O caçador de pipas

 

É uma pena pensar nas coisas entusiasmadas que achei que diria sobre O caçador de pipas e que não direi mais.

O livro começa excelente. Ele me lembrou outro best-seller, mais ou menos da mesma época, A menina que roubava livros: ambos falam de crianças, de guerra e tem uma narrativa dinâmica. O recurso de antecipar no fim dos capítulos uma informação incompleta do que ocorre mais tarde, usado nos dois livros, causa no leitor ansiedade pelo que virá nos capítulos seguintes. As primeiras cinquenta páginas são devoradas sem sentir. Por se passar no Afeganistão, o livro ainda teria um atrativo a mais ao fazer o leitor se transportar para uma cultura diferente. Somos logo apresentados aos personagens centrais da história:

Baba contratou a mesma ama-de-leite que tinha me amamentado para cuidar de Hassan. Ali nos disse que ela era uma hazara de olhos azuis, natural de Bamiyan, a cidade das estátuas dos Budas gigantes.

– Que voz doce e melodiosa ela tinha… – era o que costumava nos dizer.

Hassan e eu sempre perguntávamos o que ela cantava, embora já estivéssemos cansados de saber: ele nos contou essa história milhares de vezes. Só queríamos ouvir Ali cantando.
Ele pigarreava e começava:De pé, no topo da mais alta das montanhas,
Chamei por Ali, o Leão dos Deuses
Ó Ali, Leão dos Deuses, Rei dos Homens,
Traze alegria para os nossos corações
Que tanto sofrem.

Depois repetia que as pessoas que mamavam no mesmo peito eram como irmãs, ligadas por uma espécie de parentesco que nem mesmo o tempo poderia desfazer.
Hassan e eu mamamos no mesmo peio. Demos nossos primeiros passos na mesma grama do mesmo quintal. E, sob o mesmo teto, dissemos nossas primeiras palavras.

A minha foi baba.
A dele foi Amir. O meu nome.

Olhando para trás, agora, fico pensando que os alicerces do que aconteceu no inverno de 1975 – e tudo o que veio depois – já estavam contidos nessas primeiras palavras.

p.18-19

Ao contrário da tendência de colocar personagens orfãos, humildes e bons – penso na Menina que roubava livros, em Harry Potter, Luke Skywalker e outros –  Amir é um menino bem nascido e egoísta. Nele vemos que não é preciso colocar um protagonista na favela para discutir os sentimentos de falta de amor e as dúvidas sobre si mesmo – Amir tem tudo e sente que tudo lhe falta. Hassan, por outro lado, é todo devoção e pureza. Sobre como é e o que pensa alguém tão bom, nunca saberemos. São com os sentimentos de Amir que o leitor se identifica, que sente a superioridade moral do seu amigo e o maltrata. Suas atitudes, além de tudo, são justificadas pela diferença socio-racial entre os dois. A necessidade de se provar e obter o amor do pai, coloca Amir frente a escolhas e omissões que levantam uma questão fundamental: até que ponto é justificável buscar o próprio conforto? Para obter o que quer e não ter que lidar com suas próprias falhas, Amir opta por sacrificar Hassan. Amir transgride vários limites, e deixa o leitor na dúvida sobre o que ele mesmo faria.

Essas questões existenciais poderiam encaminhar o livro a muitos lugares, onde quem sabe agradaria críticos e não seria um sucesso mundial de vendas. Para mim, é como se eu tivesse ido ao cinema ver um filme europeu, e depois de alguns minutos ele se revelasse um blockbuster americano. Não, a mudança de tom do livro não foi logo que Amir e seu pai saem do Afeganistão, mas foi aí que comecei a sentir os furos. O protagonista de repente está nos Estados Unidos, e senti falta da descrição do período imediatamente anterior, que sem dúvida teria envolvido mais fugas, subornos, dificuldades e esperas. Mais tarde, quando seu pai adoece, achei incoerente que alguém sem plano médico, com pouco dinheiro e em outro país, tenha arranjado médicos e tratamentos com facilidade. Na hora entendi que o autor quis fazer algo mais enxuto – hoje já acho falta de vivência. Já a espera do final do livro ele achou importante colocar, sendo que pro leitor o fim já estava muito claro.

O problema é quando começa a oportunidade de redenção de Amir (sinalizada logo no primeiro capítulo). Nesse instante, a história se torna uma aventura, que sabemos antecipadamente que terá um final feliz, apenas não sabemos exatamente como. Do Afeganistão destruído só temos a mensagem de que os talibãs são maus. Todos os dados lançados no início do livro se encaixam com perfeição, todos os nós são amarrados, cada um recebe na mesma proporção do que havia feito. É legal, é bacana, e gostamos dos personagens a ponto de torcer por eles. O problema é que nesse ponto o livro responde de maneira simplista as perguntas tão bem lançadas no começo. Eu esperava mais, muito mais.

Holocausto brasileiro: 50 anos sem punição

Milhares sucumbiram de frio, fome, tortura e doenças curáveis; 50 anos depois, ninguém foi punido por este genocídio 

Por DANIELA ARBEX 

Não se morre de loucura. Pelo menos em Barbacena. Na cidade do Holocausto brasileiro, mais de 60 mil pessoas perderam a vida no Hospital Colônia, sendo 1.853 corpos vendidos para 17 faculdades de medicina até o início dos anos 1980, um comércio que incluía ainda a negociação de peças anatômicas, como fígado e coração, além de esqueletos. As milhares de vítimas travestidas de pacientes psiquiátricos, já que mais de 70% dos internados não sofria de doença mental, sucumbiram de fome, frio, diarréia, pneumonia, maus-tratos, abandono, tortura. Para revelar uma das tragédias brasileiras mais silenciosas, a Tribuna refez os passos de uma história de extermínio. Tendo como ponto de partida as imagens do então fotógrafo da revista “O Cruzeiro”, Luiz Alfredo, publicadas em 1961 e resgatadas no livro “Colônia”, o jornal empreendeu uma busca pela localização de testemunhas e sobreviventes dos porões da loucura 50 anos depois. A investigação, realizada durante 30 dias, identificou a rotina de um campo de concentração, embora nenhum governo tenha sido responsabilizado até hoje por esse genocídio. A reportagem descortinou, ainda, os bastidores da reforma psiquiátrica brasileira, cuja lei sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais, editada em 2001, completa dez anos. As mudanças iniciadas em Minas alcançaram, mais tarde, outros estados, embora muitas transformações ainda estejam por fazer, conforme já apontava inspeção nacional realizada, em 2004, nos hospitais psiquiátricos do país. A série de matérias pretende mostrar a dívida histórica que a sociedade tem com os “loucos” de Barbacena, cujas ossadas encontram-se expostas em cemitério desativado da cidade. 

Leia a reportagem completa da Tribuna de Minas.

Lolita

Em todos os lugares, sempre li críticas ressaltando as qualidades do livro Lolita, de Nabokov. Eu resisti durante muitos anos porque vi o filme e não gostei. Fiz questão de esquecer da história; o que ficou em mim foi a lembrança de ter visto o filme quase pulando de indignação com o que foi resumido (sem querer) em uma frase pela minha mãe: “Mas aquela menina também era danada”. O filme Lolita (1999)  transmitiu a mim e a outras pessoas (quem sabe hoje eu tivesse tido outra impressão) que Dolores (a lolita) tinha algo de essencialmente perverso, como se de certa forma sua sexualidade precoce estivesse apenas à espera de um homem que a reivindicasse. Talvez essa seja a mesma visão daqueles que defendem a pedofilia com o argumento de que dizem “é que existe muita menina de 14 por aí que…”, coisa da qual eu discordo veementemente. E quando finalmente li Lolita, vi que essa também não é a visão do livro.

Gosto de colocar trechos do livro quando escrevo sobre ele, mas desta vez quero colocar a excelente análise que Nabokov faz da polêmica em torno do que ele mesmo escreveu:

O termo pornografia hoje em dia está associado à mediocridade, ao comercialismo e a certas regras estritas de narração. A obscenidade precisa estar acasalada com a banalidade porque todo prazer estético deve ceder lugar à simples estimulação sexual, a qual, para agir diretamente sobre o paciente, exige o emprego das palavras mais vulgares. O pornógrafo tem que obedecer a velhas e rígidas normas a fim de que seu paciente se sinta seguro de que terá a mesma satisfação que têm, por exemplo, os fãs das histórias de detetives – nas quais, se a pessoa não estiver atenta, o verdadeiro criminoso pode vir a ser, para tristeza do fã, a originalidade artística (….) Assim, nas obras pornográficas, a ação tem que limitar-se à cópula de lugares comuns. O estilo, a estrutura, as imagens não podem jamais distrair o leitor de sua tépida concupiscência. O romance deve consistir necessariamente em uma alternância de cenas sexuais. As passagens intermediárias devem ser reduzidas a meras suturas narrativas, pontes lógicas da mais simplória arquitetura, breves explicações que o leitor provavelmente pulará mas que precisa saber que existem para não se sentir espoliado (….). Além disso, as cenas sexuais devem ir num crescendo, com novas variações, novas combinações, novos sexos e um aumento constante do número de participantes (numa peça de Sade, até o jardineiro é convocado), de tal modo que os últimos capítulos do livro contenham a maior dose de obscenidade que os primeiros.

