Quase tudo, Danuza Leão

Eu segui meu próprio conselho e peguei uma biografia pra ler. Escolhi a da Danuza por dois motivos: ela escreve bem e foi mulher de Samuel Wainer, editor do jornal Última Hora, ex-reporter responsável pela reeleição de Vargas e inimigo de Chatô. Sobre esse assunto em particular, Danuza é vaga e conta que na época não tinha o menor interesse em política, que ela não tinha muita ciência do que estava acontecendo, porque sempre havia algo acontecendo. Por já conhecer a autora, o livro atendeu minhas expectativas: uma leitura leve, interessante, recheada de curiosidades e nomes famosos. Danuza fala dessas coisas sem se deslumbrar, como quem já viu de tudo. Tenta nos dar a entender que ela é uma mulher de sorte, que apenas estava no lugar certo e na hora certa. Mas com tantos convites, festas, novas carreiras e paixões, a gente conclui que ela é uma mulher interessantíssima e muito capaz.

O livro mostra um mundo da qual apenas ouvimos falar, onde as pessoas são importantes se conhecem, resolvem dar um tempo e passam meses em Paris, participam de acontecimentos históricos quase sem querer e ganham carros de presente. Mas mesmo a essas pessoas, a parte dolorosa da vida chega e o livro muda de tom quando Danuza enfrenta a morte dos que mais ama: seu pai, Samuel Wainer (a quem sempre esteve ligada, mesmo depois da separação), sua irmã Nara e seu filho Samuca. Aí a pessoa tímida que ela jura que sempre foi começa a aparecer e Danuza precisa se reconstruir. Será que é apenas aí que ela atinge a sabedoria ou algo já estava sendo gestado no meio a tantas festas?

À tarde, chega no meu hotel uma imensa caixa da Chanel, com o vestido mais lindo que já vi: a saia toda de pétalas de organdi branco, o corpete de tafetá preto; o cinto, apenas uma fita de cetim preto com um laço e uma camélia, um luxo. A partir desse momento, o concierge do hotel começou a me tratar muito melhor, cheio de sorrisos e salamaleques – sabe como eles são. E Lily (Marinho), que vai até o fim das coisas, me mandou, de quebra, seu colar de esmeraldas com os respectivos brincos e anel – emprestados, claro. Eu me senti uma princesa, e dei graças por ainda ter o mesmo corpo de quando era manequim, ou o vestido não serviria.
No baile, eu era a mais chique – ou uma das – , mas só eu sei o que passei. O medo de quem pingasse uma gota de champanhe no vestido me impediu de me divertir, e de dois em dois minutos eu botava a mão na orelha pra ver se o brinco não tinha caído. Nunca sofri tanto. Quando voltei para o hotel, tirei cuidadosamente a roupa – quase acomodei o vestido na cama e dormi no chão, para não amarrotar -, guardei as esmeraldas e fiquei olhando para todo aquele luxo. Lá no fundo talvez eu achasse que, o dia em que uma mulher vestisse um lindo vestido de Chanel e usasse esmeraldas, tudo mudaria, ela passaria a ser outra, mas a verdade é que nada muda e você volta a ser a mesma pessoa de antes. E pensei que, mesmo adorando essas coisas maravilhosas – que, aliás, adoro -, não vale a pena fazer nenhum tipo de conecessão para tê-las, pois, quando a festa acaba, nada disso quer dizer nada, e nenhuma festa dura para sempre.
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Apesar de ter encontrado outra forma de viver e se sentir mais equilibrada, o livro termina num tom de tristeza, de fim de festa. Apesar de admitir seus erros e suas plásticas, dá a impressão de que a sabedoria veio forçada, apenas porque os amigos e a fase interessante passaram. Em algum lugar, a verdadeira Danuza continua linda e casada com Samuel.

As emblemáticas mulheres de Mad Men III

* Contém spoilers. Leia também Betty (parte I) e Joan (parte II)

Peggy

Ela diz para si mesma que quer casar, como qualquer outra moça da sua idade. Só que ela tem feito de tudo para evitar que isso realmente se concretize. Não sabemos até que ponto ela é consciente disso, apenas sabemos que ela deixa as oportunidades passarem – ou se livra delas – cada vez que precisa fazer uma escolha. Foi assim com a gravidez que levou em segredo, foi assim com o namoro sério que estava tendo com Mark. A série começa com a chegada de Peggy à Sterling Cooper, para ocupar o cargo de secretária de Don. É através dela que passamos a conhecer os personagens e aquele mundo pouco a pouco nos é revelado. O senso de oportunidade e a inteligência fazem com que Peggy rapidamente deixe de ser uma simples secretária e se torne braço direito de Don. Não é exagero dizer que ela é a versão feminina dele, que também é dela que a série se trata.

Peggy é um patinho feio. Ela não apenas não chama atenção pelos seus atributos físicos como se veste e se comporta de maneira recatada. Alguns tentam ajudá-la, ao dizer que uma mulher precisa estar bonita e feminina para vencer; outros, mais cruéis, a chamam de nazista, fria, feia, recalcada, old fashion. Quando ouve de alguém que é atraente, Peggy duvida. Suas maneiras mais recatadas combinam com sua origem suburbana e católica, com a qual ela tem uma relação conflituosa. Mas também são uma escolha, uma estratégia para lidar com o machismo a sua volta. Peggy quer ser vista como uma profissional e sabe que papel os homens com quem convive esperam das mulheres. Ao se tornar a primeira mulher redatora, ela rompe com todas as expectativas a seu respeito. Ela deixa de pertencer ao mundo das mulheres e não é vista como homem. Isso a torna detestada pelos dois grupos. A saída para lidar com esse ambiente hostil é ser ainda mais competente, trabalhar mais do que qualquer um à sua volta, ser mais rigorosa do que todos os seus colegas. Os outros podem aproveitar; ela tem consciencia da fragilidade da sua posição. Mesmo com todo esse cuidado, atribuem sua promoção ao fato de ter dormido com Draper. Ele a vê como uma amiga e uma extensão de si mesmo; ela não consegue deixar de se sentir pouco atraente por ele jamais ter tentado alguma coisa a mais.

De todas as mulheres da série, Peggy é que encarna melhor os conflitos que se tornariam comuns às mulheres atuais. Ela valoriza o modelo tradicional da feminilidade, que espera que as mulheres sejam bonitas, uma beleza buscada em função de ter valor para os homens. Só que um dos atributos dessa feminidade é a capacidade de ficar atrás – a grande mulher está sempre atrás do grande homem, nunca ao lado e muito menos à frente. Ao recusar esse papel secundário, Peggy sente que comprometeu também sua feminilidade. Ela não quer escolher entre respeito profissional e afeto. Na falta de um modelo que abarque as duas coisas, Peggy acaba desbravando novos caminhos. Gradualmente, abandona os valores da sua família, mesmo depois de ter tentado com sinceridade voltar a frequentar a igreja. Ela se muda para Manhattan com a justificativa de que fica mais fácil ir ao trabalho, mas a verdade é que ela quer ser diferente, ela quer muito mais. Mesmo ambiciosa, ela é uma das poucas que não está disposta a tudo para subir, que não usa as pessoas. Com os homens, ela faz sexo por amor ou por diversão, jamais por interesse.

Nas quatro temporadas, ela é o personagem que mais se modificou. Ela inicia a série caipira, inadequada, grávida de uma relação ocasional. À medida que avança, ela se torna capaz de absorver e aproveitar as oportunidades que aparecem. Mesmo mantendo o estilo discreto, ela passou a se vestir melhor. Quando sua posição profissional fica mais consolidada, ela se tornou menos rígida e se mostrou à altura de lidar com o machismo dos colegas. Seu jeito sério aliado à vontade de conhecer o novo renderam momentos engraçados, como quando pede para experimentar maconha ou trabalha nua ao lado de um colega que a acusa de repressora. Peggy se torna cada diz mais interessante e inesperada. Ela pode se tornar uma ambiciosa publicitária assim como pode continuar uma das poucas pessoas éticas da série, quase um símbolo. Só o desenrolar da trama responderá.

