Observações sobre os sete pecados

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Nas entrevistas que vi usarem os sete pecados capitais como pergunta – “qual dos sete pecados mais se aplica a você?” – sempre vi responderem preguiça ou gula. A leitura que se faz, hoje, quem comete o pecado da preguiça é quem o sujeito gosta muito de ficar na sua cama quentinha e detesta acordar cedo. Daqueles que respondem que são gulosos, entendemos que eles amam pão com manteiga, bolo de chocolate, pastel de feira e cerveja com os amigos. Ou seja, nada mais inocente.

Os sete pecados se aplicavam à circunstâncias diferentes, falavam de uma visão de mundo diferente. Quando questionados, todos nós poderíamos dizer que praticamos a Luxúria, porque não reservamos o nosso sexo para depois do casamento ou com fins reprodutivos. Hoje, dizer que pratica muito o pecado da luxúria seria o mesmo que dizer que faz muito sexo – o que para um homem pode ser se gabar, e para uma mulher sinônimo de descontrole e galinhagem… É difícil falar sobre a Gula num mundo onde a oferta de comida acontece de maneira tão desigual, e onde comer muito pode significar comer pouco em termos de qualidade. Aos que vivem em meio à muita comida de consumo rápido, a escolha do que comer pode significar a privação voluntária de alguns alimentos em nome de ideais de saúde ou aparência. Vejo gente que se permite um pedaço de bolo por semana e se diz muito guloso; para outros, viver à base de fast food não diz nada a seu respeito. No sentido original, o pecado da Preguiça estava associado ao ócio, ao não fazer nada. Antes era possível não fazer nada e sobreviver, ou até mesmo viver muito bem (no caso dos nobres). Hoje é impensável não trabalhar. Quando louvamos a preguiça, e falamos do prazer de estar à toa, mostramos o quão limitado é o nosso acesso a esse prazer. Estamos num ritmo tal que quem trabalha oito horas por dia nos dias úteis ainda se dedica pouco. A Avareza, o pecado de colocar os bens materiais acima do mundo espiritual, chega a ser algo difícil de se entender – o que os meus bens têm a ver com outro mundo? A idéia de ser rico no outro mundo não seduz mais ninguém; os novos cultos evangélicos vendem a idéia da prosperidade material através da oração. Condenamos como avarento aquele que acumula dinheiro sem aproveitar, mas não vemos nada de ruim com a acumulação do dinheiro em si, não vemos limite para o ser rico. A Inveja, um dos sentimentos mais difíceis de se assumir, é um dos grandes motores da indústria do consumo. É feio assumir a inveja de alguém do nosso convívio, mas o desejo de comprar e ter acesso ao melhor que o dinheiro pode oferecer é amplamente estimulado. Como prêmio por finalmente conseguir algo de tudo o que foi sonhado, está o Orgulho. Somente o repúdio à Ira, quem sabe, seja maior hoje em dia do que antes, porque vivemos numa sociedade muito mais controladora. Os ataques de ira da qual tive notícia sempre estão associados à prisões ou internações psiquiátricas.

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