Lolita

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Em todos os lugares, sempre li críticas ressaltando as qualidades do livro Lolita, de Nabokov. Eu resisti durante muitos anos porque vi o filme e não gostei. Fiz questão de esquecer da história; o que ficou em mim foi a lembrança de ter visto o filme quase pulando de indignação com o que foi resumido (sem querer) em uma frase pela minha mãe: “Mas aquela menina também era danada”. O filme Lolita (1999)  transmitiu a mim e a outras pessoas (quem sabe hoje eu tivesse tido outra impressão) que Dolores (a lolita) tinha algo de essencialmente perverso, como se de certa forma sua sexualidade precoce estivesse apenas à espera de um homem que a reivindicasse. Talvez essa seja a mesma visão daqueles que defendem a pedofilia com o argumento de que dizem “é que existe muita menina de 14 por aí que…”, coisa da qual eu discordo veementemente. E quando finalmente li Lolita, vi que essa também não é a visão do livro.

Gosto de colocar trechos do livro quando escrevo sobre ele, mas desta vez quero colocar a excelente análise que Nabokov faz da polêmica em torno do que ele mesmo escreveu:

O termo pornografia hoje em dia está associado à mediocridade, ao comercialismo e a certas regras estritas de narração. A obscenidade precisa estar acasalada com a banalidade porque todo prazer estético deve ceder lugar à simples estimulação sexual, a qual, para agir diretamente sobre o paciente, exige o emprego das palavras mais vulgares. O pornógrafo tem que obedecer a velhas e rígidas normas a fim de que seu paciente se sinta seguro de que terá a mesma satisfação que têm, por exemplo, os fãs das histórias de detetives – nas quais, se a pessoa não estiver atenta, o verdadeiro criminoso pode vir a ser, para tristeza do fã, a originalidade artística (….) Assim, nas obras pornográficas, a ação tem que limitar-se à cópula de lugares comuns. O estilo, a estrutura, as imagens não podem jamais distrair o leitor de sua tépida concupiscência. O romance deve consistir necessariamente em uma alternância de cenas sexuais. As passagens intermediárias devem ser reduzidas a meras suturas narrativas, pontes lógicas da mais simplória arquitetura, breves explicações que o leitor provavelmente pulará mas que precisa saber que existem para não se sentir espoliado (….). Além disso, as cenas sexuais devem ir num crescendo, com novas variações, novas combinações, novos sexos e um aumento constante do número de participantes (numa peça de Sade, até o jardineiro é convocado), de tal modo que os últimos capítulos do livro contenham a maior dose de obscenidade que os primeiros.

p.316

O problema (ou o mérito) de Lolita é escapar dos estereótipos. Os primeiros capítulos são o que se espera de um livro sexual: existe uma pretensa justificativa para a pedofilia, a descrição do que é atraente numa menina, o encontro de Humbert com aquela que seria a sua Lolita, Dolores Haze. Só que há algo em Humbert – também o narrador do livro, escrito em primeira pessoa – que vai muito além da pedofilia. Percebemos o homem por detrás da perversão: europeu, reservado, inteligente, culto, irônico e, principalmente, um estrangeiro. Na América, literalmente; na vida, por jamais compartilhar da normalidade sexual, por ter que sempre exercer um papel no que diz respeito à adolescentes. Em todos os momentos, Humbert nunca abandona o olhar de quem está à parte, e mesmo suas descrições das coisas mais comuns são interessantes. O livro é recheado de observações irreverentes sobre o american way of life. Quando está à caça de Lolita, Humbert já nos envolveu de tal forma que o leitor também está à caça, à espera de quando ele finalmente obterá o que quer.

A partir do momento que Dolores se torna Lolita, o livro adquire outra dimensão, o que faz (segundo o próprio autor) com que ele seja abandonado por muitos. Acaba aí a fase do desejo desenfreado; o sexo entre ambos nem ao menos é descrito, apenas citado. Da sua Lolita, Humbert desejava apenas a visão, o toque, uma breve satisfação sexual; as circunstâncias dão a ele muito mais do que queria, muito mais do que estava preparado para viver. Ele se vê obrigado a assumir aquela relação por um inteiro, a construir uma vida baseada numa aparência de normalidade, num segredo difícil de manter. O livro avança e fica cada vez mais claro, para o leitor e Humbert, o papel fantasmagórico de Dolores, as fantasias de Humbert, a deterioração da sua personalidade. Em nome dessa relação ele viajará pela América, assumirá uma paternidade mentirosa, manipulará e se deixará manipular e tentará a todo custo obter um amor deturpado antes mesmo de nascer. É um livro interessante e complexo do início ao fim, e em nenhum momento se rende à soluções fáceis. Em resumo: um clássico.

5 comentários em “Lolita”

  1. Esqueço que aqui a gente pode comentar. Adoro Lolita, me detesto por me divertir com Humbert Humbert e por esquecer a idade e a situação de Lolita. O livro é um mundo, mas se você se refere ao filme de Adrian Lyne, pelamordedeus, é uma excrescência, transformou a história num romancezinho porno-light anos 90. Lolita de Kubrick tem aquela coisa de “tá todo mundo louco”, gosto muito. Mas é um livro, acima de tudo, não um filme.

    1. Esse filme mesmo. Não lembro de quase nada, bloqueei totalmente o filme, de raiva. Depois que li o livro já estava me perguntando se não vi o filme com uma visão muito rígida. Então é aquilo mesmo que eu lembro. Humbert Humbert nos mata por ser tão bom nas suas observações, tão divertido, e fazer aquilo com uma criança. A tal parte que ele seduz Lolita, que agrada que busca um livro pornográfico, quase me fez desistir.

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