As emblemáticas mulheres de Mad Men II

* Contém spoilers. Leia também Betty (parte I) e Peggy (parte III)

Joan

Assim como Betty, a primeira coisa que chama atenção em Joan é sua beleza. Mas enquanto Betty tem uma beleza clássica, delicada, Joan transpira sensualidade. Seus seios enormes não permitiriam uma mulher passar desapercebida, e Joan não quer passar desapercebida – ela tem consciência do seu poder e faz questão de usá-lo. Num local onde as mulheres só ocupam funções tradicionais de apoio – secretárias, recepcionistas, datilógrafas, etc – e onde a subserviência profissional se mistura à sexual, era claro que uma mulher tão provocante seria amante de alguém. Em pouco tempo, descobrimos quem é o privilegiado: Roger Sterling, o homem mais poderoso do escritório, um dos donos da agência. Joan escolheu um homem proporcional ao preço que tem.

A partir daí é possível perceber que Joan usa o sexo como moeda de troca, que usa a aparência a seu favor. Ela é uma das personagens mais misteriosas de Mad Men; nada sabemos sobre sua origem ou sua família. Quando a série começa, Joan já é uma mulher segura, ciente das regras, sem ilusões a respeito do mundo machista em que vive. Não sabemos de onde ela tirou tanto know-how, podemos apenas adivinhar que um dia ela também já foi ingênua. Com outras mulheres, sua atitude é agressiva e competitiva, até mesmo maldosa. Ela não apenas não é amiga de ninguém, como é incapaz de acreditar nas boas intenções delas. É sempre com os homens que ela mostra seu lado benevolente; deles, espera que cedam com facilidade a qualquer pedido seu. Ela nunca é incisiva, sempre insinuante. Ela representa que o poder que as mulheres sempre tiveram nos bastidores, entre amantes, nos pedidos sussurrados ao pé do ouvido. É um poder que não consta em memorandos, que não pode ser declarado publicamente e nem fica registrado em biografias. O que não quer dizer que não seja eficiente.

Só que esse recurso feminino às vezes se volta contra a própria Joan, que tem dificuldade em ser levada à sério. Ela é competente e organizada no que faz, e possui grande habilidade interpessoal. Ela atua tão bem nos bastidores que seu trabalho custa a ser reconhecido. Sua aparência serve de desculpa para desmerecerem o que ela faz, como se por trás não houvesse dedicação e trabalho duro. Isso fica bastante claro quando ela ajuda informalmente no fortalecimento do recém-criado Departamento de Televisão. Nesse curto período, leva lê roteiros em casa, tem idéias, ajuda a conquistar os clientes. Quando sua função se torna importante demais para ser informal, criam um cargo e contratam um homem, para que ela possa “voltar a cuidar das suas coisas”. O mais espantoso nesse episódio é que não passa pela cabeça de nenhum dos envolvidos que a própria Joan gostaria de continuar na função. Mais de uma vez ela declara não sonhar em subir, como Peggy fez; ao mesmo tempo, a vemos ressentida por ser continuamente deixada para trás. Talvez mais do que não querer, Joan não acredita.

Se à primeira vista Joan parece uma mulher moderna, com o passar do tempo passamos a perceber que isso é apenas uma fachada. Pensando bem, conseguir as coisas através do sexo é uma estratégia antiga. Ela não apenas não busca outra maneira de fazer as coisas, como parece se irritar quando alguém o faz. Sua relação com Peggy demonstra esse conflito. Todas as vezes que Peggy tenta defendê-la, inclusive demitindo um funcionário que a desautorizava por vê-la apenas como mulher objeto, Joan desmerece, ironiza – “Se eu quisesse que ele fosse demitido, conseguiria isso com um jantar”. Ela não parece aceitar ou acreditar em outras formas de poder feminino, que a relação entre homens e mulheres não seja intermediada por sexo. Quando consegue um bom partido disposto a casar com ela, Joan rapidamente adota uma postura tradicional: tenta esconder seu passado, se propõe a deixar de trabalhar, pára de evitar a gravidez. Todos os seus recursos, no fim, tinham o objetivo de torná-la uma mulher respeitável.

