A pior cena de sexo que eu li nos últimos tempos

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… é do livro Fim da Eternidade, do Asimov. Quem já leu algum livro dele sabe que descrições não são o seu forte. A gente entra num universo de nomes inventados, coisas que não existem, viagens espaço/temporais, controle do comportamento humano. A parte interessante é a projeção de um futuro, com um grande desenvolvimento tecnológico e uma lógica própria. No meio de tudo isso, quase nenhuma mulher. Asimov sempre dá um jeito de justificar essa escolha, colocando as mulheres como tão importantes que não se envolvem com essas disputas, ou verdadeiras musas. A mim, nenhuma dessas explicações convence e o acho misógino. Não é à toa que ficção científica atrai mais o público masculino. No Fim da Eternidade, ao ler esta descrição péssima de uma cena de sexo, Asimov me pareceu confirmar a crença de que nerds perdem a virgindade aos quarenta:

A moça estava deitada sobre o cotovelo, num sofá em frente. O tecido estampado do sofá afundou sobre o seu corpo, como se ávido por abraçá-la. Ela havia tirado os sapatos transparentes e os dedos dos pés mexiam para sempre e para trás dentro do espumite flexível, como as patas macias de uma gata luxuriante.

 [Ela lhe faz algumas perguntas ao herói, que o levam a pensamentos confusos. Esses pensamentos ocupam duas páginas. Nesse meio tempo, Asimov não cita mais a moça. Aí, do nada,]

Noÿs estava ainda mais perto, seu rosto não totalmente nítido ao seu olhar pasmado. Sentiu o cabelo dela em seu rosto, a pressão leve e cálida da sua respiração. Ele deveria afastar-se mas – estranhamente, estranhamente – não queria.

– E se eu me tornasse Eterna… – ela sussurrou, quase em seu ouvido, embora as palavras mal pudessem ser ouvidas, abafadas pelas batidas de seu coração. Seus lábios estavam úmidos e entreabertos – Você não iria gostar?

Não entendeu o que ela quis dizer, mas, de repente, não se importava. Ele parecia em chamas. Estendeu os braços, desajeitado, tateando. Ela não resistiu. Uniu-se a ele como num abraço carinhoso.

Tudo aconteceu como num sonho, como se estivesse acontecendo com outra pessoa.

Não era nem de longe repulsivo como ele imaginara. Veio-lhe como num choque, uma revelação, que não era repulsivo de modo algum.

p.69-72

Depois tem outra cena, que é meio “vai ser bom, não foi?”. Como é uma momento essencial do livro, acho que teria valido a pena pedir ajuda na hora de escrever… O Fim da Eternidade, em si, é bom. É um livro que fala de viagens no tempo. Os livros/filmes de viagens no tempo costumam se centrar no choque de uma pessoa em outra época; o inusitado dessa história é que as épocas não são relevantes. O que importa é a viagem em si, a criação de uma instituição que se dedica ao aprimoramento da humanidade através de intervenções no tempo. Li o livro irritada com vários pressupostos dessa instituição, mas o autor dá um jeito de anular todas as ressalvas no final. É um livro cheio de reviravoltas e não sei porquê ainda não foi transformado em filme. Para ler rápido e sem maiores consequências.

16 comentários em “A pior cena de sexo que eu li nos últimos tempos”

  1. Tenho o livro aqui em casa e não sei se me animo a ler depois dessa passagem citada no seu post. Sou muito chato. Mas gostei muito da resenha porque, se eu ler, vou fazê-lo sem grandes expectativas, seguindo seu conselho.
    Não vou entrar na questão da misoginia de Asimov, mas em Tolkien ela é gritante. E ainda mais a visão civilizadora da Europa contra os bárbaros de pele escura. O mesmo aparece, de modo mais paternal, mas também etnocêntrico, em C.S. Lewis.

  2. Uma das minhas invejas enquanto leitor é dos que leram grandes calhamaços clássicos do gênero Ficção Científica, como Fundação, Um Estranho numa Terra Estranha, Solaris, etc. Eu tinha o Fundação, do Asimov, quando tinha lá meus 20 anos, mas nunca consegui lê-lo. Realmente não é minha praia.

    Sobre péssimas cenas de sexo na literatura, isso já é um assunto sagrado, e há listas e listas. Lembro que, recentemente, uma das piores cenas escolhidas foi a que está no último livro do Pynchon, em que um dos personagens faz sexo com um Chihuahua.

  3. Você não viu nada, Darlene! Valeu pelo comentário!

    Farinatti, eu levaria o livro pra ler numa sala de espera, numa viagem, em algum lugar que não requeira muita concentração. Se não fosse o fim, talvez nem valesse a pena.

    Li O Hobbit e o primeiro Senhor dos Anéis (não tenho certeza)e farejei um pouco do que você disse. Lembro que Sam era o empregado de Frodo e o amava como se fosse um cachorrinho. Achei uma visão bem eurocêntrica, me lembrou muito a relação que os britânicos esperavam ter com os indianos.

  4. Charlles, estava justamente perguntando pra Nikellen se ela leu Fundação. Eu li. O Luiz tbm tentou ler aos vinte, ficou com vontade de terminar e compramos há alguns anos. Aí soubemos que tem um monte deles. Tentei emprestar o dois, e descobri que peguei o quatro, vi que tem não-sei-quantos, peguei raiva e desisti. Eles não estão numerados, cada um tem um nome Fundação diferente e a pessoa que se vire pra saber a ordem. O Fundação 1 começa interessante, se arrasta no meio (quando entra a parte do Mulo) e volta a ficar bom no fim. Talvez você devesse tentar de novo.

    Sexo com um chihuahua? Será que dá pra descrever isso de maneira ruim, eu ri só de pensar.

