A música que passou a me irritar depois da minha pesquisa

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Eu adorava essa música e a versão que eu tenho é justamente a do clipe. A letra fala de uma cena que Alejandro Sanz teria testemunhado, de um deficiente visual que pede a uma moça para lhe descrever o pôr-do-sol. No final, quando ela se vai – depois da promessa de que retornaria no dia seguinte -, o rapaz perguntou ao Alejandro se ela era bonita, ao que ele lhe responde – Mais do que a lua.

Quem não tiver paciência pra ver o clipe pode conhecer a letra aqui.

Não é que a música seja horrivelmente preconceituosa ou forçada. Minha irritação com ela é muito mais por exagerar em algo mais banal. Talvez aí esteja o preconceito – em achar que estar apaixonado ou passar uma cantada é algo de extraordinário apenas por ter sido feita por alguém com deficiência.
Eu convivi com pessoas com diversos graus de deficiência visual – de visão residual à perda completa de visão – por causa de um serviço voluntário que mais tarde gerou a idéia pra uma pesquisa, o que me levou a conviver mais ainda com essa realidade. Aprendi a ultrapassar a barreira da pena ou do extraordinário. Para quem enxerga, parece inconcebível pensar num mundo sem a visão, e que isso lhe acontecesse, no resto da vida ela lhe faria falta. Pelo que ouvi de quem está nessa situação, não é verdade. Não enxergar, ter nos outros uma voz, uma presença e um cheiro, é algo que acostuma. Só com o preconceito que não se acostuma.
Então não consigo achar romântico quando o enamorado sem visão da música fala “mis ojos son tu voz”, “a tu lado puedo olvidar que para mi siempre es de noche” e, pior – “que no daria yo por contemplarte, aunque sea un solo instante”. Não veria essa pena de si mesmo, esse desejo de ser o que não é, de utilizar um sentido que não tem, como algo saudável. Das duas uma: ou isso fala de alguém que ainda não aprendeu a conviver com a sua condição, ou da projeção de alguém que enxerga e não consegue entender a vida de outra forma.
A parte final da música, quando o rapaz pergunta se a moça era bonita, é bastante familiar. Quem perde a visão faz isso com frequencia – de perguntar para os outros como uma pessoa é fisicamente. Por estarem interessados ou mera curiosidade. Se possível, consultam várias pessoas, pra ter um parecer ainda mais completo. O rapaz da música realmente parece encantado com a moça. Mas nisso também não há algo extraordinário. Quando convivi com homens que perderam a visão, eu não entendia a quantidade de cantadas que eles passavam. Bastava conversar com uma mulher um pouco mais gentil para as insinuações e perguntas começarem. Eles faziam o que a gente chama de “atirar para todos os lados”.
No decorrer da minha pesquisa, a motivação pra isso ficou mais clara. As mulheres possuem uma tendência a cuidar muito de deficientes, mas essa relação tende para o materno. De um lado, isso é de grande ajuda; de outro, causa problemas quando um homem quer ser visto como tal. Isso sem falar que ser deficiente diminui bastante o “apelo” de alguém nas relações com o sexo oposto. Acredito que essa atitude de se colocar como homem disponível logo que interage com qualquer mulher, tem o objetivo de aproveitar todas as chances e de deixar claro para todos que lá há um homem, não apenas um deficiente.
São detalhes que mudam totalmente o sentido da música: um desejo de ver que não existe, um romance açucarado onde ele não existe. Não dá mais pra ouvir da mesma forma.
(Estou com um artigo quase pronto sobre o meu livro, a ser publicado em breve. Quando for, colocarei o link aqui. E quem quiser um exemplar do livro – autografado e mais barato -, é só falar comigo)

2 comentários em “A música que passou a me irritar depois da minha pesquisa”

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