As emblemáticas mulheres de Mad Men I

A série Mad Men, ambientada nos anos 60, gira em torno da figura de Don Draper e o mundo da publicidade. É um meio machista, um ambiente de trabalho onde as mulheres servem os homens sexualmente e/ou como secretárias. Em meio àqueles homens poderosos, é possível perceber as estratégias de poder permitidas às mulheres da época. Elas não podiam aspirar os mesmos cargos que eles, o que não quer dizer que não possuíam sua própria maneira de influenciar nas decisões. Aqui destacarei alguns dos caminhos escolhidos pelas mulheres retratadas na série. Para quem não assistiu Mad Men, quer assistir e não gosta de spoilers, recomendo não prosseguir na leitura.

Betty

Impossível não olhar para Betty sem admiração, sem reparar o quanto ela é linda. Para quem assiste a série de olho no visual, nos penteados e nas roupas, Betty representa o que há de mais bonito no período. Ela usa os melhores vestidos, tem o cabelo impecável, e até mesmo sua maneira de fumar é charmosa. Ela não é apenas um ideal de beleza, como representa um ideal de mulher. Bem nascida, foi mimada pelos seus pais para ser uma boneca. Como esposa de Don Draper, contribuía para formar dele a imagem de homem de sorte e bem sucedido, por ter ao seu lado uma mulher que se mantém linda apesar de já ter filhos, que mesmo diante das crises sempre sabe se portar com discrição. É esse encanto que a torna desejada por todos que a conhecem, que permitem que ela obtenha o que quer sem ter que fazer esforço. Ela é “mulher pra casar”

Só que por detrás de toda essa imagem de perfeição, logo no início da série ela nos é apresentada como uma mulher angustiada por algo que ela mesma desconhece. Para quem esta de fora, é fácil identificar o motivo: Betty leva uma existência vazia. A inveja incontida que ela tem na desquitada da vizinhança, sua solidão, seu desejo de ser admirada, mostram a decepção que ela sente com o papel que lhe é reservado. A solução para isso é mandá-la a um psiquiatra, porque sua insatisfação parece sem sentido. O que mais uma mulher poderia desejar, além de um casamento próspero e filhos? Ela tampouco está disposta a questionar a vida que leva. A tentativa de lidar com suas angústias a levam a tentar novamente a carreira de modelo (para desistir rapidamente) e flertar com a idéia de trair Don. Ela provoca sutilmente os homens, mas não ultrapassa os limites, porque o papel de mulher perfeita também lhe é muito caro.

O casamento de Betty com Don nunca foi satisfatório, embora ambos tenham demorado pra se conscientizar disso. Ele sempre a traiu, com mulheres fortes e independentes, totalmente diferentes de Betty. Ela, por outro lado, parecia projetar todas as suas necessidades nele, e agia como uma criança que só faz o que quer. O sucesso financeiro de Don permitiu a Betty ter toda aparência que sempre quis; mas descobrir sua traição e sua verdadeira origem (muito pior do que ela poderia imaginar), destruíram esse pacto de maneira irremediável. Somente a partir daí ela consegue se sentir livre para buscar outro homem (e não outra alternativa). Graças a Henry Francis, ela consegue pular de um casamento a outro sem passar pelas dificuldades financeiras e falta de prestígio do desquite. Só que Henry, ao contrário de Don, é um homem mais velho e mais bem resolvido. Ele não demora a perceber que casou com uma mulher mimada e incoerente. Somente ao se casar de novo ela parece perceber que o problema não era Don e sim que o que ela busca não existe.

