Pina Bausch: bela e visceral, trágica e esperançosa, sua arte renasce em filme

O filme Pina, de Wim Wenders, era para ser feito em parceria com Pina Bausch, que descobriu em si um câncer cinco dias antes das filmagens e morreu dois dias antes do início delas, em 30 de junho de 2009. Wenders desistiu imediatamente do projeto mas foi convencido pelos bailarinos da coreógrafa a ir em frente. Assim, Pina é, na verdade Ein film für Pina Bausch. A tradução do tíitulo para Pina, simplesmente Pina, no Brasil, é um empobrecimento do original: Um filme para Pina Bausch. Pois é isto mesmo, trata-se de um filme dedicado a Pina Bausch, uma homenagem. O resultado — que está em cartaz nas maiores capitais brasileiras — é excelente. O filme traz entrevistas com seus colaboradores e conta um pouco da trajetória da artista, mas, principalmente, permite que o público tenha a experiência de ver o seu trabalho. Foi filmado em 3D, o que finalmente dá sentido à existência dessa tecnologia. Pina já tinha experiência no cinema: atuou em La Nave Và (1983), de Fellini; colaborou com Almodóvar em Fale com ela (2002); foi tema de documentários, com destaque para Un jour Pina m’a demandé (Um dia Pina me perguntou), de Chantal Ackerman, e dirigiu um filme, o perturbador Die Klage der Kaiserin (O Lamento da Imperatriz, 1990).
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Ássia

Eu tinha na época uns vinte e cinco anos – começou N. N. -como o senhor vê, são coisas de um tempo que já vai longe. Acabara de ganhar minha liberdade, parti para o estrangeiro, e não para “concluir minha educação” como se dizia, mas simplesmente por vontade de ver esse mundo de Deus. Era jovem, saudável, alegre, dinheiro não me faltava, as preocupações ainda não haviam conseguido me agarrar – vivia a Deus dará, fazia o que bem queria, em suma, florescia. Nem me passava pela cabeça, então, que o homem não é uma planta e não floresce todo ano. A juventude come pães doces e dourados, pensando que é esse o pão de cada dia; no entanto, chega a hora em que se faz qualquer coisa até mesmo por um pãozinho comum. Mas isso não vem ao caso.

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Todos os lugares onde vi o nome de Turguêniev – autor de Ássia – citado, era com desdém, para dizer que ele é muito menos importante e interessante que Dostoiévski e Tolstói, as outras duas pontas da tríade dos grandes autores russos do séc XIX. Só me animei a ler Ássia porque era um livro fino e editado pela Cosac&Naify, o que o torna parte do movimento de resgatar autores russos e traduzí-los direto da sua língua, ao invés da tradução da tradução européia.

A história é uma das mais desinteressantes que já li, de um romantismo que não convenceria qualquer adolescente de hoje. Mesmo assim, o livro consegue encantar, tal a leveza e a correção com que foi escrito. Mesmo sem dizer nada demais, nos identificamos com os devaneios, a amizade e o ritmo. Ao invés de uma grande história de amor, é possível lê-la como um amor de verão – aí sim fica convincente.

Algumas coisas chamam atenção no livro, pela estranheza: a análise de um caráter pela educação; a descrição da própria Ássia, que parece demonstrar um tipo de feminilidade que hoje não atrai; a noção de proximidade e moral. Quando cheguei no capítulo definitivo do livro, onde a ação fundamental acontece, precisei lê-lo umas três vezes. Por instantes, pensei que se tratava de uma reviravolta, que o narrador/personagem principal havia nos iludido desde o começo da história, ocultando um plano prévio, o que seria uma reviravolta brilhante (e impensavel pra época). Mas era apenas uma forma de se relacionar mais antiga e cheia de tabus. Me lembrei de um livro que li na adolescência, oferecido pela minha mãe, e que falava de uma adolescente em crescimento. Num determinado momento ela começa a flertar com um rapaz. Depois desse flerte, ela fica com a consciência pesada, fala muito nisso, consulta um padre e é alertada da responsabilidade, que não se deve sair flertando por aí. Fui perguntar a minha mãe o que afinal era aquilo, flertar. “Ah, toda essa onda só porque ela ficou olhando? O que tem isso demais?”. Ássia é mais ou menos assim.

Amor aos animais

Eu tinha uma amiga que se achava uma pessoa com grande sensibilidade e amor pelos animais. Do tipo que tem a casa cheia de gatos e cachorros. Aí ela foi pra Índia passar um tempo com uma família indiana. Quando ela  voltou, me disse que descobriu que ela não era nada daquilo. Ela não amava os animais – o que ela amava eram gatos e cachorros. Os indianos sim que amavam os animais. Sua anfitriã indiana não podia ver uma galinha, uma cabra, um besouro, qualquer criatura, sem ter vontade de abraçar e achar lindo.

