para o mundo rico, vemos apenas sorte, talvez destino. São mundos imensos, injustos e inconciliáveis. Mas tudo é colocado em meio a uma história tão boa que…

Este trecho, de Joe Gargery, exemplifica o que acabei de dizer. É a despedida do primeiro encontro entre ele e Pip, depois que o último começou a ser educado como cavalheiro. Antes única fonte de carinho e amizade de Pip, Joe passa a representar um passado constrangedor. Esse momento representa uma mistura tão grande de sentimentos: imaturidade, gratidão, amor, embaraço, distância social. E termina profundo e comovente, com as palavras de Joe:

Pip, velho amigo, a vida é feita de despedidas. Um é ferreiro, o outro é funileiro, o outro é ourives e alguém é caldeireiro. Essas divisões sempre vão existir, e devem ser tratadas assim como são. Se saiu alguma coisa errada hoje, a culpa foi minha. Tu e eu não podemos ficar juntos em Londres. Nem em lugar nenhum, a não ser na intimidade, no conhecimento e na compreensão dos amigos. Não é que eu seja orgulhoso, mas é que eu quero agir certo, e não quero me ver mais nestas roupas. Eu estou errado nestas roupas. Eu estou errado fora da ferraria, da cozinha ou do nosso pântano. Tu não perceberias em mim nem a metade do que percebeste se me visse com as minhas roupas de ferreiro, com o martelo na mão ou mesmo com o cachimbo. Se algum dia quisesses me ver e fosses me espiar pela janela da ferraria e visses Joe, o ferreiro, na velha bigorna, no velho avental chamuscado, grudado no velho ofício, com certeza não perceberias tantos defeitos em mim. Eu sou muito ignorante, mas espero ter feito com isso alguma coisa certa. E Deus te abençoe, velho Pip, querido camarada. Deus te abençoe!

p.254

Calças

Há uma passagem na Bíblia que diz que as mulheres não devem se vestir como homens. Quando penso nisso, sempre me parece que Deus está reprovando, antecipamente, algumas personagens de Shakespeare. Essa condenação faz com que certas igrejas proíbam suas fiéis de usarem calças. E de terem o cabelo curto. A união de cabelo longo e saia – nunca acima do joelho – faz com que as crentes sejam reconhecidas de longe. Não adianta argumentar que há muito tempo as calças se tornaram uma roupa unissex (o cabelo, há menos tempo), porque na época bíblica não era. O que veio depois foi uma desobediência.

Não são apenas as mulheres que podem causar desgosto quando colocam calças. Isso acontece também com os índios. Equipes de TV gostam que eles coloquem pelo menos shorts, para não exibirem em horário nobre o que entendemos como indecente. Por outro lado, eles não devem cobrir muito mais do que isso, porque nada irrita mais do que um índio vestido. Índios de jeans, usando talheres e falando no celular faz as pessoas pensarem que eles já não são tão índios assim, que não há porque protegê-los, que eles são brasileiros iguais aos outros. Por causa disso, quando precisam reivindicar seus direitos, os índios se vestem de maneira tradicional – nus, corpos pintados, adereços artesanais. Senão, sua diferença cultural não é reconhecida.

A roupa é uma forma de comunicação. Ela mostra de maneira imediata e não verbal que as pessoas compartilham da mesma cultura. O vestuário, a moda, refletem o estilo de vida daqueles que o produzem. As roupas falam do que consideramos público e do que consideramos privado; o que deve ser escondido e o que deve ser apenas insinuado; como entendemos as diferenças entre os sexos, entre as gerações, entre os diferentes momentos da vida. O ato de vestir – ou despir – é uma atitude comunal. Ao entender que um período – de roupas, de música, de costumes, de qualquer coisa – deve ser mantido, tentamos engessar a história. Uma roupa fora do seu contexto é sempre desconfortável. Obrigar alguém a se vestir diferente, é privar a pessoa do anonimato daqueles que estão bem situados. Dizer que mulheres e índios não devem usar calças, a torna um símbolo de masculinidade e civilização. E demonstra os tabus que ainda temos em torno dos dois conceitos.