A pessoa difícil por detrás da aparência de perfeição fica muito clara na relação que Betty tem com os filhos, especialmente com a filha. Ela sempre foi intolerante e agressiva diante de qualquer desobediência, como se não suportasse que algo fosse diferente do esperado. Ela tenta recriar com Sally, sua filha mais velha, o mesmo ideal de comportamento e beleza que recebeu de seus pais. Só que o temperamento forte da filha prejudicam cada vez mais os seus projetos, o que torna a relação entre as duas uma guerra silenciosa, onde Sally sempre sai perdendo. É de cortar o coração ver a angústia de menina, visível a todos que a cercam, mas que não pode ser impedida porque tem como fonte sua própria mãe. É na filha que Betty demonstra toda insatisfação, toda agressividade que ela reprime. Ser uma mulher perfeita tem seus custos.
Leia também: Joan (parte II) e Peggy (parte III)

Preconceito

O difícil em lidar com preconceitos é que eles se revestem de informações antigas, que por sua vez se misturam com outros preconceitos, premissas religiosas, suposições psedo-científicas e interpretações maldosas de diferenças culturais. O preconceituoso se apegará a essas coisas para justificar os seus sentimentos e dificilmente permitirá uma crítica das suas posições. Dá vontade de mostrar para ele quando tudo começou – como seria mostrar para um preconceituoso um quadro onde a história não tornou o oprimido fraco demais para conseguir se defender? Estabelecidos e Outsiders, de Elias & Scotson, tem o mérito de conseguir o que parecia ser impossível: detectar um preconceito no seu nascimento, e mostrar que a vontade de segregar é que nos faz enxergar diferenças e não o contrário.

O livro acompanha a ocupação de duas áreas residenciais na Inglaterra. Os moradores das duas áreas tinham tudo para se enxergarem como iguais: mesma nacionalidade ou raça, mesmas profissões e faixas salariais, mesmo nível cultural. Mas eles não se enxergavam assim. Como um dos bairros era de ocupação mais antiga, eles já tinham formado de si uma idéia de comunidade. A vizinhança já se conhecia e formava uma rede de apoio mútua. Eles eram os bons. No bairro de ocupação recente as pessoas ainda não se conheciam. A falta de uma relação mais forte entre os vizinhos os tornou vítimas frágeis da rede de fofocas do outro bairro. Em pouco tempo eles se tornaram os ruins.

O que acontece a partir daí é emblemático: a maneira como os bons se viam se torna a maneira oficial de ver a situação. Primeiro porque não havia outra maneira de pensar; depois, quando seria possível criar outra corrente de pensamento, ela já havia contaminado o outro bairro e se tornado hegemônica. Os moradores do bairro dito ruim em pouco tempo passaram a aceitar a idéia de que eram realmente inferiores. O que havia de positivo no bairro bom servia de exemplo da sua superioridade; qualquer comportamento desviante na região ruim era generalizado e ajudava a piorar sua fama. Junto com a evolução desse caso prático, Elias & Scotson resgatam outras formas de preconceito, colocam em discussão a maneira como se formaram, a dificuldade de criar uma nova forma de pensar e sair do papel de vítima. O livro argumenta que até preconceitos que atribuímos à diferenças físicas evidentes, como a cor da pele, não nascem da própria diferença. A eleição das características que dão origem a um preconceito pode variar (físicas, religiosas, sexuais, tradicionais, etc); o que não muda é utilização dessa diferença para criar uma superioridade sobre outros.

Experiência bolañesca

Li Noturno do Chile em dois dias, na casa do Milton. O parágrafo não tinha pausas (mas não parece Saramago) e não dava vontade de parar de ler. Terminei o livro com a certeza de que não seria capaz de falar sobre ele, quase como se fosse um segredo. Eu poderia dizer o quê, que li e não conseguia largar? O máximo que consegui pensar foi criticar a orelha do livro, da edição da Companhia das Letras, que resume e organiza o livro inteiro, ou seja, entrega com facilidade o que o leitor precisaria descobrir. Mas talvez isso não tenha importância, porque muito mais interessante do que a história é a maneira como ela se desenvolve: num turbilhão, com eventos sobrepostos, passagens do tempo ora rápidas, ora muito lentas, mas sempre muito interessante. Decidi que precisaria de um pouco mais de know how para ser capaz de escrever sobre Bolaño.