  5. Pelo que me lembro sobre as edições de Fundação, a confusão se faz porque a obra foi lançada na íntegra, em um só volume, e também foi lançada em vários volumes. O que eu tinha era de umas 700 páginas, e era a obra completa. Daí, o Asimov lançou uma continuação ao Fundação, também de umas trocentas páginas. Então, presumo que seja, ao todo, 2 volumes grandes. Assim penso, mas é só uma aventura da minha parte.

    Não tenho absolutamente nenhum interesse em ficção científica. Gosto muito de literatura de divulgação científica, como Carl Sagan, mas não ficção. Analisando agora, é o único gênero que não leio. Adoro terror, fantasia (tenho o Tolkien aqui), best-seller (alguns).

    Minha hora de ser teimoso: nada de Asimov.

    (Apesar do quê, já li um livro dele: O Livro dos Fatos.)

  6. Fui ver o Fundação daqui de casa e tem 500 páginas, e é só o vol 1. O teu devia ser só o 1 tbm.

    Ficção científica nunca me interessou enquanto gênero, comecei a ler mais pra ter lido um pouco de tudo. Sem dizer que não acredito nos pressupostos de Asimov sobre previsibilidade do comportamento humano e desenvolvimento das civilizações.

    Pode teimar com Asimov que eu não ligo…

  7. Sei lá, sempre associei o fato de homens terem mais propensão à ficção científica do que mulheres da mesma forma como o curso de engenharia também é mais povoado por homens.

    Mas minha experiência com ficção científica é quase que limitada a Arthur C. Clarke, que também não dá grandes papéis às mulheres a não ser a russa (interpretada pela Helen Mirren no filme) em 2010. Mas se você for para o gênero de aventura-fantasia como de Star Wars no cinema, vai ver que George Lucas deve odiar as mulheres muito, muito mesmo. Pq só isso para explicar uma história envolvendo várias galáxias e só ter basicamente duas mulheres importantes e, ainda assim, em papéis submissos de “alívio romântico”.

  8. Também faço essa associação, Bruno. Faz todo sentido, porque o público de ficção científica é formado (me parece) por pessoas que gostam das ciências exatas. Daí entra a discussão profunda de que as mulheres são condicionadas desde cedo às áreas relacionais e etc, que não cabe falar aqui (e eu nem saberia).

    Ainda quero ler alguma coisa de A.C. Clarke, e que pena saber antecipadamente que não encontrarei nada muito diferente do Asimov. Jamais tinha me passado pela cabeça os papéis femininos de Star Wars, mas é bem como você está falando. Alguém precisava descobrir que problemas esse pessoal da ficção científica tem com o sexo feminino, sério.

  9. Não é que o Clarke era misógino, mas não há muitas mulheres que não sejam interesses românticos nas obras dele. Mas tô falando disso de acordo com o que li: 2001, 2010, 2061 e 3001. E todos eles giram em torno dos mesmos personagens basicamente, então fica difícil tirar todas as outras obras dele por isso.

    E o problema de pessoas que fazem ficção científica é que eles convivem com poucas. 😛

  10. Eu desanimei um pouco quando fui procurar pelos livros dele e descobri que ele é o autor de 2001. Tentei ver o filme 3x e dormi em poucos minutos em todas elas. Minha teoria pessoal, baseada em tudo o que vi, é que os macacos enterraram o monolito porque ele era muito barulhento. Fim.

  11. Hahahaha, não, não. E eu achei o filme muito mais explicativo do que o filme, acho que vale a pena ler. No final das contas, 2001 não é uma história sobre homem vs. máquina, mas sobre inteligência e até que ponto ela é artificial. 🙂

  12. Putz, ainda não li esse livro, confesso que admiro muito o Isaac, sempre fui fã de ficção científica e Asimov me iniciou nela, tirando apenas a perspectiva cinematográfica. Ainda não li “O fim da Eternidade” mas já está em minha lista há tempos. E realmente Asimov é bem misógino, quem leu “Antologia 2” ( estou em dúvida se é o 1º ou 2º), pôde ler um artigo em que ele fala sobre as mulheres e diz claramente que elas são inferiores aos homens, ele desenvolve um texto muito bem elaborado em que fala coisas realmente interessantes sobre a “evolução” das mulheres na sociedade, mas que não faz com que suas afirmações do ínicio se tornem obsoletas. Mas reamente, não é só no caso dele, o universo da ficção científica é um espaço masculino renegado às mulheres, já citaram Star Wars, que nada mais é do que uma exaltação ao antigo bordão de homens fortes, inteligentes, onde as mulheres estão só na parte romântica ( eu disse “as”? Leia é basicamente a única mulher da galáxia), posso citar também “De Volta para o Futuro”, e não só na ficção científica, o cinema é um meio formado por homens e para homens, nos próprios filmes infantis a quantidade em que temos meninas nos papéis principais é ínfima. Quanto ao que falaram sobre Tolkien no ínicio, não concordo, ele viveu em uma época em que as mulheres (nem preciso falar né?) eram bem excluídas, e os papéis das mulheres pelo menos no Senhor dos Anéis estão bem importantes.

    1. Jéssica, muito obrigada pelo comentário, muito esclarecedor. Eu falo mal do Asimov e o leio, porque ele tem uma qualidade, um livro dele nunca decepciona. E concordo contigo, é muito mais fácil entender uma misoginia em Tolkien do que em Asimov. E ele ter feito um comentário desses no Antologia (que eu não li) não me surpreende nem um pouco. Eu acho que esse tipo de coisa revela muito mais as limitações dele do que qualquer outra coisa. Esse universo masculino da ficção me dá a impressão de que são todos como os nerds de Big Bang Theory, que simplesmente não conseguem se aproximar de mulheres…

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