Descobertas, por García Márquez

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Eu conheço esta citação há anos, descontextualizada. Não sabia se era de uma entrevista ou de um livro; nem ao mesmo tinha certeza do seu autor. Como pessoa organizada, me identifiquei na hora e vi nela uma bela autocrítica. Só que lendo-a no Memórias de minhas putas tristes, ela adquiriu novas cores. No meio da história, ela deixa de ser uma simples constatação e adquire cores otimistas, por representar a descoberta e renascimento de um homem aos noventa anos.
“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.”
Memórias de minhas putas tristes, p.74

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