Agora estou lendo Os detetives selvagens, também da biblioteca do Milton. É um calhamaço de mais de quinhentas páginas. Esse livro tem parágrafos e as coisas acontecem de modo mais claro; por outro lado, permanece a sensação de vertigem, de que tudo pode acontecer (mas não é realismo fantástico). De onde Bolaño tirava todas essas coisas? Como é possível que esses livros sejam tão diferentes e tão parecidos? É como se a imaginação e a capacidade de Bolaño em criar e desenrolar histórias não tivesse limites. Ou seja, mais uma vez me vejo incapaz de falar sobre esse autor.

Como me falta capacidade e ao Milton sobra, só me resta indicar as críticas que ele fez a respeito de Bolaño.

Análise de música popular

Recebi o post da análise existencialista de uma música de Alexandre Pires e achei muito divertida. Claro que não é um tratado filosófico, e acho até chata a pressa que algumas pessoas têm em apontar todos os erros e incoerências do que lêem. As tentativas de pegar algo popular, ou de massa, ou cult e fazer disso análise filosóficas aproxima duas linguagens e não deve ser desprezada. Existem análises sobre os Simpsons, Star Trek, House, só para citar os que eu conheço.

Durante a faculdade, na matéria de Antropologia III, fomos convidados a encontrar um letra da música popular brasileira e fazer alguma análise sobre o conteúdo que havíamos estudado – Escola Sociológica Francesa e Lévi-Strauss. Transcrevo o que fiz na época. Nunca recebi esse trabalho de volta, por isso não sei o quanto a análise está boa ou não. Pelo menos serviu pra passar.

Vou mostrando como sou/ Vou sendo como posso– Durkheim foi o primeiro a apontar a diferença entre o ideal de sociedade (o que eu mostro) e como ela realmente é (o que eu sou). A diferença entre seu discurso, conceito sobre si mesma, e o que ela realmente pode nas suas práticas diárias. Levi-Strauss chama atenção para a questão do inconsciente. As motivações reais são ignoradas pelo próprio indivíduo, e até mesmo seu discurso é ilusório.Às vezes, a explicação que parece obvia pode ser a mais enganosa, por camuflar melhor a realidade. É a diferença entre a ordem do vivido e do concebido.

Essa contradição faz com que o etnólogo tenha que redobrar sua atenção para não se levar pelo discurso. Na pesquisa de campo, isso se reflete na necessidade de verificar várias vezes a mesma informação, de procurar um número grande de elementos. Isso pode gerar a questão: a sociedade elabora sobre si uma mentira?

Jogando meu corpo no mundo/ Andando por todos os cantos-Não. O discurso atua no campo das idéias, que de acordo com Levi- Strauss é sempre mais rico e é a matriz das atitudes. Ao jogar-se no mundo, andar por todos os cantos, ou seja, ao atuar, necessariamente as coisas são diferentes. O campo das idéias pode ser mais rico, mas o mundo possui maneiras de atuação particulares, que as diferenciam do discurso.

E pela lei natural dos encontros/ E deixo e recebo um tanto – Certas coisas são tão freqüentes nas sociedades humanas que podem até ser pensadas como “leis naturais”. Para Levi-Strauss, o tabu do incesto seria uma lei universal. A dádiva maussiana pode ser considerada uma lei natural? O fato de pessoas ou sociedades se encontrarem, e nesse encontro deixarem e receberem algo umas das outras. Esse trecho explicita a relação envolvida nas trocas, que nunca deixa iguais àqueles que nela se envolvem, seja…

Passo aos olhos nus/ Ou vestidos de lunetas– … por uma simples troca de olhar, ou de vestimentas fantásticas. A construção do eu sempre se faz na alteridade, na comparação do que é semelhante do que não é. O conhecimento do outro é natural, porque o humano não pode jamais ser pensando sozinho, desligado da sua sociedade ou da cultura. E quanto mais distante ou desconhecido, mais fantástico e/ou temido o outro nos parece.

Passado, presente/ Participo sendo o mistério do planeta– Durkheim apontava que o caráter coercitivo dos fatos sociais estava no fato de serem, dentre outras coisas, anteriores aos indivíduos. Ao nascer, cada um encontra uma sociedade com uma história e uma forma de organização particulares. História esta que se faz presente em todos os que vivem na sociedade, na medida em que todos compartilham da mesma cultura.

Isso, no entanto, não retira do individuo sua particularidade. Nenhum individuo contém a totalidade da sua sociedade. A maneira como os diversos fatores externos influenciaram seu aparato interno, continua algo muito particular. Por isso, cada um continua sendo um mistério, com uma participação e essência próprias.

O tríplice mistério do estoque– Ao falar de estoque, podemos lembrar do estoque de inhame do chefe envolvido no kula. A forma de estocar, fazia parte da atribuição dentro do ritual da dádiva. Algumas vezes, este estoque era formado apenas para ser destruído de forma ritual. O estoque não existia por si ou para uma mera satisfação econômica, ele fazia parte de algo maior, somente explicado pelo contexto da dádiva. Se a entendermos como tríplice, este se refere às três obrigações que ela envolve: dar, receber e retribuir.

Que eu passo por e sendo ele/ No que fica em cada um– A dádiva não é apenas econômica, nem religiosa, nem ritualística, nem comercial ou estética; ela envolve todas essas esferas e muitas outras, o que a torna um fenômeno social total. Cada um passa pela dádiva e é ao mesmo tempo objeto da dádiva. Pelos conceitos de hau – a essencial da pessoa que fica com a coisa dada- e mana– a força que faz as coisas circularem-vemos que a dádiva não é uma simples troca de objetos. Ela é uma troca espiritual, pois cada um dá um pouco de si quando troca. E ao pensarmos que a dádiva envolve toda a sociedade, ela nos fala de uma troca entre culturas, sociedades e humanidades. A troca aproxima as pessoas e faz com que compartilhem a essência que lhes é comum.

No que sigo meu caminho/ E no ar que fez que assistiu– Os mitos, para Levi-Strauss, não podem ser analisados de modo estritamente funcional. Os mitos possuem origem em si mesmos, estão “no ar”. Eles só podem sofrer uma comparação com outros mitos, pois eles funcionam com uma lógica e caminhos próprios.

Abra um parênteses/ Não esqueça– Apesar do evidente papel da sociedade, na classificação, das regras, nas religiões, até mesmo atuando no corpo do individuo, não podemos esquecer que …

Que independente disso /Eu não passo de um malandro/ De um moleque do Brasil– A sociedade é constituída por pessoas, e as estruturas não funcionam sozinhas. Embora determinada por muitos fatores e circunscrita pelos limites dados pela formação dada por sua sociedade, o individuo tem um espaço de ação, que usa de diversas maneiras. Algumas vezes, sua maneira de atuar pode se tornar manipuladora (bem destacado por Leach), ou “malandra”.

Que peço e dou esmolas– Ao dar e pedir esmolas ao mesmo tempo, há um reconhecimento que na dádiva todos irão dar e receber. Aquele que dá, encontra-se numa posição de superioridade, mas esta não se mantém eternamente. Como a dádiva por natureza implica em circulação, em algum momento o individuo terá de receber- e se encontrar numa posição menos favorável. Ao falar em esmolas, cabe lembrar, pode ser compreendida como um sacrifício/ dádiva oferecida aos deuses, pois aquele que a recebe não retribuirá a dádiva, papel que cabe ao divino. Como a pessoa da musica dá e pede esmolas, podemos considerar que ela faz e recebe coisas que só cabe ao divino retribuir.

Mas ando sempre/ Com mais de um/ Por isso ninguém vê/ Minha sacola– . Mesmo quando só, o individuo está acompanhado pela sociedade que o formou. E para haver troca, sempre precisa haver mais de um envolvido. O individuo é ex-centrico a si mesmo- seu centro encontra-se na sociedade. A “sacola”, por ser um objeto estritamente pessoal que acompanha sempre o indivíduo, por ser entendida como símbolo do eu ou do particular em cada um.Neste sentido, pela sacola nunca ser vista, podemos compreender que o indivíduo nunca é apenas um mero reflexo do todo, que a maneira como ele particulariza uma série de fatores o torna único e desconhecido.