Preconceito

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O difícil em lidar com preconceitos é que eles se revestem de informações antigas, que por sua vez se misturam com outros preconceitos, premissas religiosas, suposições psedo-científicas e interpretações maldosas de diferenças culturais. O preconceituoso se apegará a essas coisas para justificar os seus sentimentos e dificilmente permitirá uma crítica das suas posições. Dá vontade de mostrar para ele quando tudo começou – como seria mostrar para um preconceituoso um quadro onde a história não tornou o oprimido fraco demais para conseguir se defender? Estabelecidos e Outsiders, de Elias & Scotson, tem o mérito de conseguir o que parecia ser impossível: detectar um preconceito no seu nascimento, e mostrar que a vontade de segregar é que nos faz enxergar diferenças e não o contrário.

O livro acompanha a ocupação de duas áreas residenciais na Inglaterra. Os moradores das duas áreas tinham tudo para se enxergarem como iguais: mesma nacionalidade ou raça, mesmas profissões e faixas salariais, mesmo nível cultural. Mas eles não se enxergavam assim. Como um dos bairros era de ocupação mais antiga, eles já tinham formado de si uma idéia de comunidade. A vizinhança já se conhecia e formava uma rede de apoio mútua. Eles eram os bons. No bairro de ocupação recente as pessoas ainda não se conheciam. A falta de uma relação mais forte entre os vizinhos os tornou vítimas frágeis da rede de fofocas do outro bairro. Em pouco tempo eles se tornaram os ruins.

O que acontece a partir daí é emblemático: a maneira como os bons se viam se torna a maneira oficial de ver a situação. Primeiro porque não havia outra maneira de pensar; depois, quando seria possível criar outra corrente de pensamento, ela já havia contaminado o outro bairro e se tornado hegemônica. Os moradores do bairro dito ruim em pouco tempo passaram a aceitar a idéia de que eram realmente inferiores. O que havia de positivo no bairro bom servia de exemplo da sua superioridade; qualquer comportamento desviante na região ruim era generalizado e ajudava a piorar sua fama. Junto com a evolução desse caso prático, Elias & Scotson resgatam outras formas de preconceito, colocam em discussão a maneira como se formaram, a dificuldade de criar uma nova forma de pensar e sair do papel de vítima. O livro argumenta que até preconceitos que atribuímos à diferenças físicas evidentes, como a cor da pele, não nascem da própria diferença. A eleição das características que dão origem a um preconceito pode variar (físicas, religiosas, sexuais, tradicionais, etc); o que não muda é utilização dessa diferença para criar uma superioridade sobre outros.

3 comentários em “Preconceito”

  1. Interessante prof. Nikelen!
    Acho que eu conheço um caso próximo a mim e que vai de encontro com essa ideia que tu expôs. Lá na minha cidade, Caibaté, e outra cidade próxima que pertencia à Caibaté anteriormente, Mato Queimado. As duas cidades após a emancipação, apesar de sua distância próxima (12km) começaram a se ver como diferentes, apesar de sua origem ser basicamente a mesma, de colonização mista mas com primazia para a germânica. O interessante e que me intriga é que elas também tinham tudo para se enxergar como semelhantes, mas essa ideia de superioridade principalmente começou a aflorar e fazer com que Caibaté visse Mato Queimado como sinônimo de colonos no sentido mais pejorativo possível, e diversos conflitos tanto de caráter particular quanto público (por exemplo demarcação de territórios) começaram a aflorar mais e mais.
    É interessante ver como essas formas de preconceito são criadas…até esse teu post me fez ver isso mais claramente, espero ter sido claro! hehehe

  2. Interessante ver como, em termos de preconceito, nada é longe, tudo é muito próximo e presente. Apenas, Mauro, este blog, eu indiquei, mas não é meu e sim da moça que aqui se identifica como Caminhante Diurno. Mas indico lê-lo sempre, pois é muito bom. Bjs

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