O ganho do oprimido

Compartilhe este texto:

Com toda a discussão gerada pela polêmica do possível estupro no BBB, não pude deixar de notar que grande parte dos comentários machistas que vi foram feitos por mulheres. Quando uma mulher se coloca contra outra que pode ter sofrido uma violência de gênero, isso demonstra duas coisas:

1- Não são apenas os homens que aderem a discursos machistas. Mulheres repetem e ajudam a perpetuar sua própria opressão, ao acreditarem e repetirem as mesmas regras que as oprimem;

2- Apesar de toda discussão e avanço gerados pelo feminismo, algumas mulheres ainda são merecedoras da acusação de agirem de má fé e se aproveitarem dos homens.

Eu sei que esse segundo item parece me colocar ao lado daqueles que jogam na mulher a culpa por um estupro. Não estou falando isso – eu acredito que o homem não tem o direito de usar o corpo da mulher sem sua autorização, esteja ela consciente ou não, com penetração ou não, se provocado ou não, sendo ela desconhecida ou sua parceira. O que eu quero dizer é que há um calcanhar de Aquiles que prejudica todas as reivindicações feministas: as mulheres que agem de acordo com as regras masculinas. Assim como existem as mulheres que engravidam sem querer e são abandonadas pelos seus parceiros, existem aquelas que usam a possibilidade de ter filhos como fonte de renda. Se de um lado as feministas querem tirar a imagem sensualizada de mulher objeto presente no imaginário social, existem aquelas que vivem justamente da exploração da sua sensualidade. Pior: muitas mulheres dariam tudo para viver da exploração da sua sensualidade.

Se falássemos da relação entre duas pessoas, quem sabe pudéssemos chamar isso de Síndrome de Estocolmo, onde a vítima procura pela aprovação ou amor do seu algoz. Só que esse é um fenômeno cultural complexo, que vai muito além da relação entre os sexos. No livro Ilhas de História, de Marshall Sahlins, o autor mostra a dominação inglesa sobre povos insulares – Havaí, Fiji e Nova Zelândia. No livro, não vemos povos morrendo em guerras sangrentas para preservar sua cultura ou heróicas recusas à situação imposta pelo colonizador. Esse livro polêmico mostra as trocas entre colonizadores e colonizados, as vantagens que os hawaianos adquiriam (ou acreditavam adquirir) ao negociar com os ingleses, a mudança gradual e definitiva que esse contato impôs aos povos das ilhas. Nela vemos que colonizados não são completamente resistentes e nem vítimas passivas do que lhes acontece.

A crítica que se faz a essa abordagem é pela divisão dos erros; uma interpretação possível é a que os povos conquistados também tiveram sua culpa. É o mesmo perigo que sofre aquele que diz que algumas mulheres se aproveitam e provocam os homens. Jogar a culpa na vítima é um pedaço da verdade, não toda a verdade. Na opinião de ativistas, assumir o ganho pequeno dos oprimidos poderia diminuir o sentimento de solidariedade com eles; embora a troca exista, ela é desigual e bastante ingênua do lado mais fraco. Ao mesmo tempo, parece que as discussões não avançam porque sempre existe esse outro lado, que é super valorizado quando conveniente. Quem luta por uma causa não pode esquecer que uma das origens da sua dificuldade pode ser a adesão à cultura dominante – justamente do grupo que deveria lutar.

2 comentários em “O ganho do oprimido”

  1. Caminhante, eu gostei do seu exemplo sobre como as mulheres podem ser vítimas de uma gravidez ou usar a gravidez como uma arma de ascensão social. Eu acho que elas mostram muito da natureza do ser humano diante de situações adversas: alguns tentam tirar o melhor proveito que podem daquela situação enquanto outros tentam criar uma nova realidade.

    Se nós julgarmos do ponto de vista social, talvez o primeiro caso seja nocivo para sociedade como um todo, mas a maior parte das vezes o ganho individual é maior. O comportamento pautado na mudança da realidade pode até ser mais benéfico socialmente, mas em geral envolve sacrifícios dos indivíduos. E pouquíssimos indivíduos tem vocação para mártir.

  2. Bela lembrança do “Ilhas de História”. Voltarei a ele. Seu debate é perfeito e aborda com respeito a imensa complexidade dessas relações. Você está certa: é preciso lutar sempre contra essas opressões. Porém, ignorar a complexidade desses fenômenos é criar uma ilusão ingênua, nociva e inútil. Já tive muitos, mas muitos debates com colegas e, sobretudo alunos, muito bem intencionados, que desejam fechar os olhos com força para a complexidade porque uma realidade sem contrastes é mais rápida de se analisar e mais fácil de gerar a energia necessária ao engajamento e à ação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *