Feminilidade, por Scarlett O´Hara

Compartilhe este texto:
Peguei … E o vento levou com todos os preconceitos em torno da idéia de pegar pra ler um best seller que virou filme. Tudo graças às recomendações da Luciana, que disse que era uma leitura agradável. Pois digo que ela não fez justiça ao livro – ele é delicioso. Além dos personagens inesquecíveis e da história que todos nós conhecemos, o livro têm detalhes, costumes, uma percepção muito aguda do pensamento da época. O livro descreve os pais de Scarlett O´Hara, o que a torna uma mistura inusitada de todas as maneiras e sutilezas que uma grande dama deve ter, mas com a força do sangue irlandês paterno, tão forte que não conseguiu ser domado pela educação. Ela conhece e maneja muito bem os artifícios femininos, mas sempre com o cinismo de quem sabe quem usa uma fachada; Scarlett não se identifica e não se deixa enganar por eles. Apenas uma mulher que compreende o teatro da relação entre os sexos poderia dizer isto:

– Quisera Deus que eu já fosse casada! – murmurou enervada ao encetar as batatas doces. – Já não posso mais com esse constante constrangimento de não fazer nada do que me apraz. Estou cansada de fingir que me alimento como um passarinho; de andar devagar, quando a minha vontade é correr; de insinuar que quase perco os sentidos depois de cada valsa, quando poderia dançar dois dias seguidos sem me sentir cansada. Estou cansada de dizer: “Você é extraordinário!”, a uns idiotas que têm muito menos juízo do que eu; cansada de fingir ignorância, para que os rapazes se sintam cheios de si, e me ensinem o que estou farta de saber…
MITCHELL, Margaret. …E o vento levou. 5º ed.
São Paulo: Hemus, [1980] p.67

Ainda tão atual, não?

6 comentários em “Feminilidade, por Scarlett O´Hara”

  1. Eu li o livro. E achei o mesmo que você. É bom e muito superior ao filme (apesar dos vestidos maravilhosos, de Viven Leigh e de Clarke Gable). Acho que esse descortinamento de uma face mais verdadeira dos dois sexos em um mundo cheio de repressões é fantástica. O herói, como a heroína, não quer fingir-se de bravo ou de valente, não quer cumprir com os deveres de um cavaleiro. Quer divertir-se, conquistar mulheres, dizer isso em voz alta o torna reprovável diante dos outros, assim como Scarlett. Interessante a visão de dois protagonistas que se recusam aos comedimentos e repressões de sua época. Belo post.

  2. Minha primeira visita ao blog e já gostei de cara. Claro, me deparei com um post sobre um dos meus livros favoritos – E o vento levou! Sinceramente, quando vi o filme fiquei tão apaixonada que eu queria rever um zilhão de vezes e nunca nunca nunca reprisavam na tv. E foi nesse desespero pelo filme que peguei o livro para ler. Caramba, que susto! O livro mostra Scarlet bem mais “pistoleira” do que no filme… casamentos e filhos… tudo e qualquer coisa por Tara me chocaram um pouco na época – eu só tinha 14 anos. Mas mesmo assim meu amor pela história só cresceu e sem sombra de dúvidas o livro é infinitamente melhor, embora eu admita que ler o livro imaginando as caras e bocas da Scarlet e do Red interpretados tão divinamente pela Vivien e Gable trouxe um sabor todo especial a minha leitura.
    Parabéns pelo texto!
    Bjo

    1. Um livro muito famoso, Cristiano. Foi por isso que “…E o vento levou” contou com um orçamento milionário, porque ele já tinha público antes mesmo de ser lançado. As pessoas amavam o livro e foram ao cinema ávidos e atentos aos detalhes, tal como hoje acontece com os fãs de Harry Potter e Crepúsculo. A escolha de Vivian Leigh para o papel foi muito polêmica, porque o livro não cansa de repetir que Scarlett tinha olhos verdes, e por isso gostava de usar verde. Depois que o filme foi lançado e viram a atuação de Leigh, o público acabou aceitando…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *