As emblemáticas mulheres de Mad Men III

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* Contém spoilers. Leia também Betty (parte I) e Joan (parte II)

Peggy

Ela diz para si mesma que quer casar, como qualquer outra moça da sua idade. Só que ela tem feito de tudo para evitar que isso realmente se concretize. Não sabemos até que ponto ela é consciente disso, apenas sabemos que ela deixa as oportunidades passarem – ou se livra delas – cada vez que precisa fazer uma escolha. Foi assim com a gravidez que levou em segredo, foi assim com o namoro sério que estava tendo com Mark. A série começa com a chegada de Peggy à Sterling Cooper, para ocupar o cargo de secretária de Don. É através dela que passamos a conhecer os personagens e aquele mundo pouco a pouco nos é revelado. O senso de oportunidade e a inteligência fazem com que Peggy rapidamente deixe de ser uma simples secretária e se torne braço direito de Don. Não é exagero dizer que ela é a versão feminina dele, que também é dela que a série se trata.

Peggy é um patinho feio. Ela não apenas não chama atenção pelos seus atributos físicos como se veste e se comporta de maneira recatada. Alguns tentam ajudá-la, ao dizer que uma mulher precisa estar bonita e feminina para vencer; outros, mais cruéis, a chamam de nazista, fria, feia, recalcada, old fashion. Quando ouve de alguém que é atraente, Peggy duvida. Suas maneiras mais recatadas combinam com sua origem suburbana e católica, com a qual ela tem uma relação conflituosa. Mas também são uma escolha, uma estratégia para lidar com o machismo a sua volta. Peggy quer ser vista como uma profissional e sabe que papel os homens com quem convive esperam das mulheres. Ao se tornar a primeira mulher redatora, ela rompe com todas as expectativas a seu respeito. Ela deixa de pertencer ao mundo das mulheres e não é vista como homem. Isso a torna detestada pelos dois grupos. A saída para lidar com esse ambiente hostil é ser ainda mais competente, trabalhar mais do que qualquer um à sua volta, ser mais rigorosa do que todos os seus colegas. Os outros podem aproveitar; ela tem consciencia da fragilidade da sua posição. Mesmo com todo esse cuidado, atribuem sua promoção ao fato de ter dormido com Draper. Ele a vê como uma amiga e uma extensão de si mesmo; ela não consegue deixar de se sentir pouco atraente por ele jamais ter tentado alguma coisa a mais.

De todas as mulheres da série, Peggy é que encarna melhor os conflitos que se tornariam comuns às mulheres atuais. Ela valoriza o modelo tradicional da feminilidade, que espera que as mulheres sejam bonitas, uma beleza buscada em função de ter valor para os homens. Só que um dos atributos dessa feminidade é a capacidade de ficar atrás – a grande mulher está sempre atrás do grande homem, nunca ao lado e muito menos à frente. Ao recusar esse papel secundário, Peggy sente que comprometeu também sua feminilidade. Ela não quer escolher entre respeito profissional e afeto. Na falta de um modelo que abarque as duas coisas, Peggy acaba desbravando novos caminhos. Gradualmente, abandona os valores da sua família, mesmo depois de ter tentado com sinceridade voltar a frequentar a igreja. Ela se muda para Manhattan com a justificativa de que fica mais fácil ir ao trabalho, mas a verdade é que ela quer ser diferente, ela quer muito mais. Mesmo ambiciosa, ela é uma das poucas que não está disposta a tudo para subir, que não usa as pessoas. Com os homens, ela faz sexo por amor ou por diversão, jamais por interesse.

Nas quatro temporadas, ela é o personagem que mais se modificou. Ela inicia a série caipira, inadequada, grávida de uma relação ocasional. À medida que avança, ela se torna capaz de absorver e aproveitar as oportunidades que aparecem. Mesmo mantendo o estilo discreto, ela passou a se vestir melhor. Quando sua posição profissional fica mais consolidada, ela se tornou menos rígida e se mostrou à altura de lidar com o machismo dos colegas. Seu jeito sério aliado à vontade de conhecer o novo renderam momentos engraçados, como quando pede para experimentar maconha ou trabalha nua ao lado de um colega que a acusa de repressora. Peggy se torna cada diz mais interessante e inesperada. Ela pode se tornar uma ambiciosa publicitária assim como pode continuar uma das poucas pessoas éticas da série, quase um símbolo. Só o desenrolar da trama responderá.

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