Nós temos uma clara hierarquia entre animais. Alguns são comestíveis e outros não, alguns ficam dentro de casa e outros não, alguns merecem nosso carinho e outros não. Gatos e cachorros a cada dia se tornam mais importantes para nós, são como filhos peludos. A idéia de alguns comerem cachorro nos parece tão bárbaro quanto canibalismo. E cavalos? Os que não aceitam cavalo como animal de abate alegam que são animais muito inteligentes e sensíveis. Se o critério é inteligência, podemos lembrar que polvos são muito inteligentes, ratos são inteligentes, baleias são inteligentes. E ninguém os adota ou acha errado comê-los só por causa disso.

Amor aos animais indica superioridade moral? Não sei. Tal como minha amiga depois da viagem, não consigo achar que amar gato e cachorro mereça o nome de amor aos animais. Enquanto alguns merecerem amor e outros puderem morrer, vejo tudo como parte da mesma construção social.

Complexo de Portnoy

Numa excursão do nosso grupo familiar, certa vez descarocei uma maçã, para espanto meu (e com auxílio da minha obsessão) verifiquei com o que ela se parecia, e corri para o mato para cair em cima do orifício da fruta, imaginando que o frio e farinhento buraco ficava entre as pernas daquele ser fictício que sempre me chamava de Garotão quando implorava por aquilo que nenhuma outra garota em toda história conhecida jamais tivera. “Oh, empurre isso para dentro de mim, Garotão”, gritava a maçã descaroçada que eu castigava como um bobo naquele piquenique. “Garotão, Garotão, me dá tudo o que você tem”, suplicava a garrafa de leite vazia que eu guardava escondida no nosso depósito no porão, a fim de nela penetrar, desvairado, com a minha envaselinada verga. “Goza, goza, Garotão, goza”, berrava o furioso pedaço de fígado que, na minha loucura, comprei uma tarde num açougueiro e, acreditem ou não, violei, atrás de um suporte de cartazes a caminho de uma lição de bar mitzvah.
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Ainda nem cheguei na metade de Complexo de Portnoy, mas acho interessante registrar o efeito dessas descrições: é es-tra-nho. Peguei o livro porque o Charlles (e comentários do blog), estava dizendo que era de rolar de rir. Acredito que seja mesmo, para os homens, porque eles vêem nas descrições um pouco das suas experiências e sabem distinguir a realidade da fantasia. Para uma mulher, é engraçado e ao mesmo tempo assustador. Será o desejo dos adolescentes tão incontrolável e irracional assim? Fiquei com medo do meu irmão ter roubado minhas calcinhas e perguntei para o meu marido se ele já olhou com desejo para uma maçã. As mulheres, ao lerem este livro, não resistirão à curiosidade de consultar algum amigo pra saber como é essa fase na vida de um homem.
Pensei na minha adolescência, no desejo feminino, que me parece tão distante de tudo isso. Perceber o quanto as adolescentes são mais liberais hoje dá impressão de que coisas mudaram, que o desejo feminino se libertou de tantos pudores. Será? Quando me lembro do Crepúsculo e penso que revistas de nu masculino ainda se destinam ao público gay masculino, me parece que as coisas ainda não mudaram tanto. Cultural ou biológica, a forma de desejar o outro é muito diferente entre homens e mulheres. Se for para falar da versão feminina da fase descrita no livro, diria que as meninas são mais sonhadoras. Além de não existir essa compulsão, o desejo delas está ligado ao amor, a idéia de ser especial, ao desenrolar das situações. Os homens abandonam parte daquele período? As mulheres também.
Outro aspecto interessante do livro é a relação do protagonista com a sua mãe. É uma relação claramente freudiana, com ansiedade de castração e o filho como falo da mãe. A irmã é apenas uma “criatura gorda de cabelos compridos” e o pai um fracassado. Some esses elementos a outro clichê – em que medida verdadeiro? – da superproteção e dramatização da mãe judia. Essa mistura torna Complexo de Portnoy um daqueles livros que surpreende, choca, ri e faz pensar, tudo ao mesmo tempo.

Molho e Anna Kariênina

A história a seguir é verdadeira. E para que não paire nenhuma dúvida sobre os fatos, informo que meu irmão era adulto quando fez isso.
Um amigo do meu pai se dizia um grande especialista em macarrão alho e óleo. Um dia, para provar, convidou os amigos para experimentarem sua pasta. Meu pai e meu irmão foram. Tudo muito bem, todos bem servidos, e quando o anfitrião perguntou ao meu irmão se ele estava gostando do macarrão, a resposta foi:
– Está bom. Mas ficaria melhor com molho.
Olhares confusos e envergonhados. O anfitrião se dá ao trabalho de esclarecer:
– Veja bem, é um macarrão alho e óleo. Ele é assim mesmo, não tem molho.
Meu irmão se manteve firme:

– Eu sei que alho e óleo não tem molho. Mas mesmo assim ficaria melhor com molho. De tomate. E carne moída.

Depois de me contar essa história, ele acrescentou – “nunca mais fui convidado pra comer macarrão alho e óleo depois disso”.

