Libido

Compartilhe este texto:

Para Freud, toda libido é sexual. Esse ponto da sua teoria foi contestado por uns discípulos e aceito por outros. Na psicanálise de raiz, o sentimento de prazer estético, o amor platônico, o interesse intelectual e qualquer outra forma de prazer que não envolve sexo seria apenas o desvio dessa libido. O mesmo desvio que nos permitiu a civilização. Por modificar a libido, tiramos o prazer derivado da manipulação dos nossos corpos e dos corpos dos outros, atrasamos a satisfação dos sentidos, aprendemos a sentir prazer sem sexo. Às vezes tão sem sexo – que estaria somente muito bem reprimido – que nem parece que um dia houve sexo ali, e a própria idéia de que lá existe sexo nos parece ofensiva. Quanto mais repressão, mais civilização.

Marcuse pegou a questão da libido freudiana e procurou atualizar o raciocínio. A questão de ser ou não sexual em sua origem é de uma importância menor. O desvio da libido e o atraso da sua satisfação teria atingido, nas sociedades capitalistas modernas, um grau imprevisto. Teríamos reprimido tanto a libido que ela nunca encontra satisfação. A libido, quando reprimida até certo ponto, causa prazer. A tensão a ser liberada se torna maior, e por consequencia a sensação de alívio também. Só que se a tensão nunca é relaxada, ela se torna algo doloroso. A lógica de mercado, com sua disputa e competição infinitas, teria contaminado nossa forma de ser. O resultado disso é uma incapacidade de diminuir a tensão e de libertar a libido. Restringimos o erótico ao sexo, enquanto prazer é muito mais do que isso. Reduzir o prazer sensual (ou físico, ou erótico) a sexo nos tornaria cada vez mais incapazes de vivenciá-lo na forma de beleza, arte, convívio. A mais-repressão teria nos transformado em máquinas que nunca desligam.

Tenho uma teoria pessoal que diz a base de problemas de obesidade mórbida, sexo compulsivo, visão distorcida do próprio corpo, dentre outros, estão nesse fenômeno que Marcuse aponta. A raiz desses males, pra mim, é a incapacidade de ter no seu corpo uma fonte ampla de prazer. Quem me ensinou isso foi a dança e – por que não? – algumas aulas de academia. Existe um conhecimento dentro da pele que não pode ser transmitido em palavras. Um conhecimento rico e amplo, que abre nossa visão, que nos coloca no mundo de maneira que o conhecimento puramente filosófico não é capaz. Esse conhecimento físico só pode ser vivenciado e cultivado de maneiras igualmente físicas. Para os de fora, pode no máximo ser assistido, constatado ou admirado. A incapacidade de colocá-lo por escrito tem feito com que os que se dedicam a ele sejam simplesmente visto como burros. À exceção de algumas profissões – geralmente mal remuneradas – conhecer o próprio corpo é apenas um acessório. A falta de uma cultura letrada é considerada uma vergonha, enquanto a falta de inteligência corporal é apenas uma característica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *