Diário do Farol (e Breaking Bad)

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Na orelha do Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro, da Editora Nova Fronteira diz:

Já consagrado como um dos mais importantes escritores da língua portuguesa, João Ubaldo Ribeiro, mais uma vez, causa impacto e talvez até estupefação. Autor de obras consideradas clássicas em sua própria época, como Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, ele novamente surpreende o leitor com um romance que pode ser tido como fundador, da mesma forma que Viva o povo brasileiro inaugurou um ciclo de livros voltados para a nossa identidade e história comum. Com este Diário do farol, João Ubaldo Ribeiro volta à condição de proclamador. Trata-se do primeiro romance maior da literatura brasileira vinculado estritamente à descrição e contemplação do mal: o mal que nos rodeia e nos atinge, mas preferimos ignorar. Neste sentido, Diário do farol rompe barreiras, preconceitos e noções confortáveis, para nos confrontar com verdades inescapáveis.

E o resume prossegue nesse tom, adiantando que a história é contada em primeira pessoa e mostra o ponto de vista de um psicopata. No fim da orelha, os editores fazem um auto-elogio, dizendo que editoras precisam ser corajosas e não apenas comerciais, e por isso o mérito da editora Nova Fronteira em publicar aquele livro. Li essas informações quando já estava com o livro em casa; acredito que se tivesse lido na biblioteca, teria optado por outro. Pensei logo que o livro me remeteria a sentimentos como os da leitura de Serial Killer, de Ilana Casoy. Nele, conhecemos a vida de psicopatas, e que nos gera um sentimento de medo e desesperança com o ser humano. Pensei, também, no livro que a Érica me sugeriu há poucos dias, chamado Auschwitz, que gera um sentimento de medo e desesperança institucionalizado. Mas era um João Ubaldo, e o livro da coleção Plenos Pecados dedicado à luxúria, A casa dos budas ditosos, também havia sido polêmico e minha alma não se perdeu por causa dele.

Em poucas horas, devorei metade do livro. Ele realmente fala do mal e do ponto de vista de um psicopata. É inacreditável pensar que o livro – e por consequencia a orelha – é apenas de 2002. Aquele choque diante do tema que o resumo oferece me parece tão datado. Meu sentimento ao narrador do livro me lembra muito mais a série Breaking Bad. O início da série cria uma identificação tão grande com o protagonista Walter White, que a partir dela criamos uma empatia que se mantém mesmo por toda série, mesmo ele se afastando cada vez do que criou essa empatia. No episódio piloto vemos um homem inteligente, tímido e com horror a armas, com a vida medíocre dos que sempre foram honestos. Ele tem um filho com problema físico que sofre preconceito, está com problemas com o cartão de crédito, outro filho está a caminho, tem um segundo emprego onde não é respeitado e é humilhado por um aluno riquinho. Quando recebe o diagnóstico de câncer no pulmão, mesmo sem nunca ter sido fumante, parece que a própria natureza está contra ele. E o que ele recebe por sempre ter sido tão correto é a impossibilidade de pagar pelo seu tratamento. A partir daí, começa a série, onde Walter abandona o papel de vítima e resolve fazer anfetaminas para ganhar muito dinheiro.

A descrição que o protagonista faz da sua infância em Diário do Farol tem o mesmo efeito sobre o leitor. As humilhações e as maldades contínuas do seu pai, a solidão e a vontade de se vingar soam fundo. Não tem como não se identificar com o que ele narra e considerar seus êxitos uma forma de vitória. O protagonista se vinga e mata de uma maneira como nunca faríamos, mas quem se importa? Como já discuti em outro texto, nós, os comuns, somos corretos e nos sentimos trouxas por sermos corretos. Sem a certeza de um céu para nos consolar e sem ver a justiça premiar os bons, há muito deixamos de nos identificar com os que sofrem calados. Aqueles que se vingam de verdade acabam realizando o nosso desejo irrealizado de fazer as coisas acontecerem.

1 comentário em “Diário do Farol (e Breaking Bad)”

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