O leitor, de Bernhard Schlink

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Eu li o livro por causa do filme, mas não o vi. Apesar de ter aversão assumida por versões cinematográficas de livros, fiquei curiosa para saber o trabalho que foi feito com esse e gosto muito da idéia dos principais personagens serem representados por Kate Winslet e Ralph Fiennes. Existem partes do livro extremamente visuais, que convidam o leitor a imaginar a luz suave do banheiro misturado à fumaça, passeios em dias ensolarados no meio das árvores, a visão persistente do cabelo preso num coque. Noutras, temi que simplesmente mostrar as coisas – Michael sentindo o cheiro do corpo de Hannah, a visão dela na piscina, quando seus olhares se cruzam no tribunal – banalize algo tão cheio de significado, algo que vai muito além do que é visto. Pelo sucesso que o filme fez, suponho que não tenha sido assim.

Nos meus relacionamentos posteriores tentei começar melhor e assim aprofundá-los. Aceitei que uma mulher precisava ter o braço e o toque um pouco como os de Hannah, ter o cheiro e o gosto um pouco parecidos com os dela, para que desse certo a nossa convivência. E passei a contar sobre Hannah. Também contei mais a meu respeito para as outras mulheres do que contara a Gertrud; elas deveriam poder tirar suas próprias conclusões sobre o que lhes parecesse estranho no meu comportamento e na minha disposição de espírito. Mas as mulheres não queriam ouvir muito. Lembro-me de Helen, uma norte-americana, crítica literária, que ficou coçando as minhas costas tranquilamente, sem dizer nada, enquanto eu lhe contava a história, e continuou coçando tão tranquilimente quanto antes, sem dizer nada, quando parei de contar. Gesina, uma psicanalista, achou que eu tinha que trabalhar melhor a minha relação com a minha mãe. Será que eu não reparava como minha mãe quase não aparecia na história? Hilke, uma dentista, sempre perguntava pela época antes de nos termos conhecido, mas esquecia logo que eu contava. Então desisti novamente de contar as coisas. Não é preciso contar, porque na verdade do que se conta está no modo como se é.

p.191

A melhor coisa do livro é a sua prosa. É uma leitura rápida, de capítulos curtos, daquelas que não exigem que o leitor se adapte à linguagem ou tenha paciência. O autor se apega ao essencial. Os primeiros capítulos passam voando, é uma história de amor. Só que ela é contada de maneira desapaixonada, ligeira; a todo instante sabemos que algo acontecerá, que um amor daqueles está condenado. Intuímos as reservas de Hannah, a sua lenta entrega a ao amor de um menino, a idealização e as limitações que uma relação dessas implica. Há nos seus gestos e no seu corpo de Hannah um cansaço, uma força e uma sensualidade que apenas uma mulher vivida podem ter; um corpo que fala de muitas coisas, e que encontrou num adolescente um único expectador atento. Só que o que nunca podemos imaginar sob o corpo de uma mulher – ou de qualquer outra pessoa que conhecemos intimamente – a crueldade e todas as coisas inclassificáveis que o nazismo representa.

Aí o livro se torna difícil, embora a qualidade da prosa não mude. Ele fica difícil porque toca em questões sem resposta. Ele fala do sofrimento judeu, mas fala também do sofrimento alemão. Eles foram cúmplices, todos eles, ao viverem no mesmo período que o Reich e levarem vidas pacatas enquanto os campos de concentração existiam. Do mesmo modo que há uma culpa dos que apenas seguiram ordens, há uma culpa dos que se omitiram. A segunda geração alemã do pós-guerra – representada por Michael – vive uma culpa que não consegue expiar, porque não estavam lá… mas o seus pais estavam, as pessoas que eles amam estavam. Até que ponto o amor nos torna cúmplices das atitudes do ser amado? Existe algo de inexplicável nos que tornaram o terror seus empregos, na idéia de dividir as pessoas de tal forma a ser cruel com alguns e amoroso com outros. Principalmente, existe a questão da justiça: não apenas a que aplicamos aos outros, mas a que nos é possível sem nos condenar.

2 comentários em “O leitor, de Bernhard Schlink”

  1. Não sou muito chegado em livros que não exigem do leitor. Mas enquanto lia seu texto me veio à lembrança o Insustentável Leveza do Ser, que é, por sua vez, um livro enganosamente fácil, mas que na verdade requer muito ensejo.

    Assisti ao filme e o achei maravilhoso. A história é uma dessas fortunas que qualquer escritor gostaria de ter: original, delicada e impactante na medida certa. Suspeito que a presença do Ralph foi para manter conexão com outro filme no mesmo gênero (e da mesma maneira esplêndido) O Paciente Inglês.

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