p.316

O problema (ou o mérito) de Lolita é escapar dos estereótipos. Os primeiros capítulos são o que se espera de um livro sexual: existe uma pretensa justificativa para a pedofilia, a descrição do que é atraente numa menina, o encontro de Humbert com aquela que seria a sua Lolita, Dolores Haze. Só que há algo em Humbert – também o narrador do livro, escrito em primeira pessoa – que vai muito além da pedofilia. Percebemos o homem por detrás da perversão: europeu, reservado, inteligente, culto, irônico e, principalmente, um estrangeiro. Na América, literalmente; na vida, por jamais compartilhar da normalidade sexual, por ter que sempre exercer um papel no que diz respeito à adolescentes. Em todos os momentos, Humbert nunca abandona o olhar de quem está à parte, e mesmo suas descrições das coisas mais comuns são interessantes. O livro é recheado de observações irreverentes sobre o american way of life. Quando está à caça de Lolita, Humbert já nos envolveu de tal forma que o leitor também está à caça, à espera de quando ele finalmente obterá o que quer.

A partir do momento que Dolores se torna Lolita, o livro adquire outra dimensão, o que faz (segundo o próprio autor) com que ele seja abandonado por muitos. Acaba aí a fase do desejo desenfreado; o sexo entre ambos nem ao menos é descrito, apenas citado. Da sua Lolita, Humbert desejava apenas a visão, o toque, uma breve satisfação sexual; as circunstâncias dão a ele muito mais do que queria, muito mais do que estava preparado para viver. Ele se vê obrigado a assumir aquela relação por um inteiro, a construir uma vida baseada numa aparência de normalidade, num segredo difícil de manter. O livro avança e fica cada vez mais claro, para o leitor e Humbert, o papel fantasmagórico de Dolores, as fantasias de Humbert, a deterioração da sua personalidade. Em nome dessa relação ele viajará pela América, assumirá uma paternidade mentirosa, manipulará e se deixará manipular e tentará a todo custo obter um amor deturpado antes mesmo de nascer. É um livro interessante e complexo do início ao fim, e em nenhum momento se rende à soluções fáceis. Em resumo: um clássico.

Observações sobre os sete pecados

Nas entrevistas que vi usarem os sete pecados capitais como pergunta – “qual dos sete pecados mais se aplica a você?” – sempre vi responderem preguiça ou gula. A leitura que se faz, hoje, quem comete o pecado da preguiça é quem o sujeito gosta muito de ficar na sua cama quentinha e detesta acordar cedo. Daqueles que respondem que são gulosos, entendemos que eles amam pão com manteiga, bolo de chocolate, pastel de feira e cerveja com os amigos. Ou seja, nada mais inocente.

Os sete pecados se aplicavam à circunstâncias diferentes, falavam de uma visão de mundo diferente. Quando questionados, todos nós poderíamos dizer que praticamos a Luxúria, porque não reservamos o nosso sexo para depois do casamento ou com fins reprodutivos. Hoje, dizer que pratica muito o pecado da luxúria seria o mesmo que dizer que faz muito sexo – o que para um homem pode ser se gabar, e para uma mulher sinônimo de descontrole e galinhagem… É difícil falar sobre a Gula num mundo onde a oferta de comida acontece de maneira tão desigual, e onde comer muito pode significar comer pouco em termos de qualidade. Aos que vivem em meio à muita comida de consumo rápido, a escolha do que comer pode significar a privação voluntária de alguns alimentos em nome de ideais de saúde ou aparência. Vejo gente que se permite um pedaço de bolo por semana e se diz muito guloso; para outros, viver à base de fast food não diz nada a seu respeito. No sentido original, o pecado da Preguiça estava associado ao ócio, ao não fazer nada. Antes era possível não fazer nada e sobreviver, ou até mesmo viver muito bem (no caso dos nobres). Hoje é impensável não trabalhar. Quando louvamos a preguiça, e falamos do prazer de estar à toa, mostramos o quão limitado é o nosso acesso a esse prazer. Estamos num ritmo tal que quem trabalha oito horas por dia nos dias úteis ainda se dedica pouco. A Avareza, o pecado de colocar os bens materiais acima do mundo espiritual, chega a ser algo difícil de se entender – o que os meus bens têm a ver com outro mundo? A idéia de ser rico no outro mundo não seduz mais ninguém; os novos cultos evangélicos vendem a idéia da prosperidade material através da oração. Condenamos como avarento aquele que acumula dinheiro sem aproveitar, mas não vemos nada de ruim com a acumulação do dinheiro em si, não vemos limite para o ser rico. A Inveja, um dos sentimentos mais difíceis de se assumir, é um dos grandes motores da indústria do consumo. É feio assumir a inveja de alguém do nosso convívio, mas o desejo de comprar e ter acesso ao melhor que o dinheiro pode oferecer é amplamente estimulado. Como prêmio por finalmente conseguir algo de tudo o que foi sonhado, está o Orgulho. Somente o repúdio à Ira, quem sabe, seja maior hoje em dia do que antes, porque vivemos numa sociedade muito mais controladora. Os ataques de ira da qual tive notícia sempre estão associados à prisões ou internações psiquiátricas.

Sobre a cegueira

O artigo a seguir, foi escrito por mim especialmente para a Revista de Filosofia. Ele fala sobre a minha pesquisa de mestrado, publicada como livro pela Editora da UFPR, mas fala também do saber científico e das reflexões que o tema permite, que vão muito além do tema cegueira. É uma experiência interessante voltar ao que publicamos; espero que o artigo traga informações diferentes aos que já conhecem o meu trabalho e que despertem o interesse nos que lerão sobre o tema pela primeira vez.

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Sobre a Cegueira

Experiência estigmatizante, sensações de vida interrompida e anseio por voltar “ao estado anterior”. Essas são as percepções daqueles que perderam tardiamente a visão. Refletir sobre o tema é entender como a sociedade lida com a diferença

Por que ninguém nunca pesquisou isso?”. Para as pessoas comuns, o mundo está cheio de perguntas a serem respondidas. Mas quando essa mesma pessoa se envolve em uma pesquisa que é a base do fazer científico – é como se ela ficasse subitamente sem inspiração. Porque pesquisas não nascem do vazio ou de uma simples indagação: existem métodos, estatísticas, maneiras de abordar o problema; autores que já fizeram perguntas parecidas e dão respostas que norteiam futuras pesquisas. Se por um lado isso forma um conhecimento para o qual todo cientista pode e deve apelar, por outro funciona como uma maneira pré-determinada de olhar a realidade. Assim, o que seria uma pergunta espontânea se vê na necessidade de entrar em uma linha de pesquisa e uma tradição científica. Às vezes pode ser difícil olhar para uma realidade como se fosse a primeira vez e perguntar – por que ninguém nunca pesquisou isso?

Leia o artigo inteiro aqui.

O leitor, de Bernhard Schlink

 

Eu li o livro por causa do filme, mas não o vi. Apesar de ter aversão assumida por versões cinematográficas de livros, fiquei curiosa para saber o trabalho que foi feito com esse e gosto muito da idéia dos principais personagens serem representados por Kate Winslet e Ralph Fiennes. Existem partes do livro extremamente visuais, que convidam o leitor a imaginar a luz suave do banheiro misturado à fumaça, passeios em dias ensolarados no meio das árvores, a visão persistente do cabelo preso num coque. Noutras, temi que simplesmente mostrar as coisas – Michael sentindo o cheiro do corpo de Hannah, a visão dela na piscina, quando seus olhares se cruzam no tribunal – banalize algo tão cheio de significado, algo que vai muito além do que é visto. Pelo sucesso que o filme fez, suponho que não tenha sido assim.

Nos meus relacionamentos posteriores tentei começar melhor e assim aprofundá-los. Aceitei que uma mulher precisava ter o braço e o toque um pouco como os de Hannah, ter o cheiro e o gosto um pouco parecidos com os dela, para que desse certo a nossa convivência. E passei a contar sobre Hannah. Também contei mais a meu respeito para as outras mulheres do que contara a Gertrud; elas deveriam poder tirar suas próprias conclusões sobre o que lhes parecesse estranho no meu comportamento e na minha disposição de espírito. Mas as mulheres não queriam ouvir muito. Lembro-me de Helen, uma norte-americana, crítica literária, que ficou coçando as minhas costas tranquilamente, sem dizer nada, enquanto eu lhe contava a história, e continuou coçando tão tranquilimente quanto antes, sem dizer nada, quando parei de contar. Gesina, uma psicanalista, achou que eu tinha que trabalhar melhor a minha relação com a minha mãe. Será que eu não reparava como minha mãe quase não aparecia na história? Hilke, uma dentista, sempre perguntava pela época antes de nos termos conhecido, mas esquecia logo que eu contava. Então desisti novamente de contar as coisas. Não é preciso contar, porque na verdade do que se conta está no modo como se é.