***

Meu problema com Anna Kariênina é parecido. O livro é excelente. As primeiras cem, duzentas páginas, são pra ler sem parar. O livro já começa com tudo, com situações envolventes, e os personagens nos são apresentados já no meio de conflitos. As descrições são primorosas e envolventes. Como esta, de

Stiepan Arcáditch não escolhia nem as tendências nem as opiniões, eram antes as tendências e as opiniões que vinham a ele, assim como não escolhia o modelo do chapéu ou da sobrecasaca, mas adotava o que os outros vestiam. E, para ele, que vivia num ambiente social em que a necessidade de alguma atividade intelectual se desenvolvia, de hábito, na idade madura, ter opiniões era tão indispensável quanto ter chapéu.

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isto para falar dos personagens. Quando descreve situações, Tolstói também consegue ser muito feliz. Descrições como o trabalho no campo ou uma cena de casamento, que normalmente fariam o leitor pular as páginas ou se perguntar quando aquilo termina, conseguem ser interessantes. É um livro que você lê com o prazer de acompanhar vidas e não na ansiedade de terminar a história. Quando convém, Tolstói resume tudo numa frase e sabemos que o tempo passou. É um escritor com total domínio da sua obra, em nenhum instante a história parece lhe fugir às mãos.

Minha queixa é de algo que eu sei que Tolstói trabalhou duramente para conseguir, e que parece agradar à maioria dos seus leitores: a imparcialidade do narrador. Os personagens são apresentados conforme as situações e pela maneira como os outros os vêem. O autor jamais mostra preferência por alguém, ou emite um juízo de valor sobre o que qualquer um deles está fazendo. Nem ao menos obtemos pistas, seja pelo espaço que ocupa nas descrições ou por ironias. Essa imparcialidade me exaspera um pouco. Talvez eu queira molho onde é sem molho. Minha sensação é a mesma de ir ao cinema sozinha e depois não ter com quem comentar. Senti falta da narração ser um pouco mais próxima, de Tolstói dizer em algum momento que Vrónski é um vaidoso e Liéven um bom sujeito. Só isso, não precisa mais. Porque eles são, o autor mostra que são. Custaria tanto reconhecer?

Hoje, assim como em qualquer outro dia

A minha mais distante memória é de uma mulher com vestido florido abaixo dos calcanhares e óculos grossos bifocais me dizendo sobre os benefícios de se levar uma vida reta para fugir do fogo do inferno. Todas as outras incursões em meu passado além desse momento resultam em borrões de quedas de velocípedes, os besouros que me aterrorizavam invadindo a casa, o sorriso de meu pai, o cheiro de baba no travesseiro da minha mãe, a minha cadela Paquita, vestígios da lembrança da febre da catapora, o som dos postes de madeira estalando nas tardes de ventania. Nada que se iguale em impacto aos relatos das chamas eternas que essa mulher me dizia, com a voz doce e estranhamente consoladora. “Se você aceita Jesus no coração desde agora, jamais irá passar por esses sofrimentos. Crescerá uma pessoa boa e cheia de paz no coração.” Desde cedo tive a certeza de que as seis mulheres que me amaram e com quem morei até os meus dez anos, o faziam cada um da sua maneira e com profunda sinceridade, tanto que essa senhora, que era uma das minhas 3 avós_ ou a minha madrasta-avó_ recorria a ingênuos artifícios de desobstrução do peso daquelas imagens do inferno ao me trazer a maior das maçãs, ou me dar um abraço e um beijo fortíssimos que determinava de vez que nenhum demônio iria ter forças para me tirar daquela fortaleza de proteção.

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Propaganda e uma desilusão

Não lembro se recebi por e-mail ou comentei na época que essa publicidade saiu:

Acusei a propaganda de ser machista, de ver a mulher como objeto, de chamar as mulheres de prostitutas e vários argumentos que passam pela cabeça de uma mulher instruída quando vê isso. Estava em meio à minha revolta, quando um amigo calmamente me disse:
– Mas funciona. Poucas mulheres deixariam de abrir as pernas depois de ganhar uma jóia.

Tive que ficar quieta e reconhecer que é verdade. Podemos dizer que não é pela jóia em si e sim pelo que o gesto de comprar algo tão caro significa… Ou podemos achar que é pela jóia sim, como uma troca. Isso torna a mulher uma vagabunda? O que abrir as pernas porque ganhou uma jóia revela?

Revela que na relação entre os sexos, há muito, a mulher entra com o seu corpo, a sua juventude e a sua aparência, e o homem entra com o poder e o dinheiro. Os homens acusam as mulheres de serem interesseiras e as mulheres acusam os homens de só pensarem em sexo. Os dois têm seus motivos, são as maneiras mais tradicionais de se atuar. Maneiras que hoje as feministas criticam, apesar da resistência de outras mulheres. Talvez não estejamos todas lutando ao lado do feminismo porque, quando se abandonam as armas da sedução, talvez não haja tanta coisa nos esperando.

O que eu posso dizer em favor do feminismo: vejo mais mulheres dispostas a agir de outras formas do que homens dispostos a abrir mão da beleza e juventude feminina.