Complexo de Portnoy

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Numa excursão do nosso grupo familiar, certa vez descarocei uma maçã, para espanto meu (e com auxílio da minha obsessão) verifiquei com o que ela se parecia, e corri para o mato para cair em cima do orifício da fruta, imaginando que o frio e farinhento buraco ficava entre as pernas daquele ser fictício que sempre me chamava de Garotão quando implorava por aquilo que nenhuma outra garota em toda história conhecida jamais tivera. “Oh, empurre isso para dentro de mim, Garotão”, gritava a maçã descaroçada que eu castigava como um bobo naquele piquenique. “Garotão, Garotão, me dá tudo o que você tem”, suplicava a garrafa de leite vazia que eu guardava escondida no nosso depósito no porão, a fim de nela penetrar, desvairado, com a minha envaselinada verga. “Goza, goza, Garotão, goza”, berrava o furioso pedaço de fígado que, na minha loucura, comprei uma tarde num açougueiro e, acreditem ou não, violei, atrás de um suporte de cartazes a caminho de uma lição de bar mitzvah.
p.19-20
Ainda nem cheguei na metade de Complexo de Portnoy, mas acho interessante registrar o efeito dessas descrições: é es-tra-nho. Peguei o livro porque o Charlles (e comentários do blog), estava dizendo que era de rolar de rir. Acredito que seja mesmo, para os homens, porque eles vêem nas descrições um pouco das suas experiências e sabem distinguir a realidade da fantasia. Para uma mulher, é engraçado e ao mesmo tempo assustador. Será o desejo dos adolescentes tão incontrolável e irracional assim? Fiquei com medo do meu irmão ter roubado minhas calcinhas e perguntei para o meu marido se ele já olhou com desejo para uma maçã. As mulheres, ao lerem este livro, não resistirão à curiosidade de consultar algum amigo pra saber como é essa fase na vida de um homem.
Pensei na minha adolescência, no desejo feminino, que me parece tão distante de tudo isso. Perceber o quanto as adolescentes são mais liberais hoje dá impressão de que coisas mudaram, que o desejo feminino se libertou de tantos pudores. Será? Quando me lembro do Crepúsculo e penso que revistas de nu masculino ainda se destinam ao público gay masculino, me parece que as coisas ainda não mudaram tanto. Cultural ou biológica, a forma de desejar o outro é muito diferente entre homens e mulheres. Se for para falar da versão feminina da fase descrita no livro, diria que as meninas são mais sonhadoras. Além de não existir essa compulsão, o desejo delas está ligado ao amor, a idéia de ser especial, ao desenrolar das situações. Os homens abandonam parte daquele período? As mulheres também.
Outro aspecto interessante do livro é a relação do protagonista com a sua mãe. É uma relação claramente freudiana, com ansiedade de castração e o filho como falo da mãe. A irmã é apenas uma “criatura gorda de cabelos compridos” e o pai um fracassado. Some esses elementos a outro clichê – em que medida verdadeiro? – da superproteção e dramatização da mãe judia. Essa mistura torna Complexo de Portnoy um daqueles livros que surpreende, choca, ri e faz pensar, tudo ao mesmo tempo.

10 comentários em “Complexo de Portnoy”

  1. certa vez ouvi de um namorado que ele e os amigos, quando criança, se masturbavam penetrando buraquinhos que eles faziam em montes de terra úmida. sim, de terra.

  2. Oi querida, como vai? Descobri sem querer um texto seu sobre: URBANO-PASSAGEIRO do dia 29 de abril de 2009 e outro texto: PORQUE BALLET? do dia 27 de abril do mesmo ano.

    Gostaria de publicar nos meus blogs com seu creditos e endereço do blog…pode ser? Beijos e lindos textos

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