p.191

A melhor coisa do livro é a sua prosa. É uma leitura rápida, de capítulos curtos, daquelas que não exigem que o leitor se adapte à linguagem ou tenha paciência. O autor se apega ao essencial. Os primeiros capítulos passam voando, é uma história de amor. Só que ela é contada de maneira desapaixonada, ligeira; a todo instante sabemos que algo acontecerá, que um amor daqueles está condenado. Intuímos as reservas de Hannah, a sua lenta entrega a ao amor de um menino, a idealização e as limitações que uma relação dessas implica. Há nos seus gestos e no seu corpo de Hannah um cansaço, uma força e uma sensualidade que apenas uma mulher vivida podem ter; um corpo que fala de muitas coisas, e que encontrou num adolescente um único expectador atento. Só que o que nunca podemos imaginar sob o corpo de uma mulher – ou de qualquer outra pessoa que conhecemos intimamente – a crueldade e todas as coisas inclassificáveis que o nazismo representa.

Aí o livro se torna difícil, embora a qualidade da prosa não mude. Ele fica difícil porque toca em questões sem resposta. Ele fala do sofrimento judeu, mas fala também do sofrimento alemão. Eles foram cúmplices, todos eles, ao viverem no mesmo período que o Reich e levarem vidas pacatas enquanto os campos de concentração existiam. Do mesmo modo que há uma culpa dos que apenas seguiram ordens, há uma culpa dos que se omitiram. A segunda geração alemã do pós-guerra – representada por Michael – vive uma culpa que não consegue expiar, porque não estavam lá… mas o seus pais estavam, as pessoas que eles amam estavam. Até que ponto o amor nos torna cúmplices das atitudes do ser amado? Existe algo de inexplicável nos que tornaram o terror seus empregos, na idéia de dividir as pessoas de tal forma a ser cruel com alguns e amoroso com outros. Principalmente, existe a questão da justiça: não apenas a que aplicamos aos outros, mas a que nos é possível sem nos condenar.

Jackie, a estripadora

Agora saiu um livro dizendo que Jack, o Estripador pode ter sido uma mulher.

Jack, o estripador, não está mais tão em moda quanto era na minha infância. Eu vi vários documentários sobre ele, e todos eles apresentavam uma lista de suspeitos. Com os dados que eles forneciam, eu tentava adivinhar quem seria o Jack. Em nenhum desses documentários falaram em uma mulher, durante séculos ninguém jamais cogitou que pudesse ser uma mulher. É uma das formas que a desvalorização e o preconceito assume: de tornar algo impensável. Uma mulher jamais poderia ter sentimentos tão violentos. A violência concedida à mulher sempre foi a de tratar mal filhos, maridos, empregados. Mulheres gritam, choram, esperneiam, infernizam, nunca matam. Principalmente, uma mulher jamais poderia enganar a polícia – os homens da polícia – durante tanto tempo. Eles não poderiam imaginar uma mulher com a técnica que o Estripador tinha, e muito menos a capacidade de fazer o que fazia sem ser descoberto. Em resumo, uma mulher não poderia ser tão inteligente.
Homens não esperam violência das mulheres, que compraram a idéia e refrearam sua violência durante muito tempo. Mas o preconceito, ao diminuir a visibilidade, permite revoluções silenciosas, crescimentos insuspeitos e crimes sem solução. Como mulher, me senti um pouco vingada com a idéia de uma Jackie Estripadora.

Desistências

O blog está às moscas, eu sei. É que me envolver demais com dança me deixa agitada e não consigo ler. Só tenho me mantido fiel ao Nêmesis, porque é um livro que leio num momento muito específico – e porque Asimov é aquilo de sempre. Tendo em vista que não estou num momento muito literário, talvez tenha feito umas escolhas meio injustas: parei de ler O diabo e outras histórias. Acho que não me afino com Tolstói. Li o primeiro conto e achei intolerante e moralista. Não que um autor não possa escolher um lado, mas que seja mais sutil, que pelo menos tente ter alguma empatia. Peguei também Sargento Getúlio, porque adoro João Ubaldo, e estou pra desistir a qualquer momento. Achei o início interessante, e me lembrou bastante Grande Sertão: Veredas pelo uso da linguagem popular. Mas Riobaldo não é só linguagem, ele tem uma doçura que conquista o leitor rapidamente. No Sargento Getúlio a tal linguagem está me parecendo pura masturbação literária, não gostei.

Pode ser só injustiça minha. Mas a vida é curta e os livros são muitos, então vou em frente.